Todo dia é Dia do Leitor
José Eduardo de Andrade Vieira
Para quem escreve, o leitor tem que ser superior. É a razão de ser da existência de um jornal. Num sentido amplo, tem que ser tratado como fato. Fatos não se discutem; opiniões sim. Um fato é como a idéia feita, verificada e acuradamente formatada. Fatos não são indícios. São fatos, sem sutilezas ou subterfúgios. Tanto que a sua definição não comporta variantes vocabulares nem semânticas. Porque são fatos.
Leitor tem que ser respeitado na sua inteligência, na capacidade de discernimento; não tem que ser agraciado ou engabelado com ‘‘aquilo que ele gostaria de ler’’. Essa é a prática de alguns jornais. Incorrem também no erro de confundir fatos com indícios de fatos.
Agradar o leitor com ‘‘aquilo que gostaria de ler’’ é como a atitude de políticos que falam ‘‘aquilo que o povo quer ouvir’’. Pior: nessa heresia há então aqueles jornais - e jornalistas - que presunçosamente ‘‘sabem’’ o que o leitor quer e gosta de ler. Como os políticos que ‘‘sabem’’ aquilo que o povo quer ouvir. Então falam mas não agem.
Apesar da disparidade da analogia há forte semelhança entre as duas posturas. Leitor não pode ser tratado como ouvinte passivo, ou espectador contemplativo. O leitor - porque é seletivo - tem uma vantagem sobre quem recebe a informação através de outras vias, outros códigos ou sinais. Porque ler é pensar. Assim como escrever exige exercício de pensamento. Pode-se dizer, também, que a atitude de ler, já define, em si mesma uma atitude cidadã. Uma atitude política até. O leitor é exigente. É na essência crítico e analítico. É também um cívico.
Por esta e outras razões temos nos esforçado para que o conteúdo deste jornal seja, de fato, um elemento de contribuição para formação de nossos leitores.
E que cada texto informativo expresse uma atitude de respeito ao leitor - além das premissas inerentes da concisão, objetividade, etc. Respeito ao tempo no sentido cronológico (e sacrossanto) que ele dispõe para ler, que deve ser maximizado, rigorosamente bem aproveitado. Saboreado.
A leitura - no sentido da relação escritor/leitor ou redator/leitor - tem que ser prazerosa, independente da mensagem que transmite. E tem que estabelecer uma certa reciprocidade.
Do leitor da FOLHA esperamos mais do que a sua atenção da qual não podemos prescindir por uma questão de sobrevivência do jornal. Do leitor da FOLHA queremos a crítica, a participação. Mais do que isso: às vezes precisamos da sua cumplicidade.
JOSÉ EDUARDO DE ANDRADE VIEIRA é empresário, diretor-superintendente da FOLHA DE LONDRINA, ex-senador e ex-ministro nos governos de Itamar Franco e FHC


Igualdade de oportunidades
Aguinaldo Pavão
  Recentemente Delfim Neto defendeu a seguinte idéia: ‘‘O capitalismo é o melhor sistema que o homem descobriu em matéria de eficiência. O capitalismo é compatível com a liberdade individual. Mas o capitalismo não tem nenhuma compatibilidade com a igualdade [..]. E como o capitalismo é uma corrida, você tem de partir do mesmo ponto. Então, se você dá igualdade de oportunidades para as pessoas, você está dando moralidade para o capitalismo’’.
  Concordo que o capitalismo seja o melhor sistema que o homem descobriu em matéria de eficiência. Agora, a afirmação de que ‘‘o capitalismo é compatível com a liberdade individual’’ é imprecisa. É mais exato dizer que o capitalismo é condição necessária, mas não suficiente, para a liberdade. É impossível liberdade individual sem capitalismo, mas é possível capitalismo sem liberdade - a partir daí podemos perceber a diferença entre uma direita liberal e uma direita conservadora.
  Não procedem as afirmações: a) o capitalismo não tem nenhuma compatibilidade com a igualdade; b) a igualdade de oportunidades daria moralidade para o capitalismo. Ora, se o capitalismo é compatível com a liberdade individual, ele traz consigo a igualdade. O capitalismo é o sistema que confere viabilidade ao princípio universal da liberdade individual. Sendo universal, a liberdade deve ser considerada como um direito igual para todos. Aí está a preciosa igualdade que o princípio da liberdade carrega consigo.
  Com respeito à igualdade de oportunidade e moralidade do capitalismo, julgo interessante considerarmos o exemplo do esporte. Pensemos numa prova de 100 metros rasos. Todos partem da mesma posição, ou todos têm de correr uma mesma distância. Há vencedor, mas todos tiveram a mesma chance. Acontece que isso deixa na sombra o fato de que não sendo todos os corredores iguais nas qualidades de corredores, o melhor corredor, o que recebe melhor treinamento, o que tem inclinação genética favorável a corridas, o que teve bom berço sairá em vantagem.
  Na verdade, sequer há possibilidade de estabelecermos em algum lugar do mundo, de modo duradouro, a igualdade de oportunidades. A natureza sempre acabará se impondo contra a pretensão insensata de alguns de homogeneizarem aquilo que é naturalmente heterogêneo. Somente uma ditadura conseguiria se aproximar dessa homogeneização. O conceito ‘‘igualdade de oportunidades’’ implica a idéia de combate contra a desigualdade natural. Como se faz esse combate? Se formos contra o azar e a sorte teremos de ser, por coerência, contra a herança. É razoável ser contra a herança? Nossos queridos intelectuais de esquerda encarariam essa discussão?
AGUINALDO PAVÃO é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina

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