‘Ser ou não universitário’ (1)

José Mario Angeli e Adriana Mattar Maamari
  Na matéria ‘‘Crise de ausência nas salas de aula’’ (Folha Cidades, pág. 1, 28/09), que deveria ser nomeada como ‘‘Crise de presença’’, deu-se particular destaque à fala de um aluno do curso de Filosofia. Este declara que integralizou ‘‘uma disciplina sem a freqüência e sem dificuldade’’. Embora, de forma genérica, a matéria aborde diversas questões, percebemos que o foco se voltou ao curso de Filosofia, destacando-o como emblemático desta suposta crise. A matéria se baseia na constatação de que na universidade a liberdade de circulação de pessoas pelos corredores e pelos pátios é um indicativo de uma ‘‘crise’’ e afirmar isto nos parece um tanto apressado.
  Há que se destacar que a universidade, seja em nossa cidade ou em qualquer outro local, é um ambiente em que os alunos são tratados como adultos. Isto é, indivíduos com a autonomia suposta no exercício dos seus direitos e deveres, não cabendo aos professores controlar de forma rígida o nível de responsabilidade que cada um tem em relação a sua própria formação, dentro ou fora da sala de aula. O controle de freqüência, os mapas da sala, os corredores silenciosos próprios do ambiente vivenciado na Educação Básica, não são possíveis, nem mesmo desejáveis numa universidade.
  A ‘‘vida acadêmica’’ está para além de simplesmente assistir aulas. Entendemos que isto é um aspecto da formação e cada aluno dá a ela prevalência ou não. A convivência ‘‘nos corredores’’, a participação nos CAs (centros acadêmicos), em atividades culturais, em eventos paralelos, sem dúvida, são momentos de formação. Estas são sempre desconsideradas, pois sobre elas não se tem controle.
  A valorização do registro de freqüência é o reflexo da perspectiva que a sociedade lança sobre as instituições educacionais. Elas devem ser o ‘‘locus’’ da reprodução dos valores vigentes na sociedade. É neste ponto que a matéria peca, girando sobre um tema que não se constitui nem mesmo num sintoma importante da crise na educação. A ‘‘venda’’ da educação superior como mercadoria indispensável para a ascensão social, a corrida pelos títulos acadêmicos para garantir um lugar no ‘‘mercado de trabalho’’ traz para a universidade expectativas empobrecidas do papel do ensino superior. Isto é muito evidente na fala de um aluno de Engenharia Cartográfica da UFPR: a universidade está voltada para a restrita transmissão de saberes necessários ao fazer técnico.
  Desta forma qualquer disciplina, curso, seminário ou atividades autônomas de busca de conhecimentos ‘‘não utilitários’’ parecem desprovidos de sentido. Cabe à universidade fazer circular este sentido. A dificuldade de realizar este objetivo deve-se constituir no desafio de hoje. Manter os alunos disciplinadamente na sala, registrando de maneira irrefletida a fala do professor para depois realizar mecanicamente as provas e exames, com certeza não é resposta para a crise. Assim, sugerimos que este jornal abra um fórum de discussão sobre a ‘‘crise no ensino superior’’ envolvendo todas as instituições e a sociedade. Seria uma contribuição respeitável.
JOSÉ MARIO ANGELI e ADRIANA MATTAR MAAMARI são docentes do curso de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina

Por que temos que pensar regionalmente

Adrian von Treuenfels
  Eliminando as barreiras de tempo, distância, ideologias e culturas, a globalização vem de forma ágil, implacável e muitas vezes predatória mudando as regras da concorrência mundial. Na luta pela sobrevivência comercial as empresas precisam repensar os seus planos de expansão, os seus quadros e os seus métodos de atuação.
  No entanto, a maioria das empresas, isoladamente, não consegue encontrar respostas para esses novos desafios. A união que antes era subliminar agora se torna imperativa. O agrupamento em torno de suas capacidades comuns ou complementares para buscar sinergias no enfrentamento à concorrência globalizada se torna imperativo. Nunca antes o sucesso da gestão empresarial esteve tão atrelado à união.
  Porém, essa aproximação entre as empresas não será suficiente se for motivada apenas por interesses econômicos ou financeiros. É preciso que os agentes públicos também percebam que os municípios isoladamente não conseguirão encontrar respostas para os novos desafios sociais e ambientais. A consciência coletiva que une os habitantes de uma determinada região em torno da sua história, cultura, dos seus problemas e das oportunidades, é fundamental para articular e implementar as ações necessárias de desenvolvimento coletivo.
  Os agentes de desenvolvimento regional nada mais são que organizações políticas (leia-se: de interesse público) que surgem da articulação de esforços conjuntos de lideranças regionais unindo as autoridades públicas, os empresários e a sociedade civil organizada em torno de objetivos comuns, que promovam o desenvolvimento econômico, social e ambientalmente sustentável de uma determinada região.
  As Agências de Desenvolvimento Regional somente funcionam se houver uma sociedade madura, consciente e pró-ativa o suficiente para que as decisões e ações em prol dos interesses coletivos se sobreponham aos interesses individuais, sejam eles de ordem econômica ou política. Os resultados só se efetivarão quando todos tiverem essa consciência, apoiando e se engajando na consolidação de articulações, que tem como objetivo maior a integração e a promoção do desenvolvimento regional. Esta habilidade de articulação política é que sobrepõe certas regiões a outras, na competição global do desenvolvimento, através da atração de investimentos e da industrialização.
ADRIAN VON TREUENFELS é presidente da Agência de Desenvolvimento Terra Roxa Investimentos em Londrina

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