O presidencialismo de coação
Gaudêncio Torquato
  A tropa de choque dos tempos de Collor e o rolo compressor que FHC construiu para fazer passar o estatuto da reeleição são ‘‘fichinha’’ diante do monumental sistema de forças armado por Lula para levar adiante portentoso projeto de poder. Não são poucos os que perguntam sobre os motivos que garantem tanta eficácia às estratégias de uma administração tão comprometida com denúncias e escândalos.
  Além das respostas já conhecidas - continuidade da política macroeconômica, estabilidade internacional, programa de cooptação da base da pirâmide, clima alvissareiro ante perspectivas de inserção do Brasil no ranking dos maiores produtores de petróleo -, há um fator a considerar. Diferentemente dos antecessores, que pareciam tatear na escuridão, Luiz Inácio governa com foco. Sabe o que quer e como fazer para alcançar resultados. Traça um caminho e dele não arreda pé. Há meses a CPMF mais parecia a tarefa impossível de Sísifo. Hoje há poucas dúvidas sobre sua aprovação no plenário do Senado. A força do Palácio do Planalto moverá os obstáculos. É o presidencialismo de coalizão adotado na plenitude, deixando claro que poderia ser chamado também de presidencialismo de coação.
  Não há dúvidas, o governo Lula tem sido mais competente na esfera da política que antecessores. Não fosse esta explicação, teria sucumbido ante a farta listagem de casos escabrosos ao longo dos últimos cinco anos. Luiz Inácio conhece bem o estômago político. Sabe que ele se alimenta de cargos e verbas. E não tem escrúpulos em saciar sua fome. Se há muitos partidos - 11 na base -, aumenta para 37 as Pastas na Esplanada dos Ministérios. Se parlamentares querem grana, precisam, antes, aprovar a montanha da carga tributária. Depois terão direito a um pedacinho do Orçamento para fazer política nas suas regiões. Quem se lembra do mensalão? Eram recursos para ‘‘compra’’ (cooptação) de votos de parlamentares. Será que há muita diferença entre o mensalão e o ‘‘emendão’’ orçamentário para atender à cobiça parlamentar?
  Além do mais, o presidente apurou o faro para sentir o cheiro do ambiente. Percebe que os eleitores perderam a identidade partidária, propiciando condições para uma ligação direta entre o líder e as massas. Como temos pouquíssimas lideranças de peso, ele, Lula, leva a maior vantagem, beneficiando-se, ainda, do pragmatismo que infla decisões pessoais e grupais, do estiolamento ideológico-doutrinário, da pasteurização partidária e de escassos pontos de alta referência social. A frouxidão do vínculo entre o eleitor e os partidos chega ao auge. As crises sucessivas aumentam o fosso entre a sociedade civil e a esfera política. No vazio que se forma, a miríade de pequenas e médias entidades procura articular as forças descrentes.
  Só resta aduzir que a vasta planície social e o estreito planalto político favorecem a consolidação do governismo, termo que expressa o exercício autoritário do poder. O maior espaço do multipartidarismo é ocupado por uma constelação de estrelas em torno do Palácio do Planalto, sol que lhes garante a luz. Ademais, a base governista é fragmentada. Nenhuma sigla tem mais de 20% dos assentos no Congresso.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da USP e consultor político em São Paulo


E eles ficaram sem o meu dinheiro
Abraham Shapiro
  Entrei num restaurante, há poucos dias, por volta das 20 horas. Noite de intenso calor. Pergunto ao garçom se há ar-condicionado na área interna. Ele me responde prontamente: ‘‘Temos sim. Mas não vamos ligar agora’’. Continua me olhando e... sorrindo. Preciso dizer que dei meia-volta e fui a outro restaurante?
  Se ele fosse treinado e quisesse o dinheiro que eu tinha na carteira, teria feito de mim seu cliente em poucos segundos. Bastava ter dito: ‘‘Temos sim, senhor. Estávamos apenas esperando o senhor para ligar’’! Isto sim é estabelecer uma conexão emocional com o cliente. Ela é duradoura, traz lucros para a empresa e gorjeta para o garçom - muito mais do que a economia que o chefe deste infeliz profissional tencionava proporcionar à casa quando ensinou-o a dar esse tipo de resposta mesquinha.
  A compra começa no estacionamento. Quando a loja tem um estacionamento, já é um ótimo benefício. Ar-condicionado, então, não preciso nem dizer, não é? Outro aspecto importante é a área para crianças - porque elas existem e, em vários segmentos, são importantes na decisão da compra dos pais. Boa arquitetura ajuda. Mas sozinha, não garante o resultado esperado. Cada vez mais, as lojas devem revelar um ambiente agradável, fácil para se movimentar, de localizar e tocar produtos - não se vê bem só com os olhos.
  Segundo a visão de especialistas, o varejo brasileiro ainda tem muito a ser trabalhado. Não sou um deles, mas como consumidor confirmo: muito, muito mesmo. O uso de displays e gôndolas que dificultam o manuseio e a visibilidade dos produtos, corredores estreitos que impedem a passagem de duas pessoas ao mesmo tempo, além de uma comunicação visual confusa que, em vez de ajudar, atrapalha o cliente são comuns na grande maioria de nossas lojas.
  Uma loja tem que ser um local convidativo. Cuidado com o acúmulo de coisas. O equilíbrio é sempre desejável. Boa iluminação, jogo de cores, aroma discreto e suave, funcionários bem informados e treinados - vestidos de acordo - facilidades visuais, etc. Isso é que provoca no cliente a sensação de cuidado e garantia de qualidade nos serviços.
  Não adianta querer inventar moda. Inovar sem planejar é ímpeto - acaba se tornando negativo. No consumo, os aspectos sensoriais têm obrigatoriamente de ser estudados e bem implementados, sem esquecer dos pontos emocionais, ou seja, como o cliente irá se sentir diante de tudo. Se ao final, ele tiver a sensação de atenção total e preocupação com o seu bem-estar, há 99% de chance de que ele não só irá comprar hoje. Ele vai voltar. E o melhor: vai sair falando bem da empresa.
  Você acha tudo isso óbvio? Então me explique por que tantos insistem em não pôr em prática essas trivialidades?
ABRAHAM SHAPIRO é consultor empresarial em Londrina

mockup