Reflexão em torno da Aids
Dom Orlando Brandes
  Hoje, 1º de dezembro, é o ‘‘Dia de combate à Aids’’ e à discriminação das pessoas soropositivas. Vamos refletir sobre este delicado assunto.
  1. O sexo seguro, socialmente falando, e em função da saúde pública, requer o uso de preservativo. Mas no sentido ético, sexo seguro é fidelidade conjugal, humanização da sexualidade, autocontrole e ordenação das paixões desordenadas, como também renúncia, continência, castidade. A conversão da vida para Deus tem ajudado a viver o sexo seguro.
  2. Uma pessoa portadora do vírus HIV nunca deve ser diminuída, excluída, discriminada. Ela não perde sua dignidade humana, nem a filiação divina. Por outro lado, quem sabe que é portador do vírus HIV nunca deve transmiti-lo a outra pessoa. É assustador o aumento de pessoas portadores do vírus HIV. Não basta só o sexo seguro, é preciso falar de sexo ético.
  3. Sexo seguro é também procurar a cura das feridas, carências e decepções na área da sexualidade e afetividade. O ato carnal por si só não pode saciar nossa fome de amor e de transcendência, fome de Deus. Amar é mais do que fazer amor. A castidade é a organização dos afetos, pulsões e desejos. Paixão e amor são coisas bem distintas.
  4. Liberdade não é permissividade, nem o ‘‘vale tudo’’. Hoje o princípio do prazer tornou-se obrigatório. O prazer egoísta é desumano. O sexo psicológico é tão ou mais importante que o sexo fisiológico. O erotismo é egocêntrico, vingativo, sedutor e ilusório. A revolução sexual não tornou a humanidade mais feliz. Não morremos por falta de sexo, mas por falta de afeto.
  5. Não basta distribuir preservativos como se a energia sexual não precisasse de limites, de valores, de ética. Nossa cultura está erotizada demais. Uma das causas da queda das civilizações é a decadência da moral sexual. Temos hoje um novo tabu: a orgasmomania e orgasmolatria.
  6. A Aids é uma pandemia que atinge crianças, adolescentes, namorados, idosos, mulheres casadas, mulheres marginalizadas, além das pessoas homossexuais. Pessoas homossexuais não podem ser excluídas, nem rejeitadas. Pelo contrário, devem ser acolhidas com respeito, compaixão e compreensão. Nossas comunidades organizaram a pastoral dos portadores do HIV e começa a pastoral de pessoas homossexuais.
  7. Em nome da saúde pública, há orientações e restrições dos poderes constituídos a respeito do álcool, cigarro, drogas e doenças. Em nome da saúde pública, não basta o uso dos preservativos, mas os cidadãos têm direito à educação para o amor, para os valores, para os limites em matéria de sexualidade, sempre sendo preservada a área da intimidade das pessoas.
  8. Uma vida em comunhão com Deus, como também a vivência dos mandamentos, a espiritualidade, a oração, o diálogo com peritos, os ideais, as esperanças da vida, as famílias bem constituídas, muito ajudam na solução para problemas da sexualidade e da Aids.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Que mídias públicas queremos?
Cristina Côrtes
  Entre os dias 20 e 23 de novembro quase 300 pessoas se reuniram no Rio de Janeiro para discutir a missão e gestão das rádios públicas do País. Diretores de emissoras educativas, culturais, comunitárias, legislativas e estatais, além de pesquisadores, representantes dos ministérios ligados à área, e ainda representantes de rádios públicas de outros países como Argentina, Inglaterra, Estados Unidos, França e Holanda, participaram do 1º Fórum Nacional de Rádios Públicas, promovido pela Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub).
  Durante três dias discutiu-se um pouco de quase tudo que envolve as mídias públicas, mas foi num encontro fortuito na porta do local onde se realizava o evento que tive a perspectiva mais clara de como o ouvinte, razão da nossa existência, percebe o trabalho desenvolvido por estas emissoras. Um senhor aposentado me questionou sobre que tipo de encontro estava acontecendo ali. Eu disse que se tratava do 1º Fórum Nacional de Rádios Públicas, reunindo pessoas de todo o Brasil.
  ‘‘São as rádios do governo?’’, perguntou. ‘‘Não, são rádios públicas’’, disse-lhe. E ele: ‘‘Mas não é o governo quem paga?’’ Respondi: ‘‘Sim’’. ‘‘Então, são as rádios para falar bem do governo. Por acaso seria noticiado nestas rádios informações, como por exemplo...’’, continuou ele. E aí foi desfiando um rosário de críticas ao governo federal. Este cidadão, sem ter participado de nenhum debate no Fórum, levantava uma questão central que permeou as apresentações de diversos palestrantes, que chegaram a afirmar que não existe rádio pública no país, na acepção do termo. Herança cultural ou deformação, a verdade é que temos dificuldade em estabelecer delimitações claras entre os conceitos do que é governo e o que é público, principalmente quando o assunto é informação.
  Se falamos de saúde pública ou educação pública, uma boa grande parte das pessoas consegue externar opiniões sobre seus direitos, suas necessidades e suas reivindicações. Mas quando o tema é comunicação pública, poucos conseguem perceber que a informação é um componente fundamental numa cesta básica de cidadania, a que todos têm direito. E mais, que podemos e devemos exigir que o governo invista numa programação de qualidade voltada para o interesse público.
  O Fórum realizado no Rio foi um passo inicial, mas bastante significativo, na busca pela independência e autonomia destas emissoras em relação ao mercado e às administrações, além de revelar as possibilidades de intercâmbio entre as programações das diversas regiões. Pela primeira vez sentaram-se à mesma mesa representantes dos mais diversos segmentos. Mas além das pessoas diretamente envolvidas com a questão, é fundamental que a sociedade participe e interfira neste debate.
CRISTINA CÔRTES é jornalista e diretora da Rádio Universidade FM emissora pública de radiodifusão da Universidade Estadual de Londrina

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