Erros históricos no Carnaval 2008
Eduardo Luiz Baccarin Costa
  Nos vinte e seis anos que participo do Carnaval de Londrina, percebi uma involução gradativa nos Carnaval de rua da cidade. Apesar de existir uma Liga, as escolas teimam em não manter um calendário permanente de atividades o que as afasta de quem possa investir nelas e as faz refém da verba - ínfima - que a Secretaria Municipal de Cultura destina a elas todos os anos. Hoje o vocabulário mais usado pelas escolas é o intercâmbio entre escolas do Rio de Janeiro e pessoas vindas da festa de Parintins.
  Não tenho nada contra o intercâmbio, e nem poderia ter, porque afinal foi eu - ao lado de Hélio Nudi, hoje no Rio - que fizemos o primeiro concurso de samba enredo em Londrina (hoje ninguém mais faz isto) e trouxemos Aluísio Machado - consagrado compositor do Império Serano -, Mário Sérgio - hoje no Grupo Fundo de Quintal - e Tobias da Vai Vai. Depois, as escolas fizeram a Feira do Samba e o Braguinha trouxe mais de uma vez Dona Zica - ícone do carnaval carioca - Almir Guineto e Martinho da Vila.
  Fiz questão de retomar estes aspectos históricos pois as pessoas que vêm hoje nesse intercâmbio são ilustres desconhecidas do Carnaval. Além do mais, estão fazendo um grande mal para o nosso Carnaval: estão fazendo com que se perca a memória de Londrina. Por favor, em 2008 temos 60 anos da FOLHA DE LONDRINA e 40 anos do Filo e ninguém vai abordar isso? Que vergonha! Só falar do Imim 100 me parece pouco e lugar comum demais.
  Quem escreve enredo tem que ser criativo, fugir do óbvio. Enredo é a alma da escola. Tudo, no desfile, passa obrigatoriamente pelo enredo. Querem intercâmbio? Ótimo. Mas não percam as referências nem os referenciais que devem nortear o Carnaval, pois temos que lembrar que essa festa é manifestação cultural e deve ser vista como isto. Se o fizerem, podem ter certeza, a comunidade londrinense os acolherá mais ainda. E o Carnaval terá sua verdadeira função cultural como teve até o início de 2000. No mais, bom divertimento a todos e reflitam sobre tudo isso.
EDUARDO LUIZ BACCARIN COSTA é professor, radialista e produtor cultural em Londrina


Compreender o valor das coisas
Walmor Macarini
  A declaração de arrependimento de alguém que cometeu um assassinato, e o cumprimento da pena na prisão por conta disso, podem ter pouco mérito se o autor do crime não houver se conscientizado do valor da vida. Ele pode estar arrependido, mas só alcançará o perdão quando entender que interrompeu a trajetória terrena de alguém e que o dom da vida é muito valioso. Poderá considerar-se quitado com a sociedade, mas só estará limpo desse delito quando tiver o lampejo de compreender a preciosa importância de alguém estar vivo e encontrar-se aqui.
  Não redime o predador que derrubou uma floresta se ele for, por isso, apenas condenado a replantar árvore por árvore. Ele só se livrará dessa carga quando tomar consciência do valor da árvore. É com a natureza, perante a própria consciência, que ele terá de prestar contas e não com a lei. Se alguém maltrata um animal, e como penalidade tenha que cuidar de outro durante certo tempo, não se cura da falta apenas com isto, porque será preciso que entenda o tamanho da dor a que submeteu esse ser vivo e sentir em si mesmo a sensação dessa dor.
  Quem manteve alguém sob dominação e o fez sofrer por isso, não terá eliminado sua culpa se não sentir-se no lugar dessa pessoa e não vivenciar a idêntica situação da vítima. Um governante que se aposse de dinheiro público não obterá a graça da redenção só porque foi preso, execrado publicamente e, por imposição dos tribunais, devolveu tudo o que roubou. Será preciso, em comunhão consigo mesmo, ele se conscientizar de que não deve apropriar-se do que não lhe pertence.
  Alguém que desgaste irresponsavelmente o seu corpo, pelo consumo de drogas, fumo e bebida, ou pelo excesso de trabalho ou a prática de esporte perigoso que ofereça risco à vida, só eliminará esse débito consigo mesmo se vier, em dado momento, a entender o que significa a sua armadura carnal para garantir o exercício da vida e abrigar o espírito. Deixar os vícios e práticas apenas para restabelecer-se, ou porque já lhe falte a força física para certos divertimentos radicais, o manterá da mesma forma em dívida, até que desperte para a responsabilidade que deve ter com seu corpo, e que o tem por dádiva divina.
  Não basta alguém arrepender-se de seus denominados pecados se isto ocorre por temor de castigos terrenos ou divinos, porque tal não eliminará as nódoas, a não ser que ele sinta no âmago da alma o peso do mal que causou a outros, a si próprio ou ao meio em que vive. Se alguém destroi uma coisa maldosamente, ciente do mal que causou, nunca estará livre desse ônus, mesmo que pague tudo a quem prejudicou, a não ser que compreenda a validade das coisas que destruiu.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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