ESPAÇO ABERTO
A mulher e a defesa da vida
Dom Orlando Brandes
A Campanha da Fraternidade sobre a defesa da vida olha com especial carinho e compromisso a mulher na Igreja e na sociedade. Hoje celebramos o Dia Internacional da Mulher. Nossa reflexão enfoca a hora da Mulher. Todo homem nasce de uma mulher e sobrevive graças a ela. Mulher quer dizer geradora e promotora da vida. O filho de Deus também é nascido de mulher. Todos somos, em relação à mulher, ossos de seus ossos, carne de sua carne. Deve, pois desaparecer toda discriminação e inferioridade feminina.
Mais da metade da humanidade é do sexo feminino. Isso revela que a promoção da mulher é um bem pra toda a sociedade. A reconciliação do homem e da mulher, é a primeira guerra que deve ser superada. A divisão de classe mais humilhante é a que existe entre o homem e a mulher. Infelizmente essa divisão é matriz de todas as outras. Uma nova sociedade e um mundo sem males, começa pela igualdade de dignidade do homem e da mulher. Este é o sonho de Deus. Homem e mulher são como a costela: Devem andar lado a lado, como parceiros e não um contra o outro, nem um maior que o outro. O sonho divino é o de uma só carne, ou seja, de comunhão, unidade, respeito, complementaridade.
Famosas mulheres marcam a história da salvação e a sociedade atual. Como não reconhecer a força e a ternura da mulher nas escolas, hospitais, Igrejas, empresas, partidos, etc.? A família, porém, é lugar privilegiado onde homem e mulher, na condição de esposos e pais, influem poderosamente na educação dos filhos e na construção da sociedade. A libertação e emancipação da mulher não podem roubá-la de junto à família. O feminismo radical já foi revisto e redimensionado por feministas radicais. Há linhas feministas que beiram o revanchismo, o fanatismo, o radicalismo. Isso mais prejudica que constrói.
Na Igreja, Maria é anterior a Pedro. O perfil mariano tem prioridade ao perfil petrino. A mulher e leiga Maria é a mãe e discípula de Jesus. Partindo de Maria abrem-se muitas portas para novos ministérios da mulher. Quando não se leva a sério o feminino que se carrega dentro de si e que está na sociedade e na Igreja, corre-se o risco de ser prejudicado pela efeminação ou pelo machismo. O mundo machista é frio, prepotente, patriarcal. Criou a guerra, a destruição da natureza, o crime organizado, as gangs, a anarquia. Já a mulher é mais criativa, intuitiva, dotada de bom senso e calor humano. Homem e mulher foram criados para serem companheiros, parceiros, aliados, con-criadores, complementares. Um aprende do outro, cresce com o outro, se encontro no outro. Sua vocação é para a comunhão no amor. Machismo e feminismo radicais são aberrações. É hora de superar o competitivo e abraçar o cooperativo, e inventar caminhos novos, pois o que faz a evolução é a confraternização, a associação, a colaboração.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Mulher: luta, ousadia e sensibilidade
Elsie Silva
No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos situada em Nova Iorque fizeram greve. Elas reivindicavam a diminuição da jornada de trabalho (trabalhavam 16 horas diárias) equiparação salarial com os homens e tratamento digno. Como resultado, 130 tecelãs morreram carbonizadas no confronto. Somente no final de 1910, em uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que dia 8 de março passariam a ser o Dia Internacional da Mulher. O objetivo da criação desta data, a meu ver, foi antes de mais nada perceber o papel da mulher na sociedade atual para poder lhe dar voz. Dar voz significa fazer com que elas percebam que ocupam um espaço importante na sociedade e, a partir disso, serem formadoras de opinião, transmitir o que sentem, o quanto são importantes, perceptivas, sensíveis, capazes e, sobretudo, fortes.
É necessário que reconheçam que elas podem participar ativamente da construção da história, no sentido de diminuir o preconceito e a desvalorização. Nossas antepassadas deram a vida por isso. Quanto tempo nossa cultura foi impregnada pelo machismo, mas as mães, apesar de sofrerem com isto, continuavam educando os homens com base em valores machistas. Por que isto acontecia? Talvez porque não se permitissem pensar que podia ser diferente, que estes valores teriam que ser perpetuados. Mas estão conseguindo pensar diferente, entendendo e formando seus filhos com a visão de que a educação deve ser baseada na igualdade dos direitos. Assim, todos têm a ganhar.
Para exemplificar o quanto a mulher brasileira foi deixada à parte da vida política do país, somente em 1932 ela pôde votar. Faz-se necessário perceber que apesar de toda discriminação que tem enfrentado, ela tem se superado em todos aspectos, seja no lado pessoal, profissional ou familiar. Hoje a mulher exerce praticamente todos os cargos a que se dispõe; apesar da tripla jornada de trabalho, não perdeu seu lado feminino, tem se mobilizado para ter uma vida saudável e continua, na sua maioria, exercendo com afeto seu papel de mãe. A mulher é uma guerreira, sensível, inteligente, sobrevivente, que deve fazer questão de ser tratada com dignidade, respeito, carinho e amor por todos que a cercam. Quando este seu direito for adquirido, não será mais necessário um dia específico dedicado à mulher.
ELSIE SILVA é psicóloga em Londrina





