Narcisismo que pode matar

José Luciano Tavares da Silva
  A estratégia da mídia de utilizar o corpo como forma de marketing promove em considerável parcela da população o utópico desejo do físico ‘‘perfeito’’, custe o que custar. Obviamente, se há gente disposta a pagar, jamais faltarão aproveitadores decididos a faturar alto com a ingenuidade e estupidez alheia. Ligue a TV e veja os ‘‘astros’’ de caráter abjeto tanto do vôlei quanto do basquete ou da novela das oito faturando alto pela indicação aos tolos e incautos desde cintos que dão ‘‘choquinhos’’ até chás milagrosos, todos prometendo como mágica o ‘‘corpinho’’ tão sonhado.
  Tendo em vista que os danos dos produtos citados geralmente são mais no ‘‘bolso’’ que na saúde, o perigo está mesmo na livre indicação, venda e consumo das famosas ervas ditas ‘‘naturais’’ que prometem emagrecimento saudável, e das drogas utilizadas em ciclos anabolizantes, inclusive de uso veterinário.
  Qualquer pessoa pode conhecer e adquirir tais produtos e drogas em sites ordinários da internet ou mesmo encomendá-los pessoalmente com certos ‘‘professores’’ de educação física, nutricionistas, médicos ou outros pseudoprofissionais da saúde cujo desserviço prestado denigre o que deveriam ter aprendido na faculdade e mancha o bom nome da profissão.
  Inicialmente desenvolvidas para uso em pacientes portadores de deficiência hormonal ou certos tipos de doenças crônicas, drogas anabolizantes e outras são utilizadas de forma cíclica e numa freqüência altíssima por quem não apresenta qualquer disfunção que requeira sua indicação. Tal uso à revelia pode conduzir a anomalias potencialmente fatais como insuficiência cardíaca e hepática, hipertensão, diabetes, tumores de fígado e próstata, além de narcisismo patológico, paranóia, agressividade, atrofia de testículos, ginecomastia (mamas em homens) e masculinização feminina.
  Convém ainda salientar que estudos científicos divulgados este ano condenam o uso de uma famosa linha multinacional de produtos ‘‘naturais’’ para emagrecimento à base de ervas, ao comprovar sua ligação com insuficiência hepática fulminante. Assim sendo, recomenda-se cautela antes de se aventurar em qualquer academia ou consultório. Dê preferência aos excelentes profissionais que desencorajam absolutamente o uso de tais drogas e esquive-se dos que faturam alto com a desinformação alheia, mesmo que façam uso das drogas que indicam, o que comprova apenas que, além de aproveitadores, são também desprovidos de adequada racionalidade e inteligência.
  Fica a sugestão às autoridades de conselhos regionais e vigilância sanitária para que cumpram seu dever punindo exemplarmente tais aproveitadores e esclarecendo (principalmente a população mais jovem) dos enormes riscos de se expor a quem prefere cuidar do próprio bolso e/ou de seu narcisimo patológico ao invés de cuidar da saúde de seus clientes e pacientes.
JOSÉ LUCIANO TAVARES DA SILVA é professor adjunto de Fisiologia Humana na Universidade Estadual de Londrina


O poder sedutor do Estado

Cezar Bueno
  O poder sedutor do Estado, pela abrangência e pelos recursos financeiros de que dispõe, conta com a cumplicidade da grande mídia para fabricar inimigos, detectar ameaças de terrorismo, aumentar o poder da indústria bélica e justificar o uso de guerras preventivas. Boatos fabricados pela política e reiterados na mídia adquirem a força indiscutível de provas irrefutáveis. Esse modelo de Estado e de democracia em curso prefere ser julgado a partir dos inimigos que fabrica e não dos resultados econômicos, sociais e políticos que professa.
  Em suas relações internas, o poder sedutor do Estado opera à base do segredo e da falsificação de dados estatísticos. As tarefas de rotina ficam sob a responsabilidade de uma elite de especialistas bem paga e sempre disposta a produzir argumentos que justificam a prevalência dos chamados interesses superiores ou razões de Estado.
  Em muitos casos, a mentira oficial produzida, sem contestação, conduz ao fim da opinião pública. Especialistas e burocratas, sempre desejosos de subir de cargo e de chefiar alguém, acreditam que o homem comum já não consegue viver sem eles e, por isso, aludem que o leigo precisa ser sempre tranqüilizado por um especialista estatal remunerado e sempre pronto a justificar a importância da intervenção autoritária do Estado.
  Os burocratas, pagos ou financiados pelo Estado, estão sempre bem armados com arquivos confidenciais, observações e análises secretas para fins de desacreditar seus oponentes e manter a ‘‘verdade’’ que está estabelecida. Na era da sociedade do espetáculo e da mundialização do capital o poder sedutor do Estado costuma fabricar as notícias que lhe interessam numa fração de tempo online. Por isso, tudo o que deixa de ser comentado, durante três dias, é como se nunca tivesse existido.
  No mundo atual, a força do capital global já não pode ser criticada e a mentira reiterada, fabricada no núcleo duro do poder sedutor do Estado, nunca provocou tanta ausência de conseqüências. O homem comum e bestializado diante de tantas falcatruas, denúncias e provas materiais irrefutáveis, que lesam a riqueza comum da nação, está sujeito a suportar outras investidas. Precisa ser convencido pelos especialistas das finanças, da segurança e do fisco, todos financiados pelo Estado, sobre a importância de poupar dinheiro, de observar os rigores da lei e de pagar suas contas em dia para não ver seu nome incluído no rol dos caloteiros que prejudicam as finanças que interessam ao Estado.
CEZAR BUENO é doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e professor de Sociologia da Unifil e da PUC-Londrina

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