ESPAÇO ABERTO
O dilema da nação
José Vicente
No Brasil, a despeito do discurso oficial justificar a distância e a invisibilidade social na tese da discriminação social, um instrumento surpreendentemente demolidor tem deitado por terra a fragilidade e inconsistência desses fundamentos que pregam a cantinela da democracia racial.
Importantes e atuais pesquisas isentas de organismos insuspeitáveis têm contribuído definitivamente para colocar por inteiro e confirmar à exaustão, o que sempre se soube informalmente: no Brasil, o segundo maior contingente de negros do mundo, a discriminação racial atinge níveis estratosféricos.
O IBGE aponta que os negros compõem 45% da população brasileira. Nos estudos do PNUD/ONU, considerando o Índice de Desenvolvimento Humano, o Brasil, tomando-se como referência os negros, ocuparia a 105ª posição no ranking entre países. Considerado somente os brancos, ocuparia a 44ª, isto é, 61 posições de diferença.
Nas licitações e compras governamentais não existe uma recomendação que seja no sentido de ser considerado nosso orgulho nacional da rica, valiosa, única e bonita miscigenação, garantindo sobremaneira atenção à diversidade racial e a efetiva participação dos negros brasileiros na sua realização.
Ao final, no maior Estado e município da Federação, São Paulo, que agrega o maior contingente de negros do país, 30% de sua população - eleitores também - não existe sequer um negro no primeiro e segundo escalões de governo. Não existe um desembargador negro entre os quase 400. Não existe um procurador de justiça, um delegado classe especial, ou, um coronel da PM negro. Na USP - Universidade de São Paulo - a maior da América Latina - custeada com os impostos pagos por negros também, são 2% os alunos negros e, dos 5.400 professores, apenas quatro são negros.
Assim, como realizar os fundamentos da cidadania e dignidade da pessoa humana e construir uma sociedade livre, justa, solidária e que promova o bem de todos sem preconceito de raça e cor sobre esses pilares com pés de barro?
Como alcançar os desígnios da paz, tranqüilidade, coesão e progresso social numa nação cindida e que joga na lata do lixo metade dos seus cérebros e talentos e, onde o gozo e usufruto dos bens, riquezas e oportunidades são disponibilizados apenas à parcela dos filhos da pátria?
Como se pode ver à saciedade, os números e dados são latentes e insuperavelmente indicativos de que, menos por conta da discriminação social, do racismo cordial à democracia racial, do milagre brasileiro ao neoliberalismo, o mais intrincado e decisivo dilema da nação continua intocável e o negro brasileiro continua onde sempre esteve: no porão, separado e desigual.
JOSÉ VICENTE é reitor da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares e presidente da Sociedade Afrobrasileira de Desenvolvimento Sociocultural (Afrobras) em São Paulo
E la nave va...
Paulo André Chenso
Nos últimos meses Brasília vem nos brindando com uma verdadeira enxurrada dos mais sórdidos crimes contra o erário público, a democracia e a dignidade do cidadão. Políticos corruptos denunciam outros políticos corruptos e se locupletam com os dividendos das denúncias, posando de madalenas arrependidas. Vimos um presidente do Senado se agarrar desesperadamente aos cordéis que ainda o mantinham ativo no imenso teatro de fantoches em que se transformou a Câmara Alta, enquanto seu nome e (se é que há) dignidade, ia para o brejo junto com as fotos da curvilínea jornalista-amante-coelhinha.
No Brasil, o parlamentar não se elege para representar uma parcela da população, mas para se colocar acima da lei e da Constituição, num processo interminável de corrosão do Tesouro que deveria ser enquadrado em crime de lesa-pátria. Nosso bipresidente, que não preside absolutamente nada, torna-se apenas uma ridícula marionete nas mãos dos caciques do partido. Diante de qualquer sinal de procela política, levanta vôo em seu magnífico Air-Force Fifty One fugindo para algum país distante, em perpétuo tour-presidencial.
Não temos presidente de fato, mas uma figura de ficção (à moda de Gabriel Garcia Marques). Temos um vice-presidente que até hoje não sabemos para que serve. A classe média produtiva vive submetida a uma escorchante e pantagruélica carga tributária que envergonharia qualquer senhor feudal. O terceiro, na hierarquia para dirigir a Nação, o presidente da Câmara, foi eleito quando nossos probos e valentes congressistas se engalfinharam numa luta indômita para elegê-lo. E para quê? O que faz, este presidente da Câmara? Para ele, muito, com certeza. Em prol da Nação, há controvérsias.
O governo petista, na sua sanha desatinada pelo social, passou a distribuir Bolsa-Família, Bolsa-Escola, bolsa-isso, bolsa-aquilo, num estímulo cretino à indolência (coisa histórica no brasileiro), mas esqueceu-se que nosso país é regido pelas leis do mercado internacional e do capitalismo selvagem desbragado. Alardeiam, hoje, que o Bolsa-Família está desarticulando o MST, dragão misterioso nascido no seio do próprio PT, mas que se tornou uma pedra no sapato dos companheiros de Brasília. Afinal, ninguém agüenta tanta farsa e tanta mentira.
Frauda-se e pirateia-se tudo neste país: de CDs ao leite das crianças. Rouba-se tudo: do erário à merenda escolar. No Norte do país (Amazônia), ingleses, americanos e japoneses tomam conta - lá os brasileiros só não falam português. Bandeiras inglesas e americanas aparecem aqui e ali, numa tomada de posse (invasão mesmo!!) vergonhosa - e nossas autoridades fingem que o Brasil só existe no Nordeste (imenso curral eleitoral) ou no Sul maravilha onde se esbaldam nos balneários de luxo. Enquanto isso, essa nau dos insensatos vai, lentamente, naufragando no imenso mar de lama em que se transformou o Planalto Central do País.
PAULO ANDRÉ CHENSO é médico e professor em Londrina





