O bem aparente

Dom Orlando Brandes
  A Bíblia nos aconselha a ser ‘‘zelosos no bem’’ (IPd 3,13) a não ‘‘cansar de fazer o bem’’. Lembra o apóstolo João que quem ‘‘pratica o bem ressuscita para a vida eterna’’ (Jo 5,29). A filosofia escolástica distingue três dimensões do bem: o bem útil, o bem agradável, o bem honesto. Sem o bem honesto, o bem útil torna-se utilitarismo que é a filosofia da competição, do lucro, do consumismo. O bem agradável sem o bem honesto, descamba para o hedonismo que é o endeusamento do prazer, do vale tudo, do permissivismo, onde o agradável e prazeroso se erige em critério do pensar e do agir humanos.
  Hoje vamos considerar a questão do ‘‘bem aparente’’. Uma pessoa pode ser muito prudente, mas o que ela esconde pode ser o medo da crítica. Sua prudência é um bem aparente. Outras pessoas dizem que são pacientes, mas na verdade elas querem conquistar a amizade e a simpatia dos outros. Conhecemos pessoas que se doam generosamente, às vezes chegam ao estresse por exagero de trabalho, mas inconsciente buscam sucesso através dos elogios que recebem. Outros são muito populares, simpáticos, democráticos, mas na verdade são assim pela necessidade que sentem de serem aceitos, necessidade afetiva de acolhimento. Sofrem o medo da rejeição e por isso não falam nas reuniões, não corrigem os erros, para serem acolhidos, aceitos, amados. O bem aparente carrega atrás de si, outras intenções, desejos, expectativas.
  No bem aparente existe a busca de si, a autodefesa, a realização da própria vontade e até dos caprichos pessoais. Busca-se o que é ‘‘importante para mim’’. Portanto, estamos ainda buscando a nós mesmos, não desgrudamos de nossos interesses, não superamos nossas carências. No bem aparente a pessoa age conscientemente com reta intenção, mas inconscientemente ela está buscando outra coisa. Aquele bem realizado, não passa de ‘‘aparência de bem’’. Nós vemos a aparência, Deus vê o coração. Vive-se no estágio do ‘‘amor egocêntrico’’. Na espiritualidade cristã, as tentações do espírito mau, revestem-se de luz, (‘‘anjo de luz’’) tem aparência de bem, para no fundo, levar ao mal. Todas as tentações aparecem sempre em forma de bem: ‘‘Sereis como deuses’’ disse o tentador a Adão e Eva. Ou ainda ‘‘transforma estas pedras em pão’’, incitava o tentador a Jesus, que terminava seu jejum de 40 dias na montanha. Em outras palavras, somos atentados também a partir do bem, dos dons, das qualidades. Assim, uma pessoa que tem o dom do canto pode cair na vaidade. O que tem o dom da palavra, pode silenciar os outros. O que tem o dom da oração, poderá sentir-se superior, e começar a julgar e condenar os demais. Os dons são para o bem comum e não para a dominação.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


‘Deus’ Requião, no Palácio Iguaçu e na TV

Bruno Ferreira de Castro e Silva
  É incrível ver o que os políticos fazem para mostrar à população o quanto eles fazem por eles quando eleitos. Entretanto, alguns chegam a abusar do direito de aparecer na mídia, ainda mais, quando a mídia é gerada e transmitida pelo próprio Estado – no caso a TV Educativa.
  A decisão do desembargador Edgard Lippmann Jr. em multar e coibir o governador do Paraná, Roberto Requião, de usar para promoção pessoal ou atacar seus inimigos políticos pela rede pública de comunicação foi uma das medidas mais acertadas pelo Poder Judiciário. Uma vez que os governantes só podem fazer uso da mídia para divulgar as ações que realizam para a população, para que esta tenha ciência do que os seus governantes eleitos fazem com os seus impostos contribuídos para a máquina estatal. A publicidade é um princípio constitucional na qual todos os chefes do Poder Executivo devem cumprir e o Ministério Público (MP) fiscalizar.
  Entretanto o senhor Roberto ‘‘Deus’’ Requião, pensa que é também preciso fazer ataque a seus adversários e dizer que quem realizou as obras no Estado foi ele, governador multifunção? Além de governar, constrói, bate massa, fiscaliza, etc. E quando alguém diz que o que ele faz é incorreto, puxa a orelha, ele diz de boca aberta que a censura está voltando, estão querendo implantar a ditadura novamente.
  Nada disso, o que o desembargador fez foi o que os desembargadores estaduais do Paraná não tiveram nem coragem ou vontade de fazer: coibir Requião de usar a máquina estatal em proveito próprio. Cabe aí mais um princípio constitucional, o da impessoalidade, ou seja, usar o Estado para a promoção pessoal e atacar desafetos.
  É bom o ‘‘Deus’’ Requião estudar a Constituição Federal de 1988 e observar o que ele pode ou não fazer, pois é ele que age como um ditador, usando a mídia do Estado a seu favor, promovendo o seu lado bom e menosprezando os seus adversários. E não adianta ficar provocando o desembargador Lippmann, pois esse tomou a decisão certa enquanto ‘‘Deus’’ Requião pensa que sabe o que faz, mas não faz nada, apenas quer ganhar ibope no horário nobre do imaginário da população paranaense.
  A população deveria coibir e multar Requião por promessas de campanhas não- cumpridas, aliás, um hábito de nossos políticos.
BRUNO FERREIRA DE CASTRO E SILVA é estudante de Direito da Uninorte em Londrina

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