Fraternidade e opção pela vida
Dom Orlando Brandes
  A Campanha da Fraternidade (CF) de 2008 tem como tema a: defesa da vida e como lema ‘‘Escolhe pois a Vida’’ (Dt 30,19). O Documento de Aparecida fala que a Igreja tem feito uma opção pela vida (n.º 417). As ameaças, agressões, aviltações que ferem a vida são: aborto, eutanásia, fome, trânsito, Aids, terrorismo, guerra, violência, aquecimento global, alcoolismo, etc.
  1. A vida é um bem primário. É o fundamento das instituições humanas, da política, da economia. Sem o respeito pela vida nada se sustenta. Esta prioridade da vida se expressa no mandamento ‘‘Não matarás’’.
  2. O projeto de Deus é um projeto de vida. Deus é fonte da vida, Senhor da vida, Deus dos vivos. Seu projeto de salvação é um projeto de vida para todos. Vida humana, cristã e eterna. Jesus é a verdadeira vida. Tudo na fé e na Igreja deve concorrer para o bem e promoção da vida.
  3. A vida nova em Cristo. Jesus torna a vida bela, livre, plena e grande. É o evangelho da vida. Seguindo Jesus temos a vida em plenitude. Tão preciosa é a vida que Jesus entregou sua vida por todos.
  4. Os caminhos da vida. A Palavra de Deus manda escolher os caminhos da vida. Existem os caminhos da morte. É preciso escolher, decidir, optar. O caminho da vida é o amor, a verdade, a fé, a liberdade, a doação da vida.
  5. O reino de Deus, reino de vida. Faz parte da evangelização a promoção humana, a libertação integral, os direitos humanos. Assim, o reino de Deus é um reino de vida, porque é pão na mesa, saúde, perdão, amizade, fraternidade e principalmente a vida em união com Deus, filiação divina.
  6. Pastorais, a serviço da vida. Principalmente as pastorais sociais são ações concretas em favor da vida. Somos discípulos missionários a serviço da vida desde o útero até à eternidade.
  7. Os lares sejam ninhos de vida. Na família e na sociedade a vida deve ser acolhida amada, respeitada desde a concepção até seu fim natural. O aborto é uma pena de morte contra o inocente e indefeso. É homicídio e crime. É prática da violência e derramamento de sangue inocente.
  8. A vida é maravilha e compromisso. A vida humana é única, original, imortal, irrepetível. Vivemos porque somos desejados, queridos e amados por Deus. Por outro lado, a vida é compromisso, é tarefa, é missão. Ninguém existe por acaso, mas por amor providencial. Fecundação, gestação, parto, crescimento são milagres e maravilhas da vida. Tudo converge em favor da vida. Amém à vida.
  9. A vida é uma boa notícia. É uma boa nova, o evangelho da vida. Vida cósmica, vida humana, vida cristã, vida social, vida eterna são etapas e elos da vida que se interligam. A vida é um prodígio, um mistério de amor. É preciso defendê-la.
 10. O sentido da vida. Nascer, sofrer, vencer, morrer, ressuscitar não é fruto do acaso, nem do absurdo, mas do amor criador. Somos imagem e semelhança de Deus, somos filhos e filhas seus, somos herdeiros da glória que há de vir.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Polícia carioca e o estopim da crise
Dirceu Cardoso Gonçalves
  As manifestações e o surpreendente afastamento de mais da metade dos oficiais superiores trazem o ‘‘racha’’ à Polícia Militar carioca. Podem até levar a uma situação insustentável, com a apatia generalizada da tropa e a conseqüente quebra da cadeia de comando. Se os notáveis da corporação resolveram trocar o conforto dos seus postos pela luta salarial é porque a situação deve ser gravíssima. Se medidas urgentes não forem tomadas, em razão da similaridade, isso pode ser o estopim de um movimento nacional de resultados imprevisíveis. As polícias estaduais (militares e civis) estão com salários defasados há anos, os governos mostram-se insensíveis e chegam a irritar os quartéis, ao usarem sofismas e meias verdades em suas declarações para justificar a falta dos reajustes.
  A greve-relâmpago de policiais já se tornou habitual em vários Estados e até contabiliza mortes no seu decorrer. Felizmente, o Rio ainda não amargou a paralisação total, mas convive com problemas decorrentes dos baixos salários.
  Os acontecimentos cariocas não devem servir de ameaça, mas como alerta aos governadores dos outros Estados. Se a polícia, que já trabalha desmotivada, resolver cruzar os braços, teremos grave e imprevisível crise e toda a população sofrerá. Não haverá Força Nacional de Segurança capaz de resolver o problema. O Estado-empregador não pode deixar que isso aconteça, mas só conseguirá se abrir o diálogo franco com a classe, sem arrogância nem radicalização patronal.
  Há descontentamento em todos os Esados. Em São Paulo, onde temos a Polícia Militar mais legalista do país, corre a carta assinada por 260 coronéis da reserva - entre eles ex-comandantes gerais - que repudia a política salarial de abonos, a exclusão de inativos e pensionistas, e a propaganda oficial enganosa a respeito dos ganhos dos policiais. O descontentamento é geral, da base à cúpula. Espera-se que o governo não pague para ver, e abra o diálogo, atendendo as reivindicações que puder e sendo muito claro ao explicar à classe e à sociedade o que não for possível.
  Os governadores, enquanto patrões transitórios, têm o dever de ofertar ao funcionário, no mínimo, um salário condizente com suas responsabilidades e que permita viver sem trabalhar no ‘‘bico’’, que é proibido mas o Estado não tem moral para coibir. Policiais não podem continuar morando em favelas e sem recursos para prover suas famílias do básico, especialmente a alimentação, moradia, saúde e educação.
DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é militar e dirigente da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo (Aspomil)

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