‘Saia justa’
Antonio Delfim Netto
  Os bancos centrais dos países desenvolvidos, especialmente o dos Estados Unidos e os da zona do Euro e do Japão estão numa situação muito delicada, metidos numa autêntica ‘‘saia justa’’ porque não conseguem informações fidedignas sobre o verdadeiro alcance das patifarias que o sistema financeiro praticou nos últimos dez anos. O problema é que os parceiros do baile suspenderam o crédito que se concediam uns aos outros quando perceberam que não sabiam o tamanho do rombo que cada um escondia e porque passaram a desconfiar das informações de suas próprias instituições. Daí a insegurança das autoridades monetárias para decidir as medidas adequadas para sanar as dificuldades estruturais do financiamento interbancário.
  Quem acompanhou as tentativas do FED nas últimas semanas pôde perceber que Ben Bernanke não sabe muito mais do que cada um de nós sobre a crise americana. Nem mesmo o presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, sabe exatamente o que está acontecendo debaixo de seus pés. É grande a probabilidade que o problema da liquidez internacional piore, exigindo maiores aportes de recursos dos bancos centrais, além da formidável quantidade já despejada no mercado. Ainda é cedo para prever as conseqüências que o estreitamento do crédito vai produzir na redução do crescimento americano. Conseqüências mais graves podem advir do movimento especulativo sobre as commodities que ganhou força nas últimas semanas e isso diz respeito diretamente a produtos de exportação brasileiros. Em todos os mercados financeiros, investidores em Fundos, agentes de bancos e especuladores de variada estirpe estão fugindo de aplicações em papéis e se refugiando em matérias-primas, desde petróleo e metais a alimentos como trigo, soja, milho, café, etc. Uma parcela expressiva do aumento no preço desses bens é produto da ação de especuladores que os procuram como reserva de valor para se protegerem da desvalorização do dólar. Está se armando uma nova bolha que já produz certa excitação inflacionária.
  O nosso Banco Central resistiu à tentação no final de 2007, teve paciência e reagiu corretamente, pois logo a subida dos preços que parecia se generalizar esfriou e eles voltaram ao normal. Não havia e não há, efetivamente, nenhuma razão para se imaginar um disparo da inflação. Ela está bem ancorada nos 4.5% e com a abertura de comércio externo que temos é muito pouco provável que uma alta de preços se sustente.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP e ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento


Eis a Páscoa da vida
Dom Orlando Brandes
  A festa da Páscoa e a Campanha da Fraternidade falam da vida. A notícia, porém, mais surpreendente e inaudita é a ressurreição de Jesus e a de todos nós. A vida tem a última palavra. Com a ressurreição foi morta a própria morte, ultrapassada a reencarnação e vencido o absurdo. Nossa opção pela vida, se expressa na defesa dos caminhos da vida, da cultura da vida e na missão de profetas da vida desde a fecundação até seu término natural. Jesus é a vida de nossas vidas. Deixemo-nos modelar pela vida de Jesus. É o melhor que nos pode acontecer, ou seja, viver o estilo de vida de Jesus.
  Há inimigos da vida e caminhos de morte que precisam ser superados: o álcool, o cigarro, as drogas, as epidemias, o trânsito, a fome, a violência, dentre tantos outros. Há gestos de ressurreição ao nosso alcance: o sorriso, a doação de sangue, de medula óssea, de órgãos, como também a adoção de crianças, o respeito aos idosos, os cuidados com a natureza. Esta é a Páscoa da vida. Quando fazemos o bem e lutamos pelo bem-estar dos outros, sabemos por experiência que nossa vida se enche de sentido, de alegria, de gosto de viver, de plenitude existencial. A felicidade da vida consiste em ajudar os outros a viver bem.
  A ressurreição abre as portas do futuro, é o fundamento da esperança cristã e a culminância da evolução, pois tudo foi criado em Cristo. O nada, o vazio, o absurdo, o desespero, foram vencidos. Caíram os muros da morte, do fracasso e da injustiça, porque a vítima da cruz alcançou a vitória, o maldito do Calvário encheu-se de glória, o fracassado experimentou o triunfo. A ressurreição é a derrota do mal, a continuidade da vida, a invencibilidade do bem, o sucesso da matéria e da criação, a coroação e a festa da vida.
  A ressurreição confirma que Jesus era inocente, que ensinava a verdade, que Ele mesmo era a vida. Com sua ressurreição ressuscitam também o evangelho, o reino, os critérios, os valores, que o nazareno anunciou. Ele que experimentou a estrebaria, a cruz, a morte, agora vive. Ele é a maior fascinação do mundo. Dobrem-se os joelhos, confessem as línguas, cantem os povos: Jesus é o Senhor, é luz das nações. Nele vemos quem é Deus e o que o ser humano deve ser. Seguir Jesus é carregar a cruz e participar da glória.
  Pela graça da ressurreição e pela esperança que ela produz podemos, ‘‘corrigir os indisciplinados, confortar os fracos, amparar os pusilânimes, refutar os opositores, precaver-nos dos maliciosos, instruir os ignorantes, estimular os negligentes, frear os provocadores, moderar os ambiciosos, encorajar os desanimados, pacificar os litigiosos, ajudar os necessitados, libertar os oprimidos, demonstrar aprovação aos bons, tolerar os maus, amar a todos’’ (S. Salvi, nº 29). Eis a páscoa da vida. O ser humano não existe para a morte, mas para a plenitude da vida, a sobrevivência, a eternidade.
DOM ORLANDO BRANDES é Arcebispo de Londrina


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