Um homem simples e muito engenhoso
Apolo Theodoro


Acho que 50 linhas é pouco para falar do que foi Wilson Moreira para Londrina e, porque não dizer, para Estado do Paraná, como exemplo de homem público. Gostassem ou não do seu jeito severo de governar, Moreira era admirado até pelos adversários que não deixavam de reconhecer o administrador que ele foi - tanto na atividade privada, como empresário de sucesso em diversas áreas, como na administração pública, talento que se tornou conhecido após duas passagens pela Prefeitura de Londrina: como secretário de Obras do então prefeito José Richa (1972/1976) e como prefeito da cidade (1982/1988).
Estivesse onde estivesse, em casa, na empresa, nas fazendas ou na Prefeitura, nada escapava dos olhares atentos de Moreira quando se tratava de economizar.
Indagado se era um ''munheca'' respondia pausado: ''Depende do que se entende por munheca. Se munheca for sinônimo de seguro, aí sim, seguro eu sou. Só gasto onde há necessidade e desde que haja recursos. Mas não sou mesquinho!'' Quando ele assumiu a Prefeitura de Londrina em 1982, os cofres da Prefeitura só não estavam vazios porque deixaram lá 49 centavos do já extinto cruzeiro. Para completar o quadro de terra arrasada, a cidade tinha uma dívida de bilhões de cruzeiros e a Prefeitura não tinha crédito nem pra comprar merenda escolar, embora fosse voz corrente na cidade que a Prefeitura era ''só pepino!''
Ainda bem que a cidade escolheu um bom descascador de pepinos para tirá-la daquele caos financeiro e moral que estava instalado no Paço Municipal. As ruas pareciam queijo suíço, eram buraco só; a frota sucateada e a Sercomtel já quase sob controle da voraz Telebrás.
Mas não é desse Moreira das grandes decisões que quero falar; desse Moreira negociador que dobrou o Banco Safra e reduziu uma dívida de 470 para 100 milhões; nem do Moreira que recuperou a Sercomtel e a colocou na linha de frente da telefonia nacional e inúmeros outros feitos: quero falar de outro Wilson Moreira.
Quero falar daquele que as pessoas simples diziam, até com certa reverência: ''o homem é engenheiro 5 vezes''; mas que, na maior modéstia, dizia ter sido formado engenheiro olhando a vida do homem do campo - que ele era - na lida do dia-a-dia na zona rural de Minas Gerais de onde veio. Ele dizia que ''a vivência rural faz você pôr a imaginação para funcionar''.
Foi vendo trocar roda de carroça e canga de boi que ele aprendeu alguns princípios de tração; a força motriz ele aprendeu vendo o movimento das águas pondo uma serraria para funcionar. Moreira não tinha vergonha de dizer que, antes de ser engenheiro, aprendeu a fazer pontes e pinguelas, além de ter aprendido o uso da alavanca movimentando pesadas madeiras sem fazer muita força.
Quero também falar do administrador das pequenas coisas, das suas incursões Prefeitura adentro em combate ao desperdício, aquelas pequenas coisas que ninguém dá bola, mas que, somadas, fazem um rombo imenso no orçamento. Só para dar uma idéia, a cruzada iniciada por Moreira contra o desperdício de energia elétrica, teve como resultado, nos primeiros seis meses de governo, uma economia de 617 mil cruzeiros, uma quantia considerável para a época.
É célebre na Prefeitura a história dos recados assinados que ele deixava - ''Da próxima vez apague a luz'' - quando encontrava uma sala vazia e a luz acesa; ou quando deixou este recado - ''Favor apagar as luzes'' - ao encarregado do setor depois de apagá-las uma a uma. Achando que era gozação, o funcionário ignorou o pedido. Na noite seguinte, ao encontrar as luzes novamente acesas, Moreira repetiu o ritual da véspera e deixou um último e definitivo recado: ''Hoje eu apaguei as luzes novamente, a partir de amanhã, é a sua vez''. E assim foi até o final do mandato.
Muitas são as histórias. O pão-durismo de Moreira virou lenda: dizem que esvaziou o Igapó para procurar uma moeda que perdera no lago, por descuido, quando ainda era secretário de Obras de José Richa. Mas, lendas à parte, este foi o homem que governou Londrina por seis anos e que muitos consideram como o ''maior administrador'' que Londrina já teve. Como últimas palavras desta homenagem fica a sua definição de bom administrador:
''Tem que ser uma pessoa de muita vivência e moderação; que já tenha sofrido dificuldades sociais e econômicas; que tenha muita saúde e capacidade de decisão. Deve ter também uma visão do conjunto da sociedade, conhecer a história e soubesse também respeitar os pensamentos e ideologias alheias, mas sem se submeter a elas.''
É, 50 linhas não são suficientes para falar de Wilson Moreira.
APOLO THEODORO é jornalista

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