O governo desrespeitou
quem investiu
de forma
responsável e
seguiu as normas do SISBOV. Privilegiou poucos pois a suspensão
do embargo é
apenas teórica


A Associação Nacional dos Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC) considera
que o primeiro ato desse teatro que está em cartaz - A suspensão do embargo
pela União Européia (UE) da carne bovina brasileira - encerrou como a
vitória de Pirro.
Vitória ''pírrica'' ou vitória de Pirro é uma expressão utilizada
para manifestar uma vitória obtida a alto preço, potencialmente acarretadora
de prejuízos irreparáveis.
Esta expressão não se utiliza apenas em contexto militar, mas também está, por analogia, ligada a outras avidades como economia, política, literatura e o desporto, para descrever uma luta similar, prejudicial para o vencedor.
O palco para o ''gran finale'' armado pelas autoridades que estão
negociando, em nome dos bovinocultores de corte, a suspensão do embargo da
carne bovina brasileira começou a encerrar os atos desta grande comédia.
No primeiro ato que se encerrou, deram ampla divulgação de que o
embargo foi suspenso com a aprovação pelos europeus de uma lista de 106
fazendas aptas a exportar para aquele mercado.
O conteúdo estampado nas notícias vindas da fonte negociadora
tentava demonstrar que conquistamos uma vitória com a abertura para 106
fazendas e agora apontam que entre elas tem uma que é de produção de gado
leiteiro e outra de criação de gado de elite, sendo que ambas não produzem
animais para abate.
Os bovinocultores de corte terão que repetir Pirro na análise
dos efeitos dessa vitória: ''Mais uma vitória como esta e estou perdido''.
Explicamos o porquê:
A quantidade de carne produzida por estas 106 ou 104 fazendas localizadas em
pontos desconcentrados inviabiliza o abate e a formação de contêineres para
os cortes pretendidos.
A influência no mercado europeu com estes volumes é pífia e motivo de
chacotas.
Os efeitos no mercado interno são irrelevantes, visto que, no total, as
exportações de carne in natura para UE representam 2,5% da produção de carne
brasileira. Imagine o que representam as 106 ou 104 fazendas premiadas.
As autoridades negociadoras por parte do Brasil admitiram a costumeira
submissão ao importante cliente, que precisa de nossa carne, e nossos
representantes admitiram a escolha por eles de quais fazendas estariam aptas
a exportar.
As autoridades brasileiras desrespeitaram o direito de todos aqueles
bovinocultores que investiram de forma responsável e atenderam as normas do
SISBOV, privilegiando poucos em benefício de nada, pois a suspensão do
embargo é apenas teórica; na prática continua da mesma forma. E o pior,
saímos desmoralizados.
A ANPBC, em Manifesto divulgado em 15 de fevereiro, propôs a suspensão das negociações com a UE por um período no qual as autoridades brasileiras, em conjunto com todos os demais componentes da cadeia produtiva da carne, pudessem, de forma ordenada e definitiva, encontrar soluções que propiciassem o retorno àquele mercado e a outros também exigentes.
Naquela ocasião já percebíamos que teríamos a Vitória de Pirro, pois a
insistência desmedida das autoridades em aceitar as imposições era fato
consumado.
Continuamos com a mesma proposta e nosso Manifesto continua, com o intuito
de propor e discutir essa situação de interesse dos bovinocultores de corte,
que não são consultados ou ouvidos. Somos, sim, desmoralizados e
desrespeitados nas negociações pelos nossos representantes.
Provavelmente estaremos mais uma vez pagando a conta por esta
vitória de Pirro, se não por prejuízos econômicos, será por prejuízos
morais.

André M. Carioba Arndt é presidente da Associação Nacional dos
Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC).

mockup