Quaresma e nossas feridas
Dom Orlando Brandes
Quaresma é tempo de mais intensidade espiritual e fraternidade. Peçamos a cura e a superação de nossas cinco feridas, nossas chagas mais comuns.
1. O apego. É a raiz de todo sofrimento moral, de ciúmes, invejas, agressões. O apego que nos torna escravos de coisas e pessoas roubando-nos a liberdade e a paz. Nos tornamos possessivos e dominadores pela força escravizadora do apego que é sempre egocêntrico e costuma vicejar nas trevas da ilusão, da fantasia, do engano. Pior ainda, o apego é uma dependência emocional servil que nos deixa angustiados, ansiosos, atemorizados. A única solução está em tomar consciência de nossos apelos e urgentemente abandoná-los.
2. A rotina. Torna a vida, as pessoas e a existência corriqueiras, chatas, molestas. Faz as pessoas perderem o elã vital e viver na mesmice, na superficialidade, na falta de sentido. A rotina acaba em cansaço e quando não em depressão, reduz a beleza da vida, a graça do tempo. O mistério da vida acaba em trivialidade e pessimismo. Corroi a vida como a traça, a ferrugem, o cupim e a cárie. Há muitas maneiras de superação da rotina como: a oração, o amor no trabalho, a valorização do cotidiano, a gratuidade do agir, a intenção de dar glória a Deus e servir a humanidade em tudo que fazemos. Sem a esperança na glória futura, seremos vítimas da rotina.
3. A mediocridade. É a falta de empenho, de interesse e de cuidado. Muito parecida com a preguiça e com a indolência, a mediocridade nos coloca no patamar da acomodação, dá ética do jeito, da instalação, da meia ciência, da inconsciência. O medíocre diz: ‘‘as coisas são assim mesmo, deixa como está para ver como vai ficar’’. É o aburguesamento, a vida soft e light, a lei do menor esforço, a facilidade, a brincadeira.
4. As preocupações. Nada trazem de soluções, pelo contrário, aumentam os problemas que são antecipados. É uma falta de sabedoria e de discernimento deixar-se afetar pelas preocupações que tiram o sono, apressam o stress, precipitam o nervosismo, destroem a paz e o bom senso. Acarretam a velhice antes do tempo. Nosso lema deve ser: ‘‘Ocupação sim, preocupação não’’.
5. As omissões. É deixar de fazer o bem, fazê-lo pela metade, contentar-se com o mínimo, não usar os dons, as qualidades, as graças, as oportunidades que nos são dadas. A omissão dos pais, professores, médicos, sacerdotes, políticos acarreta uma série de problemas para a sociedade. Os maus são atrevidos, os bons são omissos, eis o drama. Quem prejudica alguém pela omissão tem a obrigação moral de reparar os danos. A educação, a religião, podem nos libertar do veneno da omissão.
   Convertei-nos e curai-nos Senhor.
Dom Orlando Brandes é Arcebispo de Londrina


O taxista e as férias em Miami
Antônio Cescatto
  Leminsky tinha um hábito peculiar: só andava de táxi. Acreditava que esse era o meio de transporte mais civilizado que existia. Pizza, lazanha, trabalho, restaurante, qualquer que fosse o caso o polaco não vacilava: chamava um táxi. E como era um usuário contumaz, dispunha, já, de um motorista particular. Sempre que recorria ao serviço, lá vinha o Fulano, ao qual nosso samurai polaco não poupava elogios.
  Certo dia, porém, ao adentrar no coche, Leminsky foi surpreendido ao receber, do nosso intelectual popular, um folheto no qual ele propunha sua candidatura a vereador. O polaco perdeu o prumo. Vereador? Como assim? Ao nos contar a história, dizia, coçando o bigode, com o olhar assombrado de profunda desilusão: ‘‘Porra, era só ascenção social, cara!’’
  Lembrei disso ao pensar nas recentes estripulias do nosso augusto governador. Depois de chamar para o ringue as empresas de pedágio, os inimigos e os amigos políticos, figuras do passado, do presente e do futuro e, mais recentemente, os procuradores da república; depois de conseguir, a duras penas, um golpe de censura e de recorrer a todos os relicários esquecidos para conseguir apoio; e depois de, finalmente, nos brindar com uma receita imperdível de ovo frito, sua excelsa autoridade, cansado das refregas que alimentam seu ego e afundam o Estado, decidiu tirar férias. Ora, pois. Tchecolosváquia, Polônia, Albânia, Alemanha Oriental, os paraísos perdidos do sonho socialista? Não, nosso condutor de destinos, com toda sua entourage, partiu para aquilo que um publicitário mediano não deixaria de chamar de ‘‘Férias do Caribe’’.
  O primeiro estágio da viagem inclui um encontro em Cuba. É o Encontro Pelo Equilíbrio Mundial. Não, não é piada. Encontro Pelo Equilíbrio Mundial. Realmente nos deixa reconfortados saber que em um mundo tão conturbado e caótico, baluartes da serenidade e dos valores democráticos como nosso governador e o presidente Fidel Castro se reúnem para nos indicar caminhos. Ficamos pensando quem mais irá participar do encontro. Britney Spear, talvez?
  Representantes dos Gaviões da Fiel e dos Hooligans, quem sabe?
  Não contente com isso, nosso prócere anuncia que parte, em seguida, para uma semana de férias em – nada menos, acreditem – do que Miami, a meca do capitalismo decadente, a Babilionia do kitsch, o reino da Barbie, do Ken, do Versacce, dos topetes e dos permanentes.
  É aí que ressurge a perplexidade do polaco, como que a nos dizer: quer dizer então que toda a opção pelos pobres, a luta intransigente contra tudo e contra todos, não passava disso – férias em Miami?
  Help, Mickey Mouse!
Antônio Cescatto é publicitário em Curitiba

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