ESPAÇO ABERTO
A prática de uma nova ética
Antônio Celso Mendes
As condições culturais impostas pela pós-modernidade não permitem mais a prática de uma ética autoritária, como as pessoas antigas foram educadas, na forma de ameaças e castigos. Disso resulta uma absoluta ausência de eficácia no processo de imposição de normas, afetando seriamente o princípio mesmo da sociedade organizada, seja no seu aspecto de ordem social pública e/ou privada.
Da parte da autoridade pública, que necessita respeitar os princípios da liberdade, da democracia e estado de direito, o que causa sérias dificuldades no equilíbrio da vida social. Igualmente no que se refere à autoridade privada, que se vê constantemente afrontada pelo incremento dos meios de comunicação (mass media, internet, celulares), aparentemente incontroláveis, atuando sobre a mente das pessoas e alterando, quase sempre para pior, os valores impostos pela tradicão. Dessa forma, como superar tantos inimigos? A solução só poderá ser encontrada no aprendizado consciente de que faz bem para o ser humano ser uma pessoa ética, sincera e honesta, que cultive valores de desprendimento amoroso, enfocando a sua felicidade como necessária para o bem-estar dos demais.
Ora, isto não é nada mais do que a prática de uma ética espontânea, que brotaria do fundo do coração de cada um como um conjunto de atitudes e predisposições naturais orientadas no sentido da prática do bem, da emotividade amorosa, da moderação e do equilíbrio saudável de nossas tendências dispersivas.
Como substrato de cultura, ela deverá ser cultivada conscientemente na família, na escola, no ambiente de trabalho e nos círculos de convivência pessoal (política), como esforço deliberado de sustentação do que seria uma cartilha de convivência saudável ou condição essencial à plenitude da realização pessoal de cada um. Geradora de um equilibrado sentimento de segurança individual e coletiva, a prática dessa nova ética haverá de refletir positivamente no uso do poder, na vida sexual, nas práticas econômicas, despertando fortes inspirações motivadoras de desprendimento, humildade, espírito de lealdade consigo mesmo e com os outros.
Seus motivos de atenção estarão sempre enfocados no reconhecimento de nossas profundas dificuldades, quando se trata de compartilhar com o ser humano um estilo de relações amorosas e honestas, pois todos sentimos de perto tudo que nos impede de manter uma convivência sincera e desprendida com todos, se não sobrelevarmos seus defeitos e suas carências. A ética espontânea não é nada mais do que uma versão da tradicional ética cristã adaptada aos novos tempos, que estão a exigir, como nunca antes, a necessidade de bons exemplos, como a forma mais efetiva de influenciar pessoas. Pois, num mundo globalizado, as trocas de experiências compartilhadas constituem a essência mesma de nossa compostura moral...
ANTÔNIO CELSO MENDES é cientista político e professor de Direito da PUC/PR
O ensino e a formação dos jovens
José Mario Angeli
O ensino superior é um momento particular na história da formação dos jovens. Ele explicita e oculta determinações essenciais. Mas, é importante se perguntar quais as implicações desta sociedade para a formação do jovem? Ou quais as implicações da formação dos jovens para esta sociedade? Como entender a dialética formação e sociedade? Para tanto, será preciso compreender a forma social capitalista na qual está inserida a formação dos jovens.
Se se entender que a sociedade capitalista se caracteriza pela fragmentação de todas as esferas da vida social, partindo da fragmentação da produção, da dispersão espacial e temporal do trabalho e da destruição das referências que balizam a identidade de classe, conceitos tais como sociedade de risco, sociedade pós-industrial, sociedades de redes, etc., todos eles preconizam uma sociedade fugaz e instável, definida por estratégias e programas particulares que radicalizam até o limite do individualismo burguês. Aquilo que outrora era definido como princípio estruturador e diferenciador das ações naturais e humanas, sociedade e natureza, agora é reabsorvido entre si. Esses conceitos se tornaram abstratos, instáveis e fluídos, e permanecendo por um espaço e tempo virtuais nos afastam de qualquer definição material do ambiente.
O ambiente manifesta-se, perigoso, ameaçador que deve ser gerido, programado, planejado e controlado pela intervenção das novas tecnologias. Paira, nesse universo, a idéia de flexibilidade que indica a capacidade de adaptar-se às mudanças, que ocorrem inesperadamente na sociedade. Tudo é simbólico nesta sociedade. A nova forma de produzir também é simbólica. Da flexibilidade do trabalho nasce o ataque ao regime disciplinar e da experimentação de novas formas de produzir.
Nesse contexto, o professor é entendido como transmissor de conhecimentos consignados por manuais ilustrativos. O ensino é habilitação rápida para jovens graduados e especialistas entrarem no mercado de trabalho, por meio do adestramento de certas habilidades, do qual serão expulsos, rapidamente também, tornando-se jovens obsoletos. O que importa para essa sociedade é a transmissão e o adestramento dos sujeitos sem a preocupação do estudo e da pesquisa.
A essência do ensino é formar o homem integral. Formar os jovens significa introduzi-lo no passado de sua cultura e despertá-lo para questões que o passado engendra para o presente. Ensiná-lo a pensar diferentemente deste modo demandado por esta sociedade. A tarefa do pensamento só é fecunda quando pensa e diz o que sem ela não poderia ser pensado nem dito. Isto demanda um compromisso da parte do professor por uma nova sociedade e conseqüentemente requer-se uma nova formação do jovem. Exige do professor a capacidade de perguntar, refletir e criticar, ir além do plano do conceito ensinado e experimentado na elaboração do problema. Resta saber se a grande maioria dos professores está empenhada na construção de uma sociedade nova.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Londrina





