Mercado e fé: a mão e a luva
Clodomiro José B. Júnior e Stela de Castro Bichuette
  Machado de Assis, em 1862, enviou uma carta ao Bispo do Rio de Janeiro, queixando-se da ‘‘materialização grotesca das coisas divinas’’, ressaltando que elas devessem receber tratamento mais elevado. ‘‘Não serei exagerado’’ - registra ele - ‘‘se disser que o altar se tornou balcão e o evangelho, tabuleta.’’ O objeto da crítica era direcionado às coisas banais do catolicismo, na época.
  Hoje, jornalistas que tecem manifestações críticas em relação a entidades religiosas portadoras de imensa riqueza material sofrem ações judiciais, sob alegação de discriminação. Ainda assim, o posicionamento crítico da imprensa deve ser levado adiante com a mesma coragem de nosso escritor centenário, pois não se critica a religião e sua liberdade de expressão, mas a lógica mercantil exercida em nome da fé. As denominações religiosas que frutificaram com base na teologia da prosperidade buscaram fundamentar suas prédicas salientando a realização das bem-aventuranças ainda neste mundo: no aqui e no agora. Um verdadeiro maná ao sabor da pós-modernidade. Nada deve ser protelado, devendo tudo ser desfrutado no presente eternizado, principalmente, nos grandes templos de compras, paraísos da suposta felicidade humana.
  A pregação passou a enfatizar que os bens do mundo estão aí para serem consumidos, claro, segundo as regras do capitalismo. E por esse caminho continuam seus oradores a perorar colocando Deus como aquele que deseja refazer o contrato (não aliança) com os homens, rompido pelo pecado. Em se tratando de um contrato significa haver direitos e deveres de ambas as partes: da parte de Deus, a promessa de cumprir sua palavra e dar em dobro tudo aquilo que a ele seja oferecido; da parte dos homens, a adesão integral a ele pela fé, materializada no dízimo. Conseguiram com isso instrumentalizar a religião, por um lado, assegurando a legitimidade daqueles que pedem gordas quantias em dinheiro, e, por outro, não devendo o fiel que concede tais cifras, ser qualificado como ingênuo e desinformado, mas como um típico investidor capitalista à espera de seu sócio restituir-lhe em dobro o investimento feito no mercado da fé. Essa lógica deixa desnuda a ambição de igrejas mercadológicas, nas quais seus fundadores e líderes são suspeitos de enriquecimento ilícito e, ao mesmo tempo, a ganância de fiéis ávidos por prosperar materialmente. Fazendo-se ainda menção ao bruxo do Cosme Velho, o título de um de seus romances, com a devida ressalva, serve de trocadilho para expressar essa lógica de cumplicidade interesseira entre pregadores e pagadores: a mão e a luva.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR e STELA DE CASTRO BICHUETTE são respectivamente professor do departamento de Filosofia e doutoranda em Letras na Universidade Estadual de Londrina


Cristianismo e células-tronco
Elcio Rossi
  A Igreja Católica tem carregado o peso da responsabilidade de questões polêmicas como aborto, homossexualismo e, agora, a bola da vez é a questão das células-tronco. Vale dizer que vivemos em um país predominantemente cristão e cristianismo é diferente de pertencer a essa ou àquela religião. Cristianismo significa crer em Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador da humanidade, além de crer em Deus e na Bíblia como sua Palavra inspirada como regra de fé e prática para o viver do homem. É assim que todo cristão deveria pensar.
  Se Deus é o criador, onipotente, ele não pode ser diminuído. Se Ele é onipresente, nada pode escapar de sua presença e se Ele é onisciente, não pode ser desacreditado, pois, por ser perfeito em sabedoria, tudo conhece e não comete erros. Se, portanto, Deus é inerrante, assim o é também sua palavra. Dessa forma, a Bíblia não está sujeita a interpretações filosóficas e não pode ser desacreditada por teorias científicas. Aliás, a verdadeira ciência está em perfeita conformidade com as Escrituras (infelizmente, não disponho de espaço para citar algumas leis científicas comprováveis na Bíblia), o que mostra que ela resiste a todos os testes e ninguém a pôde refutar até hoje. Assim sendo, toda crítica direcionada para a Bíblia, torna-se uma crítica ao próprio Deus.
  Deus é o criador de todas as coisas. Quem cria, estabelece as regras de funcionamento. É assim com o universo, que funciona por meio de leis naturais. Deus está acima de toda religião, logo, o que importa não é o que essa ou aquela religião ou líder religioso pensa, mas o que Deus pensa. E o que ele pensa está registrado em sua Palavra. De outra forma, não poderíamos conhecer seus pensamentos. E a questão das células-tronco? Existe um posicionamento bíblico? Vejamos algumas citações: Salmo 139:16 - ‘‘Os teus olhos me viram a substância ainda sem forma’’; Jeremias 1:5 - ‘‘Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci’’; Efésios 1:4 - ‘‘Assim como nos escolheu nele (Jesus) antes da fundação do mundo’’. A vida pertence a Deus e esses e outros textos indicam que, para ele, a vida não começa na fecundação, mas antes dela. A gestação e, por fim, o nascimento são apenas a conclusão de um projeto maravilhoso de Deus para a humanidade tanto amada por Ele.
ELCIO ROSSI é mestre em Ciências pela Universidade Estadual de Londrina e docente de ensino superior

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