Entre a plenitude e a tragédia
Jonathan Menezes
  Uma das mais árduas tarefas da vida é a de percorrer a ‘‘via do meio’’ - o caminho do equilíbrio, da moderação. Há justo que perece na sua justiça tanto quanto há injusto que perece em sua injustiça. ‘Nem tanto o mar nem tanto a terra’’, afirma o dito popular. ‘‘Bom é que retenhas isto e também daquilo não retires a mão’’, complementa o Eclesiastes. Todas essas frases corroboram para o fato de que o mal reside no excesso. Seja em sabedoria ou loucura, tristeza ou alegria, ira ou mansidão, pobreza ou riqueza, chuva ou sol; nenhuma serve à vida quando tomada em ‘‘doses cavalares’’. Mas por que persistimos tanto em nos agarrar a umas das pontas da lança?
  Enquanto lia ‘‘Do sentimento trágico da vida’’ (1913), do poeta espanhol Miguel de Unamuno, deparei-me com a seguinte frase: ‘‘A razão repete: vaidade de vaidades, tudo é vaidade! A imaginação replica: plenitude das plenitudes: é tudo plenitude! E assim vivemos a vaidade da plenitude, ou a plenitude da vaidade’’. Parece que estamos sempre almejando ‘‘ser plenos’’ de alguma coisa. Plenos de alegria, esperança, gozo, fé; plenos de sucesso, amor, felicidade; ou até plenos de racionalidade, desrazão, obscuridade ou tragédia. Contudo, Unamuno toca num ponto nevrálgico: nem a plenitude ou imaginação, nem a razão, que tragicamente afirma ‘‘tudo não passa de vaidade’’, preenchem realmente. Trata-se de falsos preenchimentos: inchações. Tudo o que incha não pode ser salubre.
  Chego à conclusão que ser pleno de algo, mesmo que aquele algo seja aparentemente bom, não significa encher-se daquilo até a ‘‘marquinha vermelha’’; essa é uma plenitude que mata. E os extremos são inimigos da vida, disse certo sábio. Assim, já decidi: não fugirei mais da dor. Afinal, na prática, ser feliz não é estar pleno de felicidade, pelo menos não da ‘‘felicidade’’ ao modo contemporâneo, negando toda e qualquer desventura. Não se trata de morbidez ou masoquismo, mas de realismo esperançoso. Não almejo que a dor e o sofrimento preencham todo o copo de minha existência - acaso desejaria a autodestruição? Muito menos tenho a pretensão de dar lugar apenas às ânsias por sucesso e felicidade, pelo menos não nessa perspectiva alienante e individualista do ser ‘‘bem-sucedido’’. Quero trilhar a via do meio, entre a plenitude e a tragédia. Nada em excesso; nenhuma coisa suplantando a outra. Será muito pedir para permanecer sendo apenas humano?
JONATHAN MENEZES é professor da Faculdade Teológica Sul-Americana em Londrina


Ética

Rafael Thomazini
  Aristóteles postulava que a política é a ciência magna, pois ao mesmo tempo que tem seu espeque nas outras ciências, ou se vale delas, legifera sobre elas, determinando o que se deve fazer ou mesmo abster-se. A finalidade precípua dessa ciência deve ser a de alcançar o bem maior, mirando sempre o benfazejo e a felicidade humana. Para Aristóteles, a ética é uma parte indissociável da política, portanto, os governantes precisavam compreendê-la e aplicá-la em suas ações.
  Essa palavra - Ética - em junção com outros termos que demarcam o conceito, começou a fazer parte do vocabulário cotidiano dos brasileiros especialmente no início de século XXI, e especificamente no cenário político. Desse modo ao fazer uma análise grosseira e superficial desse tema, temos a falsa impressão que os brasileiros, passaram a dar maior valor à ética, ou mesmo exigi-la, outorgando-lhe a função de fiscalizadora e reguladora das relações sociais. Seria em tudo pertinente viver em uma sociedade onde colóquios como esses, ocupassem lugar de destaque e atenção de seus cidadãos. Infelizmente não passa de uma impressão espúria, pois o que realmente se constata é uma distorção e um profundo esvaziamento do termo, ao ponto de levar a perca do real valor da Ética.
  No Brasil existe um código moral que tem a pretensão de ser universal que na verdade, recebe pouca adesão ou respeito. Temos também outros códigos, esses informais ou alternativos, que possuem uma adesão muito maior, e ao que parece é o guia para sociedade brasileira. Mudou-se a lógica de valores, e esses estão determinando uma nova sociedade, muito mais tolerante e mais inclusiva.
  Então, o que realmente os brasileiros querem quando pedem ‘‘mais ética’’? Na verdade não estão clamando por ética, pois em sua grande maioria não compreende isso, o que pedem é um padrão moral que consiga abranger as novas relações sociais que se estabelecem perifericamente negando um código moral que já se mostra mais que ultrapassado. Pois hoje a noção de justo e injusto já não possuem mais valor, nem em grau e muito menos em gênero. É por isso que ouvimos certos paralogismos como: ‘‘Roubou mas fez’’, frases como essas mostram-nos, a mudança do juízo de valores atribuídos a algumas condutas morais.
RAFAEL THOMAZINI é estudante de Psicologia na Faculdade Pitágoras em Londrina

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