ESPAÇO ABERTO
O Saci contra o Halloween
Telma Gimenez
Pergunte a qualquer pessoa o que comemoramos no dia 31 de outubro e a resposta, titubeante, pode ser Halloween! Não de acordo com os deputados Aldo Rebelo (PDdoB-SP) e Angela Guadagnin (PT-SP), que protocolaram projetos de lei criando o Dia do Saci para ser celebrado naquela data.
De acordo com a justificativa apresentada no projeto do ex-presidente da Câmara dos Deputados, o Saci é reconhecido como uma força da resistência cultural à invasão dos X-men, dos pokemons, os Raloins e os jogos de guerra. A escolha do dia 31 de outubro, que tem sido imposto comercial e progressivamente aos brasileiros como o Dia das Bruxas ou o Dia do Halloween, não dizendo absolutamente nada sobre o nosso imaginário popular cultural, como o Dia do Saci, é assim estratégica, proposital, simbólica.
Iniciativas dessa natureza são reveladoras de concepções de identidade como algo estático, consensual e passível de imposição por mecanismos legislativos. Da mesma maneira que o projeto da chamada Lei dos Estrangeirismos, o que se quer é reagir à invasão estrangeira, que teria a língua inglesa como seu principal mecanismo. No entanto, a dissociação crescente entre língua estrangeira e língua global ou mundial requer novos modos de se pensar o inglês no mundo e traz questionamentos sobre o que significam identidades locais ou nacionais.
Uma dessas conseqüências é a desterritorialização do inglês. Segundo o sociólogo Renato Ortiz, já não são mais as raízes de sua territorialidade anterior que contam, mas sua existência como idioma desterritorializado, apropriado, ressemantizado, nos diversos contextos de sua utilização.
Deste modo, o Halloween se configura como uma atitude equivocada que busca associar a língua inglesa a um território específico, no caso, os Estados Unidos. Em uma perspectiva intercultural, quem ensina inglês trabalha com noções de quem somos, com questionamentos sobre a relação dessa língua internacional com nossas identidades individuais e coletivas e estas não precisam estar atreladas às tradições norte-americanas.
Por outro lado, a eleição do Saci como símbolo da cultura nacional encontra pouco eco dentre os brasileiros. Não me parece possível criar essa identificação por meio de leis. Quais outras iniciativas marcarão a batalha? Certamente, o próximo dia 31 convida a uma reflexão sobre nossas identidades no contexto da globalização cultural.
TELMA GIMENEZ é professora universitária em Londrina
Dia do Pastor
Joed Lamonica Crespo
Hoje, 31 de outubro, comemora-se o Dia do Pastor. Esta data é também a que se celebra a Reforma Protestante do século XVI. Os principais fundamentos da Reforma são: o sacerdócio universal dos cristãos e a justificação pela fé, visto que a justiça de Deus se revela no Evangelho, de fé em fé, como está escrito. O justo viverá por fé (Rm 1,17). A escolha desta data como Dia do Pastor justifica-se pelo fato dos pastores evangélicos de modo geral serem os herdeiros da referida Reforma. Nestes dois pontos básicos citados os pastores estão unidos.
Segundo as Escrituras, a palavra pastor designa um ofício, mais do que um título. Hoje a palavra é mais usada como um título do que para indicar uma função. Por isso, temos hoje apóstolos, profetas, evangelistas e mestres que são chamados e intitulados de pastor. O pastor no sentido real da palavra é aquele que apascenta as ovelhas (pessoas) ou aquele que cuida das ovelhas, que tem ovelhas para alimentar e guiar. Podemos afirmar que há muitos homens e mulheres que exercem o ministério pastoral sem nunca ter sido ordenado ou reconhecido como pastor ou pastora.
O pastor ou ministério pastoral é um dom ministerial que o Senhor Jesus deu à Igreja (Ef 4.11). Para ser pastor ou pastora é preciso ser chamado, escolhido pelo Senhor. Aquele que tem este chamado divino há de ser reconhecido pelas ovelhas (povo). Quem tem autoridade para ordenar ou consagrar um pastor ou pastora? São outros pastores que em reunião conciliar, também chamada de presbitério, através da imposição de mãos, publicamente ordena, consagra ou separa oficialmente para exercer o ministério pastoral aquele (a) que apresente evidências do chamado.
A missão principal dos seminários e faculdades Teológicas é equipar, preparar e oferecer ferramentas que possibilitem ao chamado por Deus, exercer com maior eficácia seu ministério. A preparação intelectual oferecida pelos seminários e faculdades Teológicas não são suficientes para garantir êxito ministerial. É de suma importância que o chamado para o ministério pastoral desenvolva um relacionamento de profunda comunhão e intimidade com Deus, sem o qual não haverá ministério com relevância e significado.
Não poderíamos esquecer neste Dia do Pastor de agradecer a Deus pelos pastores que com dedicação serviram ao Senhor e à Igreja em Londrina, e também deram sua valiosa contribuição abençoando a cidade. O ministério ou a ação pastoral se concentra no trabalho de reconciliação do homem com Deus, do homem com o próximo, na edificação e preservação de famílias saudáveis, na defesa da moral e da ética tanto no trabalho, quanto na escola, na política e até no lazer, na proclamação e defesa dos princípios cristãos, visando o combate à corrupção, à má distribuição de renda, à imoralidade, às injustiças sociais, à impunidade, aos vícios, à idolatria, à promiscuidade, à filosofia hedonista, ao relativismo típico da pós-modernidade. Parabéns pastores e pastoras, reconhecidos ou não. Continuem cumprindo com fidelidade o ministério que o Senhor lhes confiou. Que o Senhor Jesus, o bom pastor, seja sempre o seu referencial maior.
JOED LAMONICA CRESPO é pastor e presidente do Conselho de Pastores Evangélicos de Londrina
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