ESPAÇO ABERTO
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domingo, 27 de janeiro de 2008
- Reversão de expectativas<br>- Eu só queria entender 
Reversão de expectativas
Antonio Delfim Netto
O Brasil é parte do mundo e seria impensável e até um tanto ridículo imaginar que nossa economia não seria atingida se os Estados Unidos e os demais países desenvolvidos entrarem num processo de recessão mais sério. É verdade que o Brasil tem uma situação confortável externamente, com reservas importantes para enfrentar turbulências depois de termos nos livrado da situação constrangedora, de absoluta dependência em que nos encontrávamos em 2002, quando fomos socorridos pelos empréstimos do FMI. Desde então a economia mundial cresceu rapidamente, aproveitamos a oportunidade da melhora nos preços dos produtos que exportamos, saímos do enrosco e praticamente liquidamos a dívida externa. Embora se admita que o Banco Central adote uma atitude de cautela nesse momento, não tem cabimento a idéia de fazer aumentos preventivos da taxa de juros a pretexto que estamos sob uma grave ameaça de inflação.
Não há nenhum fato que indique a iminência de uma volta da inflação. Enquanto o mundo inteiro, preocupado com os níveis de emprego (a começar pelos Estados Unidos que cortaram esta semana 0.75% de sua taxa de juro) caminha na redução das taxas, nossos ''financistas'' defendem radicalmente o seu aumento e ainda por cima de forma ''preventiva''! Querem isso já, antes que a inflação melhore e mate as expectativas. É uma espécie de terrorismo que se manifesta primeiro na sustentação da idéia que é preciso aumentar de qualquer forma a taxa de juros ''para evitar que se ponha a perder a estabilidade tão duramente conquistada'' nos últimos anos.
Um aumento da taxa de juros, então, neste momento, vai elevar a carga fiscal da dívida bruta que o Brasil tem, de 75% do PIB, uma das maiores do mundo. Enquanto os Estados Unidos e muitos outros países vão continuar baixando suas taxas de juro, o diferencial entre a nossa taxa de juro interna e a externa continuará crescendo, impedindo a redução do peso da dívida pública que foi construída no passado exatamente pela manutenção da escandalosa taxa de juro real entre os anos de 1995 e 98. Pior do que tudo, uma elevação dos juros agora destruiria a expectativa de repetirmos em 2008 o forte crescimento alcançado em 2007, acima de 5% do PIB. O grosso da energia do crescimento brasileiro vem do mercado interno e depende das decisões de investimento que o empresário faz quando está próximo de sua capacidade e sente que há demanda além de sua capacidade atual de produção.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento
Eu só queria entender
Gaudêncio Torquato
Três casos retratam com precisão a cara do Brasil. A lei proíbe que os mesmos controladores possuam mais de uma operadora de telefonia, mas a Oi vai comprar a Brasil Telecom porque o presidente da República dará ''um jeitinho'' e transformará o que é ilegal em legal. Em 2003, o País ocupava a 58ª posição no ranking das economias livres e, agora, cai para o 101º lugar, derrubado por expressivos índices de corrupção. Como isso é possível, se nos últimos anos extirpou tumores, escancarou tramóias, prendeu senhores de colarinho-branco e estourou fronteiras de corrupção com as megaoperações da Polícia Federal? O Palácio do Planalto vai gastar, este ano, R$ 154 milhões para vender ''o peixe social'' do governo, forma sutil de atrair a simpatia dos pobres e lembrar-lhes que foram iluminados pelo programa Luz para Todos e salvos pela grana do Bolsa-Família. No ano em que se elegerão 5.564 prefeitos, isso não cria desequilíbrio, conforme denuncia o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Marco Aurélio?
A idéia do presidente de criar um gigante nacional do setor de telecomunicações para enfrentar os espanhóis da Telefônica e os mexicanos da Telmex até se pode fundamentar em razões estratégicas. Trata-se, porém, de abuso mudar o Plano Geral de Outorgas com um simples decreto, sem submetê-lo a um amplo debate social e ao crivo do Congresso. Com posições cada vez mais isoladas, o Palácio do Planalto engrossa o fio intervencionista que estreita os limites de nossa democracia.
O caso dos cartões corporativos é uma aberração. A imagem é a de um cheque em branco usado sem critério. O saque direto na boca do caixa eletrônico, no ano passado, atingiu o montante de R$ 58,7 milhões, de R$ 75,6 milhões contabilizados. Para onde foi essa dinheirama?
Quanto à expansão da corrupção, soa estranha a hipótese de que ela se assemelha à massa de pão, que quanto mais se bate, mais cresce. Como justificar seu crescimento, se o atual governo eleva a voz para enaltecer o mais feroz combate às negociatas e aos cambalachos de que se tem notícia na história deste país? As operações policiais e a ação do Ministério Público, elogiáveis quando despidas da pirotecnia, deveriam redundar no desmonte do poder invisível e no esfacelamento da malha clandestina incrustada na administração pública. Ao contrário, porém, a corrupção se expande. Só há uma explicação. Como a teia corrosiva abriga duas bandas, a de corruptores e a de corrompidos, um ambiente favorável lhes dá alento. Quem propicia o ambiente favorável?
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político em São Paulo
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