ESPAÇO ABERTO
Previdência x miseráveis
Paulo César Régis de Souza
Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o número de miseráveis no país foi reduzido em 44% pela Previdência Social, com o pagamento de benefícios previdenciários e assistenciais de um salário mínimo a 17,2 milhões de brasileiros. Na fronteira do mínimo, o INSS contabiliza 8,8 milhões urbanos e 7,4 milhões de rurais; 13,3 milhões de benefícios previdenciários e 3 milhões de assistenciais.
Pode ser motivo de alegria para o assistencialismo, mas para mim é motivo de pesar ao verificar que a Previdência Social pública foi reduzida a protetora de milhões de miseráveis. Ela não foi criada para isso. Seus venerados ícones, Eloy Chaves e Getúlio Vargas, se retorcem, indignados, nos seus túmulos. Desgraçadamente, com o passar do tempo, nas últimas duas décadas, os benefícios previdenciários foram reduzidos e achatados, beirando a fronteira da miséria e do abandono.
Para o IBGE, existiriam 21,7 milhões de miseráveis, mas o Ipea sustenta que chegaria a 38,9 milhões se não houvessem os benefícios previdenciários e assistenciais. O estudo do Ipea não contempla o contingente beneficiado pelo Bolsa-Família, outro grupo assistencial relevante.
O dado positivo disso tudo é a confirmação histórica de que indiscutivelmente a Previdência é a maior redistribuidora de renda no Brasil, com pagamentos em 2006, de R$ 64,5 bilhões, e fortes impactos em todos os municípios brasileiros.
Há anos que venho escrevendo sobre a Previdência Social, bem diferente dos programas assistenciais, em que se incluem o BCP e o Bolsa-Família. O benefício previdenciário é um seguro com contribuição e benefício definidos. O benefício deveria corresponder à expectativa do segurado. Infelizmente, as artimanhas dos fiscalistas e dos inimigos do Estado Social mascaram a Previdência e fraudam-na. O segurado contribui com x, se aposenta com y e, rapidamente, seu benefício vai a w e a z, sem qualquer correlação com x.
Tenho alertado com insistência para os desvios cometidos ao longo de 84 anos. Temo em afirmar que o Wellfare State, sistema de previdência de repartição simples em que os trabalhadores de hoje pagam as aposentadorias e pensões dos trabalhadores de ontem, está chegando a uma situação insustentável no nosso país. Sei que o mundo gira, tudo se transforma na face da terra, mas nada deveria se orientar para o mal e a miséria das pessoas.
Todas as nações fizeram ajustes nos seus sistemas previdenciários para que se assegurem ao segurado sua dignidade. Nenhum sistema tem como meta a miserabilidade do ser humano.
PAULO CÉSAR RÉGIS DE SOUZA é presidente da Associação Nacional dos Servidores da Previdência Social (Anasps)
Prantear, sem sentimento de ódio
Walmor Macarini
Tenho escrito sobre isto e volto ao assunto, porque entendo que esta é a forma melhor de consolar familiares que perderam um dos seus, vitimado pela violência de outros. É preciso compreender essa dor alheia, mas ela não pode se transformar em ódio e em busca obstinada de punição para o algoz. Muitas infortunadas pessoas que perderam filhos queridos por assassinato dedicam seus dias à causa de obter a mais dolorosa pena para os que as feriram. Mas isto é também uma autoflagelação, que não traz de volta a vítima para a vida terrena e só a prende ao palco da tragédia, dificultando-lhe a subida para a luz.
Se amamos quem se foi, não podemos aprisioná-lo à nossa dor. Proclamar que ele faz falta é atá-lo e não permitir que se eleve. Quem ama um filho que partiu para outra jornada, precisa, pela impulsão do sentimento, encaminhá-lo para o alto, no sentido que vá e não se prenda às coisas terrenas. Os clamores por justiça são sentimentos de ódio e vingança e isto não beneficia em nada quem foi vítima e quem fica.
Eventualmente, quem transcende para a outra dimensão pode ter tido a imediata compreensão do que lhe aconteceu e já haver perdoado o assassino, mas isto não o aliviará por completo se os familiares, parentes e amigos não fizerem o mesmo. Tal não significa ficar indiferente e sim afastar o desejo de punição, porque isto cega e corrói.
Bom seria se houvesse compaixão também pela desventura do assassino. A mente impregnada de ódio e clamando por justiça causa grande dano a quem se envolve nessa teia e àqueles a quem se chora. Quanto menos exteriorizações em torno de um crime, tanto melhor para todos e para a atmosfera de uma cidade. Os veículos de comunicação pecam ao fazer tanto alarde.
É preciso deixar que as instituições competentes se encarreguem de cada caso, buscar entender por que as coisas acontecem e extrair delas os ensinamentos. Porque estes são caminhos de purificação para todos os personagens envolvidos. Se a justiça terrena falha, não se deve clamar por uma justiça divina que atenda à nossa forma irada de entendê-la. A esperada ira celestial com toda a certeza não é idêntica à dos sentimentos terrenos.
Emanações de ódio e anseios de vingança ferem mortalmente os que foram vítimas de assassinatos e os mantêm acorrentados ao palco da tragédia que os envolveu. E tudo o que se almeja pelo ódio retorna ao ponto de partida, causando grande estrago, e uma roda viva de amargura se forma. Todos são prejudicados com esses clamores por justiça, porque carregados da sede de vingança. Melhor é prostrar-se em prece e orar também pelo assassino. Esta é a parte mais difícil. Mas quanta luz e quanto conforto isto traria!
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA
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