É ético estudar o cérebro dos criminosos?
Aguinaldo Pavão
  Neurocientistas e geneticistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da PUC-RS pretendem mapear o cérebro de 50 adolescentes homicidas. Eles ambicionam investigar as possíveis causas biológicas da violência. Essa iniciativa deveria ser louvada por todos aqueles que amam a verdade. Porém, a iniciativa recebeu uma forte reação da sociedade e do Conselho Regional de Psicologia do RS. Eles pretendem impedir a realização da pesquisa.
  O documento do CRP-RS traz essa pérola: ‘‘Acreditamos que a questão criminal na contemporaneidade deva ser tratada na sua complexidade, sendo impossível chegar a certezas absolutas, objetivas e observáveis, tanto química quanto biologicamente, sobre a subjetividade humana, através da utilização de métodos exclusivos das ciências naturais a fim de produzir ‘verdades’ unilaterais para algo que é de outra ordem’’.
  Mas quem acredita em certeza absoluta? E que história é essa de que os métodos da ciência natural produzem verdades unilaterais? Esses psicólogos estão duelando com moinhos de vento.
  É preciso dizer que a pesquisa não fere a ética, pois não afronta a liberdade das pessoas, não viola a dignidade moral de ninguém.
  Por que algumas pessoas são assassinas? Essa pergunta não deve ser respondida ideologicamente. Isso parece óbvio. Se há um interesse genuíno pela verdade, então a pergunta deverá suscitar uma investigação criteriosa. Os resultados dessa investigação jamais serão peremptórios e terminativos, pois não é essa a natureza do saber científico.
  Só posso entender tais reações contrárias à pesquisa como censura à investigação científica. Com que direito alguém pode impedir uma pesquisa acadêmica? - desde que não firam princípios morais - devem ser criticadas, jamais impedidas. As pessoas que pretendem impedir a pesquisa estão certas de que não há fator biológico nas práticas homicidas? Ora, se estão certas disso - como também poderão muitos estar ainda convencidos de que o Sol gira em torno da Terra - qual seria o problema do prosseguimento da pesquisa? Certamente a pesquisa iria chegar à conclusão de que não existe qualquer base biológica para a violência. E se chegasse a essa conclusão deveria ser criticada pois não teria sido bem feita. Afinal, é o Sol que gira em torno da Terra, não é? Só que seria saudável não penarmos mais na Inquisição se alguém quiser investigar se é verdade mesmo que Sol gira em torno da Terra.
AGUINALDO PAVÃO é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina


Progresso e decadência
Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  Tão rápida é a ascensão, como também é a decadência. O Brasil é um país de contrastes: possui a capacidade de atingir elevados patamares e também de apresentar atraso em termos de desenvolvimento. Londrina é um exemplo deste contraste. A ‘‘Pequena Londres’’ teve um histórico marcado pelo auge da cafeicultura, pela vinda de vários povos de outros países, e também pelas melhorias em sua infra-estrutura. Entretanto, tal auge vem sendo ofuscado por diversos acontecimentos recentes (a cassação de um ex-prefeito muito estimado por setores carentes da cidade, a má administração atual em termos socioecômicos, o escândalo envolvendo vereadores e empresários). Exemplo de progresso no passado, rapidamente tal imagem positiva foi substituída pela de decadência. E isso não é muito diferente do que ocorreu em outras regiões do País, como Serra Pelada, Rio de Janeiro, região Norte e a própria capital Brasília. São regiões distintas, mas em essência possuem em comum o fato de a má administração visar somente o imediato, negando-se a assumir a responsabilidade sempre permanente da ética e da transparência para as futuras gerações.
  Em nações desenvolvidas, algumas cidades possuem centenas de anos de existência. E em boa parte delas, tudo está intacto: arquitetura, cultura, modo de convívio da população e, principalmente, a mentalidade de preservar o que de bom foi erguido pelos antepassados. O Brasil ainda é um país jovem, mas se não começar a preservar essa mentalidade jamais se desenvolverá, visto que um homem se torna amadurecido quando ele é fiel à suas idéias. O ‘‘adolescente’’ Brasil ainda é influenciado pelo imediatismo, pelo agora, pelo passageiro, pela crítica destrutiva. O que se esperaria de seu futuro se ele nem sequer age voltado para o amanhã? O que está acontecendo no País hoje seria reflexo dessa forma de pensamento, que parece que se alastrou de modo tão rápido quanto a dengue e a febre amarela.
  Os fatos ocorrem de modo rápido, e reside aí o perigo de tais eventos serem considerados como corriqueiramente aceitáveis. Se o País teve exemplos no passado de auge, por que deixar de acreditar que isso é passado? O passado influencia o futuro, e de que vale viver somente do presente se este não permite duas coisas fundamentais para o progresso: o orgulho de um passado de auge como sinal de continuidade de tal desenvolvimento, e a contestação da decadência (que pode vir futuramente) como forma de prever tal catástrofe.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina da Universidade Estadual de Londrina


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