Festa de todos os Santos

Dom Orlando Brandes

1. O mundo precisa de líderes e prestigia seus heróis e personalidades marcantes. Os santos exercem fascínio e atração, arrastam seguidores porque são testemunhas da verdade, do amor, da fé. Somos cativados por eles porque gostaríamos de ser como eles. Estamos todos à procura da inocência original, da opção pelo bem, da perfeição no amor que os santos alcançaram e tornaram-se pontos de atração.

2. Os santos nascem humanos e são ''peritos em humanismo''. Não se colocam acima dos outros homens e mulheres, nem se afastam dos pecadores. Humanos e cheios de misericórdia, os santos estão convencidos que são grandes pecadores, mas percebem o triunfo de Deus em suas vidas. Nos santos celebramos a vitória da graça de Cristo. É Deus que faz os santos, operando neles grandes coisas.

3. Muitos santos começaram viver a aventura da santidade lendo livros sobre ''a vida dos santos'', ou agiografia. Para alguém ser santo não precisa ser exótico, cafona, beato. Os santos não gostam de chamar atenção sobre si. Um forte sinal de santidade é o esvaziamento de si, a vida escondida com Cristo em Deus a serviço dos irmãos. A simplicidade de vida é a marca registrada dos santos de ontem e de hoje.

4. A história testemunha que os santos movem o mundo, comovem os corações, atraem discípulos, mudam os rumos da humanidade, marcam a história da Igreja por que são homens e mulheres de Deus. Olhando para os santos todos podemos dizer como Lacordaire a respeito de São João Maria Vianney: ''Vi Deus num homem''. De fato, os méritos dos santos, são dons de Deus. Venerar os santos é reconhecer o poder da graça divina em suas vidas, é celebrar a vitória de Cristo em suas pessoas. Neles brilha o esplendor da santidade de Deus.

5. Convivemos diariamente com pessoas santas. Quem de nós não conhece doentes cheios de paciência? Pessoas injustiçadas e maltratadas cheias de perdão e misericórdia? ''São como a cana-de-açúcar, quanto mais trituradas, mais doçura emitem'' (D. Hélder). Conviver servindo a pessoas neuróticas, alcoolizadas, deficientes, desequilibradas, etc., é dar testemunho de santidade. Perseverar na oração, dedicar-se silenciosamente aos pobres e enfermos são sinais de santidade. Mesmo assim, é bom lembrar o que dizia o Papa em Florianópolis: ''O Brasil precisa de santos''. Ser santo não consiste em fazer coisas extraordinárias, mas em sempre recomeçar, procurar ser melhor, estar em processo de crescimento espiritual.

6. O que mais a Igreja de hoje necessita é de santidade. Ela haverá de crescer pela ''atração''. Nada mais atraente e convincente que a santidade. ''Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação'' (I Tess 4,3).

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina





Culpa da China?

Antonio Delfim Netto

Os jornais publicaram com algum estardalhaço como uma grande novidade que ''a China tomou um bilhão de dólares de exportações brasileiras no mercado americano no ano passado''. Poucas pessoas não chegaram a perceber a irrelevância dessa informação, de tão atrasada que é. A China vem ocupando os mercados de onde os exportadores brasileiros de produtos industriais foram expulsos não por alguma ação externa ou retaliação comercial dos grandes importadores, mas por conta dos congelamentos do câmbio que repetimos desde 1986 até hoje.

Nesses 21 anos o Brasil praticou políticas cambiais devastadoras contra os setores industriais que exportavam para os Estados Unidos e demais países desenvolvidos. Nossos governos não entenderam a evolução do mundo e retiraram o suporte ao sofisticadíssimo parque industrial que estava se desenvolvendo no Brasil. Já o governo chinês entendeu que o mercado americano era de produtos industrializados e investiu nessa direção das manufaturas para exportação, aprendendo a usar mecanismos que o Brasil utilizou até 1984/85.

A China não foi atrás de regimes de preferências junto às potências comerciais, ela simplesmente fez uma política cambial inteligente, foi buscando os caminhos que nós deixamos abertos e rejeita tranquilamente as pressões para valorizar o Yuan. Nós adormecemos: em 1984, China e Brasil eram responsáveis por uma parcela idêntica das exportações mundiais, 1,1% para cada uma, algo como 22 bilhões de dólares anuais e a Coréia tinha um pouquinho mais, exportava 23 bilhões de dólares. O Brasil tinha naquela época uma política de câmbio flexível e um programa exportador industrial que se mantinha há 15 anos. Em 1986, o plano Cruzado congelou o câmbio e o Brasil fez uma grande asneira, declarando a ''moratória soberana'' e a partir daí só fizemos besteira em matéria de câmbio: veio o Collor e congelou o câmbio duas vezes e, na sequência do plano Real, o governo FHC congelou o câmbio por 4 anos até 1999. Nesse período abandonamos toda a política de estímulo às exportações industriais. Enquanto o país acumulava um déficit de 186 bilhões de dólares em conta corrente, a indústria brasileira deixou de faturar outro tanto com a perdas dos mercados de exportação. Também abandonamos o campo, demonstrando uma enorme imprevidência.

A China multiplicou as Zonas de Livre Comércio direcionadas para a produção e exportação de bens industriais e foi à luta visando preferencialmente o grande mercado americano. Hoje exporta 10 vezes mais do que nós para aquele mercado e suas exportações anuais representam 9% das exportações globais; a Coréia tem 3% e o Brasil, depois de todo o esforço dos últimos cinco anos, basicamente centrado nos produtos da agricultura e mineração, voltou ao ponto de partida de 20 anos atrás: temos os mesmos 1,1% das exportações mundiais. Parece que estamos sendo despertados agora dessa triste realidade, como sugere o desafio do Ministério do Desenvolvimento Industrial de remontar uma política de exportações industriais para ampliar em 10% pelo menos, a médio prazo, nossa participação no comércio mundial.

ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e ex-deputado federal por São Paulo


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