ESPAÇO ABERTO
Um tiro pela culatra
Amélio DallAgnol
Há quem questione os supostos altos retornos auferidos por empresas nacionais e transnacionais na comercialização de produtos por elas desenvolvidos por causa dos royalties cobrados como prêmio pelo êxito do seu desenvolvimento. Assim é com os remédios, com os defensivos agrícolas e até com as sementes melhoradas.
A queixa mais recente é dos produtores de soja contra a cobrança de uma taxa tecnológica sobre sementes de cultivares transgênicas. A tecnologia é boa e trouxe ao produtor de soja ganhos econômicos e operacionais, via aumento da produtividade conseguida pela simplificação e eficiência do processo de controle das ervas daninhas.
Os benefícios são percebidos e atestados pelo produtor que deveria, como contrapartida, reconhecer o direito que o obtentor da tecnologia tem de receber retornos pelo êxito dessa conquista como forma de ressarcir-se dos gastos efetuados para desenvolver o produto.
Muitos produtores de soja têm utilizado, ao longo dos últimos anos, sementes piratas de origem clandestina, não pagando taxa pelo uso da tecnologia RR e, tampouco, royalties pelo uso da cultivar. Seria oportuno para esses produtores refletirem sobre as conseqüências desse ato. Semente clandestina não é semente, é grão. E grão produzido sem os cuidados dispensados a uma lavoura registrada para produzir semente, muito provavelmente terá menos vigor e menor poder germinativo, resultando em menos sacas/ha. Desenvolver uma nova cultivar leva anos e custa muito dinheiro. Se o obtentor não tiver a expectativa de ressarcimento dos gastos efetuados para o seu desenvolvimento e mais algum lucro, não mais haverá quem se interesse por essa atividade.
Certamente que, neste momento em que começa o plantio de mais uma safra de soja, todos os produtores desejariam plantar uma cultivar resistente à Ferrugem Asiática, doença responsável por perdas bilionárias e pelo incremento nos custos de produção. Este também é o desejo dos cientistas que trabalham na busca dessa semente, sem saber, no entanto, se o esforço valerá a pena, já que muitos produtores negam o reconhecimento dessa conquista, plantando grãos piratas.
Quem investe em novos desenvolvimentos tecnológicos o faz na expectativa do lucro, igual ao produtor quando semeia uma nova semente. Sem essa perspectiva, não haverá novas sementes e o produtor perderá, no longo prazo: um tiro no próprio pé.
AMÉLIO DALLAGNOL é pesquisador da Embrapa Soja em Londrina
Sobre ter ou não ter filhos
Walmor Macarini
Cada qual tem o domínio do livre-arbítrio, e um casal ou uma mulher é que devem decidir se querem ou não ter filhos. O tema gerou polêmica depois da publicação neste Jornal, domingo, de reportagem sobre casais casados que preferem não gerar filhos. A questão tem uma certa relação com o aborto provocado, que é uma rejeição ao ser que, em princípio, vem para nascer. Sob a visão da reencarnação, impedir um nascimento é tirar a oportunidade de quem aguarda um sinal verde para aportar neste mundo, pela primeira vez ou retornando depois de anteriores vivências terrenas.
Se a Terra está superpovoada e há muitas crianças que já nascem subnutridas e em ambiente de fome e miséria, há uma razão para tudo isto e não nos cabe bloquear nascimentos se o motivo é apenas este. Tal também não obriga os casais a terem filhos. Talvez eles tenham outra missão neste mundo e isso figure no propósito que eles firmaram antes de aqui aportar.
Mas, preservados o direito de liberdade e razões cármicas, ouso levantar um tema para reflexão: nessa consonância, esses casais não poderiam ter negócios e benefícios que dependam de crianças, como confecção ou loja de roupas infantis e de calçados, fábrica de brinquedos, creches, cursos pré-primários e todo o corolário de atividades rendosas relacionadas com os pequenos. Quem não os quer não pode usufruir deles.
Também não poderiam depender dos filhos dos outros, incluindo os adultos. Porque eles precisaram haver nascido para servi-los. Significa que um casal que não quer filhos teria de isolar-se do meio e, por coerência, viver numa caverna e não depender de nenhum ser nascido. Um casal com esta mentalidade, em princípio, nega sua origem, pois ambos foram crianças, às quais foi dada a oportunidade de nascerem.
No caso da posição da Igreja Católica contra o aborto, há que louvar isso, porque defende a vida. Mas somente por isto, porque a questão maior deve ser a oportunidade que é dada a uma alma de reencarnar, porque dependente do desejo, embora não consciente disto (ou do descuido), de um casal. Óbvio que não se deve esperar tal entendimento por parte dessa organização religiosa, por força do rigor de seus dogmas, mas de qualquer modo a posição vaticana contribui para a causa das reencarnações.
O assunto é complexo porque esbarra também na questão do controle da natalidade, que não deixa de ser abortivo. Justifica-se com razões da mãe ou a de que, ao permitir o nascimento de ao menos um filho, ou dois, o casal já cumpriu sua missão de procriar. Mas vale também questionar se existe, no rol das missões, a obrigatoriedade de ter filhos.
Em tudo, o que importa é a intenção - se ela é egoísta ou não, ou se, mesmo parecendo egoísta, serve a uma causa mais digna e de relevância maior. Só se sabe que a passagem pela vida terrena não pode dar preferência a futilidades, porque é valiosa demais para se prestar apenas a isso.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA





