O massacre da motosserra
Sônia Regina Pinto Santos Carreri
  Dentre os barulhos aterrorizantes do dia-a-dia como sirenes, batidas de carros, freadas, encontra-se mais um que vem aterrorizando nossas manhãs: a motosserra. De repente, aquela árvore antiga, frondosa já não está mais ali. ‘‘Estava condenada’’, diz alguém ouvindo nossos murmúrios. Lembro-me bem dela e não tinha sinais de que estava sucumbindo.
  Olho para o pedaço de tronco que marca a sua morte: sadio, vermelho. Dou um suspiro. ‘‘Minha amiga, você não morreu, foi sacrificada’’, penso. Olho em volta e outras na mesma quadra encontram-se em situação semelhante. Alguns bambus com protótipo de árvores fincados ao lado. Que árvore irá te substituir? Terá a mesma copa gigantesca que insistia em atravessar seus domínios e alcançar a outra calçada com sua sombra? Não. Você está sendo substituída por uma boa, mas pequena árvore que nos dará mais decoração do que proteção. Ah, você atrapalhava a visão da fachada da empresa!
  Dizem que os ventos fortes estão fazendo as árvores caírem. A causa virou sintoma. Não é por causa do desmatamento e da concretização de nossa cidade que os ventos dominam e arrasam? Não é o caminho livre deixado pelo desmatamento e o aquecimento global, tão difundido, que estão te derrubando? Vamos tratar o sintoma, mas e a causa quem irá olhar? A quem podemos recorrer e pedir socorro vendo que a cidade está ficando descoberta, quente, suas chuvas perigosas?
  Ao meu lado, uma árvore condenada. Aproximo-me e vejo duas circuncisões ao seu redor para impedir que sua seiva chegue até os seus mais altos galhos. Alguém matou a árvore porque ela atrapalha o estacionamento irregular que fizeram na calçada. Ela foi condenada!
  Não quero apenas lamentar o aumento da incidência do câncer de pele, da desidratação e a nostalgia da preguiça outrora ‘‘curtida’’ numa frondosa sombra, do caminho que ficava mais curto por ser mais agradável!
  Quero poder fazer alguma coisa pelas árvores, por mim, por todos! Alguém me lembra da seringueira de cem anos no caminho para Ibiporã, agora tombada. Estamos sentindo saudade até do nosso presente, mas é porque talvez amanhã seja tarde demais. Socorro! Estamos sendo vítimas do ataque da motoserra!
SÔNIA REGINA PINTO SANTOS CARRERI é psicóloga em Londrina


Tropa de Elite: o que discutir?
Markus Flankel V. C. Pereira
  É indubitável que o capitão Nascimento e sua tropa de elite caíram no gosto popular, em todos os lugares, e entre todas as camadas sociais, sejam elas classificadas por poder aquisitivo ou por escolaridade. O filme do diretor José Padilha impressiona por vários aspectos: a qualidade e a forma no qual foi produzido podem ser listados, porém a diante de tamanha discussão sobre o que se acha certo/errado, moral/antimoral, ético/antiético, jurídico/antijurídico, humano/desumano, ficam grandes questões. O que realmente o filme propõe? Que contribuição faz? Para onde nos direciona? E não perguntas do tipo será que o capitão Nascimento (de ‘‘Tropa de Elite’’) pouparia o traficante Zé Pequeno (de ‘‘Cidade de Deus’’)?
  A proposta do filme é apresentar sem nenhum tipo de censura o que acontecia no Rio de Janeiro do final da década passada, já que a ficção se passa no ano de 1997. Mostra o estresse policial, bem caracterizado na figura do personagem principal do longa, onde conflitam os interesses pessoais e profissionais. ‘‘O capitão Nascimento não é um herói, até porque não faz coisas certas’’, diz Milhem Cortaz, o ator que interpretou capitão Fábio, o eternamente lembrado 02. Este personagem é querido pela população justamente porque apresenta uma resposta rápida e precisa aos anseios da sociedade, mesmo que tais atitudes sejam neste momento antijurídica, moral, ética, mesmo que os destinados a serem alvejados pelo seu fuzil M-16 sejam sumariamente escolhidos.
  Hoje crianças e adolescentes querem ser policiais, e isto sem dúvida elevou a moral dos bons policiais. Porém, não devemos esquecer que a ação que o Bope realiza nas favelas cariocas é só uma parte da polícia, e que grande maioria da população é protegida por policiais do efetivo regular da PM, ou seja policiais que atuam em todas as esferas da polícia, e não só em tropas de elite. Infelizmente, há corrupção no meio, como retrata o filme. Transferindo para a realidade paranaense, podemos dizer que a relação é microscópica.
  A grande contribuição que o roteiro nos dá é trazer elementos para que haja a discussão em torno da segurança pública. ‘‘O Bope é necessário. É a quimioterapia para curar o câncer do tráfico. É eficaz, porém com muitos efeitos colaterais’’, diz Rodrigo Pimentel, co-roterista do filme, sociólogo e ex-capitão do Bope. Não precisa ser um grande conhecedor da política de segurança pública para saber que atual polícia é forte para os fracos e fraca para os fortes, inclusive a ONU orienta seus países unidos para que trabalhem com o uso progressivo de força policial, e isso encontraremos em todo Brasil.
  Acredito que através das discussões que ainda virão possamos caminhar para um patamar no mínimo aceitável de segurança e, claro, que não podemos culpar a PM pela execução de certas missões, já que apenas cumpre ordens e segue leis. Esse é seu mister.
MARKUS FLANKEL VILELLA DE CARVALHO PEREIRA é historiador e policial militar em Jacarezinho

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