Que tipo de polícia queremos (2)

Francisca Vergílio Soares
  No artigo publicado neste espaço em 04/11 apresentei breve reflexão do filme ‘‘Tropa de Elite’’ focalizando a questão da segurança pública. Falei da apatia dos espectadores em considerar normal o uso da violência para arrancar confissões dos supostos bandidos capturados. O aspecto negativo do filme é que ele pode contribuir ainda mais para reforçar o cansaço do público na espera por uma política de segurança centrada não somente no puro uso da violência. Ou seja, é temível que possa se reforçar ainda mais a idéia de uma cultura que acredita que a violência urbana possa ser solucionada pela violência.
  Por isso, vale a pena chamar a atenção para que o mesmo seja visto não apenas como entretenimento, mas como um instrumento de reflexão sobre a urgência de se pôr em prática uma política de segurança que não incentive ainda mais a violência através do confronto, da pura vingança e da desvalorização do policial que cotidianamente põe em risco sua vida. Aliás, tem crescido o número de policiais mortos em confronto, em execuções por ataques surpresas de grupos do crime organizado.
  Desde os anos de 1980, quando se iniciou o processo de democratização do país, os sucessivos governos não conseguiram definir uma política de segurança que pudesse dar conta da ‘‘criminalidade nova’’ que assolou os Estados. O filme expõe essa problemática e mostra o que está no mundo real: que as ‘‘políticas’’ de segurança não prescindem da violência policial no combate à criminalidade, que a corrupção está profundamente arraigada nas instituições, que existe uma forte relação entre violência e corrupção, que há uma linha muito tênue entre a barbárie e a civilização, que o tráfico de drogas só persiste porque há quem o sustente, que se ele - tráfico -está nas comunidades pobres é porque o poder público perdeu sua legitimidade, etc.
  Parafraseando o antropólogo Rodrigo Gomes Guimarães, Padilha ‘‘apostou na inteligência das pessoas fazendo um filme inteligente, porque não aponta ‘‘causas’’ ou ‘‘soluções’’; ‘‘deixa-nos pensar’’. Então é preciso sair do estado apático em que nos encontramos acreditando que apenas o uso da força vai resolver o problema da violência. Uma política de segurança pública inclui antes de tudo, mudança de mentalidade porque há uma consciência coletiva que reduz a violência em dois pólos: os ‘‘bons’’ e os ‘‘maus’’.
  ‘‘Tropa de Elite’’ deve despertar a consciência do público no sentido de que veja uma outra possibilidade de segurança pública que desestimule as corrupções policiais, que construa uma nova relação do cidadão comum com a polícia, que, independente de se ser favorável à descriminalização das drogas, a sociedade precisa encarar esse debate; etc. O filme e a situação a que chegou o acumpliciamento de certos setores do poder público com a criminalidade em tempos contemporâneos, nos remete aos anos de 1970, período em que o bandido Lúcio Flávio, dizia não negociar com agentes da segurança, sua máxima era: bandido é bandido, polícia é polícia, como água e azeite não se misturam.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, pesquisadora e coordenadora do Observatório Social Londrinense de Estudos da Violência


O país da ‘moda’

Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
  As denúncias de que certas marcas de leite apresentavam compostos químicos danosos à saúde do consumidor mostra que no Brasil o impensável pode ocorrer. O que vem ocorrendo, ao longo do tempo, é uma sucessão de episódios semelhantes ao do leite contaminado. Isto tornaria a nação tupiniquim como ditadora de uma ‘‘moda’’ cuja marca seria sua própria decadência. O País já lançou a ‘‘moda’’ das pílulas à base de farinha de trigo. Também costuma lançar ‘‘moda’’ da merenda escolar estragada. Outra ‘‘moda’’ exportada é a de grãos de soja transgênica misturada aos grãos naturais. A mídia contribui para propagar essa ‘‘moda’’, apesar de, na maioria das vezes, ser motivada pelo espírito de denúncia. O resultado é um clima de insegurança, de medo e de decepção, pois a idéia de que no Brasil ‘‘tudo é possível’’ (em boa parte remetendo a algo negativo) acaba predominando.
  O caso do leite revela que não há um culpado somente. Até o produto chegar ao consumidor foi preciso passar por um processo (fabricação, empacotamento, distribuição). E quando o produto chega alterado de algum modo ao consumidor deveu-se à ruptura em algum ponto deste processo. Poderia, então, dizer-se que a falta de coordenação neste processo foi o responsável por isto? Sem dúvida. A ‘‘moda’’ brasileira mostra a decadência do país, sua incapacidade em prevenir a ocorrência de fatos como os expostos. Poderia-se também extrapolar esta questão: produtos contaminados, crises que costumam surgir e que também parecem ‘‘moda’’ (como os apagões nos governos FHC e Lula), crise política (e também a ‘‘moda’’ dos escândalos cujo roteiro já se sabe como será e qual será seu desfecho), e a crise da sociedade (‘‘moda’’ da guerra do tráfico, das agressões contra pessoas inocentes, dos erros médicos, da violência escolar, do golpe financeiro contra aposentados,...).
  E por que parece que isso não tem fim? O que é mais preponderante para que isto continue: a crença ou as ações que prejudicam o processo como um todo? Poderia-se dizer que os dois, visto que a crença motiva uma ação, assim como uma ação pode encorajar o surgimento de uma crença. Ambos andam juntas, e o que vem ocorrendo ainda no Brasil é a atuação conjunta destes dois elementos, e voltados para um objetivo nada nobre: a decadência das instituições e da sociedade. ‘‘Moda’’? Por que não algo que seja permanente, que envolva um processo voltado para o progresso social, econômico, político e espiritual do todo? A ‘‘moda’’ na nação tupiniquim só muda suas estampas, pois continua a mesma em sua essência. O país precisa parar de ficar andando em círculos.
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina na Universidade Estadual de Londrina

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