Ativismo, uma patologia generalizada

Dom Orlando Brandes
  O ativismo acaba em estresse. É um desrespeito pelo quinto mandamento ou o cuidado com a saúde. Hoje queremos refletir sobre o ativismo pastoral, daquelas pessoas que trabalham nas paróquias, comunidades, dioceses e estão na animação das pastorais, ou seja, dos trabalhos eclesiais, apostólicos, missionários. Ativismo não significa só excesso de trabalho, mas fazer as coisas de coração contrariado, murmurando, reclamando e pior ainda para aparecer, agradar a autoridade, cumprir a lei e até para a autopromoção. Outro lado do ativismo pastoral é a incoerência entre o que se diz e o que se faz. Leva-se uma vida dupla, numa ‘‘personalidade dupla’’ e isso é desgaste de energia e fonte de fadiga.
  Quem sofre o mal do ativismo, pode até não trabalhar muito, mas não reza, não estuda, não descansa, porque o trabalho virou escapismo, fuga de problemas não resolvidos. Cai-se num círculo-vicioso: ‘‘Enche-se de trabalho e não se tem tempo para o cultivo espiritual e humano’’. O ativista esquece que o valor e grandeza da vida não está naquilo que se faz, mas naquilo que se é. Quem faz muitas obras para o Senhor e acaba esquecendo o próprio Senhor por causa das muitas obras, está equivocado. Quem se apega às obras, espera elogios, gratificações e resultados e geralmente não sabe dar seu lugar a outros.
  O ativismo é resultado do perfeccionismo. É próprio do perfeccionista ter a tendência a ficar insatisfeito e incomodado com o que faz. Sob o comando do ativismo a pastoral vira profissionalismo, a gratuidade é substituída pela gratificação. O povo procura o pastor e encontra um profissional. O pastor ou o agente de pastoral virou burocrata.
  Os efeitos do ativismo são muito negativos: irritabilidade, desgaste, esgotamento, isolamento, doenças, ‘‘impaciência apostólica’’, queima-se as pessoas com facilidade e freqüência. O ativismo é alimentado por determinadas afeições: desejo de aparecer, competição, rendimento, sucesso. O ativista peca pela pressa, vive sob a pressão do tempo e sob a sensação de urgência que é a ‘‘tirania do urgente’’. Sobrecarrega-se de responsabilidades, ambição do sucesso, fazendo do ativismo uma patologia. O remédio e cura são: oração, lazer, amizades boas, mudar o estilo competitivo, perfeccionista e apressado, observar o 5º mandamento e o convite de Jesus: ‘‘Vinde à parte para um lugar deserto e descansai’’ (Mc 6,31).
  O ativismo é uma patologia de nossa cultura, é uma espécie de narcisismo, ou seja, exaltação de si para obter atenção, afeto e valorização de si. Privilegia-se o fazer e o ter em detrimento do ser. O acúmulo de trabalho é uma espécie de narcótico que leva à fuga e prejuízo de outros valores. O ativista é um fugitivo de si e um desertor de Deus. O que o ativista constrói com uma mão, destrói com a outra. Numa sociedade competitiva e consumista o ativismo é uma doença cultural que se manifesta no infarto, agressividade, depressão, stress e falta de tempo, de meditação, de silêncio e de escuta. É um comportamento contra a vida.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Vicente Rijo: ‘inchamento’ e ‘linchamento’

Demilson Parolin
  Atualmente há muito ‘‘especialista’’ em Educação sem diploma. Aliás, no Brasil onde há uma ‘‘indústria de diplomas’’, nada mais corriqueiro do que sentir-se habilitado para opinar com ‘‘autoridade’’ e liberdade sobre qualquer tema, sem qualquer embasamento filosófico e científico.
  Temos empresas sem administradores, hospitais sem médicos, jornais sem jornalistas, escolas sem educadores, Estado sem autoridade... Não se trata de carência de mão-de-obra, mas de profissionalização e competência.
  O episódio envolvendo a revista da Patrulha Escolar em alunos do Colégio Estadual Professor Vicente Rijo é uma boa oportunidade para pensarmos no assunto. Passado o calor da hora, talvez seja o momento de voar um pouco mais alto do que a altura do muro e tentar pensar sobre os processos que envolvem a crise de violência na escola.
  O mundo contemporâneo é violento e isto não é privilégio do Brasil. O conceito de violência é muito mais amplo do que o senso comum veicula. Debruçar-se sobre um fato sem relacioná-lo com as determinantes históricas é negar o processo histórico.
  O ‘‘inchamento’’ de muitos cidadãos perplexos com os últimos acontecimentos é compreensível, num momento em que o ‘‘politicamente correto’’ é o discurso mais seguro diante da fragilidade das ações vazias de instituições oficiais ou não.
  É tempo de refletirmos sobre a natureza das mudanças contemporâneas. Há um estranhamento da sociedade brasileira com qualquer medida enérgica frente aos conflitos. Temos dificuldade de compreender os termos autoridade e autoritarismo.
  Talvez seja um rescaldo do autoritarismo da época da ditadura. Há um certo medo de todos em enfrentar os novos conflitos sociais, sob pena de sermos confundidos com certa maneira autoritária instituída no Brasil desde muito tempo.
  Não aceitamos qualquer tipo de violência. Não podemos ser omissos num momento de banalização dos valores humanos. Nem permitir o linchamento de uma instituição tão importante para a história de Londrina.
  Acusações cruzadas não podem engendrar transformação dessa realidade. Precisamos debater o tema com responsabilidade. Não dá para esgotá-lo na imprensa, na escola, na polícia, na Igreja... É preciso engajamento de toda a sociedade. Que tal unirmos forças?
DEMILSON PAROLIN é professor de História do Colégio Estadual José de Anchieta em Londrina

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