ESPAÇO ABERTO
O carnaval do Brasil mais parece um mercado de compra e venda de bundas
Doutor Rosinha
Nos últimos dias, liga-se a TV e lá estão as bundas. Meu computador insiste em dizer que a palavra está errada, e que devo substituí-la por bandas, bodas, bombas, bondes ou bordas.
Não sei por que o computador é tão moralista. Afinal, a palavra designa parte da anatomia do corpo humano e existe nos melhores dicionários de português. Inclusive no linguajar popular, quando o sujeito tem muita sorte dizemos que nasceu com a bunda para a lua.
Bem, ocorre que hoje, sem pedir licença, as bundas, que daqui para a frente, neste texto, vou chamar de bumbuns para não ter de brigar com o computador, invadem as nossas casas. Invadem como que numa disputa, segundo alguns, de tamanho, formato, beleza, cor, brilho e sei lá o quê.
Nunca me preocupei com a beleza do meu bumbum, poupança, nádega ou o nome que tenha. Sim, sempre soube que há os que se preocupam e inclusive fazem cirurgia plástica: tiram ou acrescentam partes. Para alguns, o bumbum é o máximo. E entenda o que quiser com máximo.
Mas, já que entrei no tema, vou dar meu palpite. Creio que os bumbuns mais bonitos são os dos lactentes. Como pediatra, vi muitos. A pele é lisa, não tem pelo, não tem espinhas, nem celulite. Meu deus, a celulite leva algumas mulheres a quase perder o juízo. O que os bumbuns dos bebês têm, às vezes, é um odor característico do que deram para ele comer ou mamar. Nos primeiros seis meses o ideal é dar somente leite materno.
Logo após voltar do exílio, para tratamento médico, uma vez que estava com câncer em um dos pulmões, o professor Darci Ribeiro deu várias entrevistas. Em uma delas (não lembro para qual veículo da imprensa), foi perguntado em que momento se deu conta de que estava no Brasil.
Respondeu que fora quando a enfermeira entrou no quarto em que estava internado, e disse: Vai baixando o pijama que vai tomar uma injeção no bumbum. Revelou que, naquele momento, virou para ela e disse: Só mostro o meu se você mostrar o teu. Conta Darci Ribeiro que ela não teve dúvidas, ergueu a saia e mostrou a poupança.
Depois disso, sentiu que efetivamente estava no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro.
No final do ano passado, li que a búlgara Kristina Dimitrova, 19 anos, e um romeno de nome Andrei, 24, foram eleitos como os donos dos mais belos bumbuns do mundo. Quando li isso logo perguntei: Será que alguém saiu por aí pesquisando qual é o bumbum mais bonito do mundo? Será que veio no carnaval do Brasil para fazer a pesquisa? Ou viu pela TV? Ou as pessoas enviavam fotos?
Imagino que os pesquisadores ou o júri devem ter visto coisas indescritíveis, pois todos imaginam ter o mais belo bumbum, principalmente se for para faturar algum dinheiro, como foi o caso. Ambos faturaram 10 mil euros, conforme matéria publicada no site Terra em 31/10/2007, o que equivale a cerca de 25 mil reais.
Depois de todas essas dúvidas, li no final do texto a informação de que a escolha do bumbum mais bonito foi feita por análise de fotos. Não sei se vai haver um novo concurso de o mais belo bumbum do mundo. Caso aconteça, a regra do concurso é enviar as fotos do bumbum no seu estado mais fotogênico. Com calças ou roupas íntimas, vale tudo, menos aparecer completamente nu.
Portanto, creio que as bundas do carnaval brasileiro não valem. Não sou moralista, mas o carnaval do Brasil mais parece um mercado de compra e venda de bundas.
ROSINHA, FLORISVALDO FIER, é médico e deputado federal por Curitiba
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