ESPAÇO ABERTO
O ano novo e os sete caminhos da paz
Dom Orlando Brandes
O primeiro caminho é a compaixão radical que é uma atitude de não-violência, de sublimação das raivas e agressões, de paciência. Tratar os outros com um coração materno. A compaixão nos torna sensíveis às necessidades alheias e nos leva a superar a infantilidade egocêntrica e a crescer no altruísmo e no voluntariado.
O segundo caminho da paz é a concórdia fundamental, a cordialidade que rompe com ódios, mágoas, ressentimentos pois o coração abre suas portas através do perdão e nosso rosto brilha iluminado pelo espírito de fineza, pela hospitalidade, pelo respeito mútuo. Só se vê bem com o coração.
O terceiro caminho é o convívio fraterno. Nosso viver é um conviver. Nossa vocação à convivência fraterna se fundamenta em nossa original fragilidade e na necessidade que temos dos outros para sobreviver. A pior doença da humanidade chama-se egoísmo. A felicidade e a realização do ser humano está na alteridade, ou seja, fazer do outro o nosso centro.
O quarto caminho da paz é o carinho essencial ou seja a onipotência do toque, da bênção, do abraço, do olhar, do elogio. Dar carinho significa acolher, valorizar, elogiar as pessoas. Um afago pode resolver muitas dificuldades. Um gesto fala mais que mil palavras. Um aperto de mão faz feliz nosso irmão. O futuro é da ternura. Sem afeto ninguém sobrevive e se conseguir viver, será uma pessoa armada, amargurada, agressiva e depressiva. O caminho da paz é possível, se a gente não economizar carinho, ternura e calor humano.
O quinto caminho da paz é a lei de ouro ou a justa medida: Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti. Quem ama cuida do amado. Saber cuidar e ter cuidado pelos outros, carregar seus fardos, fazer nossos seus interesses, escutar seu clamor e responder aos seus apelos, só pode construir a paz ao nosso redor. Nossa devoção pelos direitos humanos, pela dignidade da pessoa e pela justa distribuição dos bens, fará acontecer entre nós a utopia do reino de Deus que é : Justiça, paz e alegria no Espírito (Rm 14,17).
O sexto caminho é a fidelidade aos compromissos assumidos. Vivemos uma cultura da facilidade, da sensação prazerosa, da liberdade arbitrária. Os pactos são rompidos, as alianças traídas, os compromissos desfeitos. Há uma crise de confiança e uma cultura da corrupção. O sétimo caminho da paz é a globalização da solidariedade, que é o novo nome da paz. Nossa casa deve ser uma escola de comunhão, um laboratório do amor fraterno, um santuário da justiça porque a solidariedade começa em casa. A globalização da solidariedade será o início de uma nova ordem política e econômica em favor da paz, será o advento definitivo de um mundo novo.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Educação e desenvolvimento
José Mario Angeli
O Plano de Desenvolvimento Educacional (PDE) objetiva a implantação de metas como forma de melhorar a qualidade educacional. Duas são as metas básicas: acompanhamento pessoal professor-aluno para levá-lo à aprovação no final do ano escolar e melhorar a avaliação da média 3,6, hoje atribuída à educação para uma nota 6 até o ano 2022. Seria isto suficiente para superar este padrão de desenvolvimento? Como entender a relação educação e desenvolvimento?
O padrão de desenvolvimento brasileiro se apresenta de forma enigmática e disforme. O caminho percorrido não leva em conta as estruturas de poder e suas relações sociais que produzem e naturalizam o dualismo no campo educacional e as relações assimétricas entre países do centro e os periféricos da sociedade capitalista. E uma segunda questão, refere-se à visão reducionista de desenvolvimento e o contexto histórico em que se formula a teoria do capital humano e as noções de sociedade do conhecimento, da pedagogia das competências e da empregabilidade. As duas teses salientam que os países periféricos e os grupos sociais excluídos, pobres e de baixa renda estão nesta condição porque tem baixa escolaridade e pouca formação profissional. Teses que são falsas.
O processo histórico da produção das desigualdades socioeconômica entre nós constitui-se uma relação de poder de conteúdo colonizadora, de subserviência e de alienação. As desigualdades sociais não se explicam, primeira e fundamentalmente, pela educação, mas pelas relações de poder e forças construídas historicamente. Ao contrário do que pretendem os ditames do pensamento único, a maioria não é pobre porque não conseguiu boa educação, mas na realidade, não conseguiu boa educação porque é pobre.
A idéia de desenvolvimento não pode ser apresentada como sinônimo de crescimento econômico ou de desenvolvimento sustentável, como muitos pretendem, até porque ela é cada vez mais contestada por evidências históricas contrárias. Exemplo é a industrialização intensa e sob este modelo de regulação social não foi possível generalizar a educação e a formação profissional.
A melhoria da qualidade educacional e profissional requer professores bem remunerados, bem qualificados, recursos em sala, currículo adequado, período integral, avaliação socialmente comprometida e referenciada, nos três níveis. Mas, mais do que tudo será precisa definir qual é o lugar que ocupamos na nova divisão internacional do trabalho. Ele tem sido o de execução do trabalho antes que o da concepção. Então, parece ser preciso compreende o papel da educação básica e da educação profissional enquanto práticas sociais mediadoras das relações econômicas e culturais. Até porque este padrão de desenvolvimento amplia a pobreza, o que impede que as pessoas tenham uma educação de qualidade e se desenvolvem. E sem ela eles não podem participar das mudanças sociais.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina
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