ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Celio Semprebom 
Conseguiremos
mudar o ensino se houver investimento
e incentivo em tecnologia,
criação do cargo
de diretor-administrador,
atualização dos
profissionais e
estímulo
à dedicação exclusiva
para professores
Constato que a opinião da FOLHA de 13/2/08, com o título Professor melhor com pagamento por mérito traz uma discussão importante no que concerne à melhoria na qualidade da educação.
Quando a Secretária de Educação de São Paulo sugere que não será o aumento salarial que melhorará a educação, ela tem parte de razão - relativizo pois não considero que apenas este aspecto modificará a atual conjuntura. Mas ela também se contradiz quando defende que quem melhorar receberá prêmio de três salários/ano por mérito. Ora, isto não é estímulo salarial a quem precisa justamente de melhores rendimentos?
Quando ela se preocupa com os bons professores, premiando-os (e recompensando suas escolas), assim também são premiados os alunos com qualidade educacional. Ela se limitou a apenas este aspecto, mas temos de pensar nas escolas que supostamente não receberão as honrarias financeiras. O mau professor, que não se engajou para ganhar os parcos três salários, será responsável pela continuidade de uma escola de baixa qualidade que ainda, como punição, não receberá mais verbas. É claro que a estratégia proposta pela Secretária só pioraria a situação das crianças destas escolas. Simplesmente premiar a quem melhor trabalha não será o caminho mais acertado. O que não se pode punir são as crianças que não têm nada a ver com história de salário. Na iniciativa privada, quem não alcança os objetivos estabelecidos pela empresa - mesmo após as oportunidades constante de reciclagens oferecidas - é demitido. A falta de retorno de qualificação pode custar-lhe a demissão. O que falta na educação pública é investimento e reconhecimento de seus profissionais. Vivenciei, como professor da rede estadual, a educação de nosso Estado desde 1975. Há tempos, com apenas 19 aulas eu fazia financeiramente o que seis padrões hoje não conseguem fazer; vi pessoas que trabalhavam na Receita Estadual e Federal largarem suas atividades e passarem a lecionar para o Estado. O professor, até 1989, era valorizado e respeitado; a educação era de ótima qualidade. Desde então, a defasagem salarial fez com que professores se saturassem de aulas e, se não bastasse, eles hoje têm de desenvolver trabalhos extra-escola para sobreviver. Sem tranqüilidade financeira, como poderão dedicar-se à sua formação para tornarem-se ótimos profissionais?
O ato de separar e premiar provocará um apartheid na educação do Estado: as escolas de qualidade de um lado e as escolas de baixa qualidade de outro. Imaginem os senhores, os pais de alunos matriculados em instituições de baixa qualidade brigando por vagas nas escolas de qualidade (selecionadas e intituladas pela Secretária de Educação).
A eficiência das particulares comprova que os governos são mal gerenciadores da Educação neste país. Vemos constantemente o dinheiro do Fundeb sendo utilizado para outros fins. Conseguiremos mudar sim se houver muito investimento no setor de forma ampla, o que abarca incentivo em tecnologia, criação do cargo de Diretor-administrador, atualização continuada dos profissionais e estímulo à dedicação exclusiva para professores, assim como é a dedicação exclusiva dos Juízes, Deputados, Senadores e Vereadores. Continuamos vendo professores viajando quilômetros no lombo de burros ou de ônibus, ganhando menos que o salário mínimo e contentes porque aquele vereador, aquele prefeito ou deputado foram seus alunos. Presenciamos ainda crianças sentando no chão por falta de carteiras, escolas sem quadro negro e professores tendo que levar giz de casa e até comprando caderno com seu próprio salário para aquela criança que não pode adquirir materiais. A Secretária, no intuito de propor a implantação de sua idéia, comparou o Brasil com a Inglaterra e Estados Unidos, esta comparação deveria ser realizada em todos os aspectos de investimentos na educação, no que e onde se investe lá e onde estes investimentos não entram aqui. Já se faz hora dos professores pararem suas atividades e traçarem uma nova educação para nosso país, onde ela se faça a partir de investimentos da sociedade, empresariado, governo e professores em planos a serem cumpridos no prazo de dez anos. E que estas parcerias tenham auto-gestão a ponto de poderem responsabilizar as partes que falharem no processo. Faz-se necessário muito cuidado e muita discussão para uma mudança séria. Outrora, presenciamos diversas mudanças propostas pelos governos n tidas como tábuas de salvação da educação. Exemplo são as leis 4.024 a 5.692, na implantação do contra - turno, do ciclo básico sem reprovação nas séries iniciais, a correção de fluxo etc. Os professores acreditaram em tudo: que iriam mudar a direção da história da educação para melhor. O fracasso de cada uma destas experiências levou os profissionais da educação ao desestimulo e à descrença nos programas governamentais. Estimular o professor para novas mudanças impostas de cima para baixo é cair no vazio e na descrença da classe. Eles já estão vacinados contra as propagandas de governos, contra os programas de educação alardeados como inovadores, contra caminhos sem saída para a solução imediata de problemas que acabam revelando-se em autênticos atalhos de promoção política. Já não suportamos mais ser usados como propaganda enganosa de quem, contornando a solução efetiva do merecido reajuste salarial, aparece de tempos em tempos com esmolas disfarçadas de premiação. Será demais exigir o respeito que os professores - base de qualquer profissional da nossa sociedade - merecem? O professor assalariado, que não pode comprar um livro ou ter seu computador para se atualizar, será sempre um profissional medíocre n não por sua acomodação, mas pela incompetência administrativa do governo.
Celio Semprebom (professor da rede estadual e artista plástico) - Ibiporã


