ESPAÇO ABERTO
Pobreza dá lucro e rentabilidade política
Cezar Bueno
O capitalismo inicial, na sua versão industrial e urbanizada, prometia incluir os desempregados que engrossavam a fila dos exércitos industriais de reserva. Acreditava que a pobreza à espera de emprego pudesse, a qualquer momento, ser inserida nas relações formais de trabalho, produção e consumo. Os indivíduos sem renda ou os que eventualmente caíssem na lista do desemprego podiam transitar ao lado da sociedade incluída, útil, produtiva, consumidora e fiadora da ordem legal.
No mundo atual, circunscrito pelo capitalismo globalizado e informacional, a liquidação das políticas sociais do Estado faz a desigualdade aumentar. O discurso político tradicional, que costumava vincular marginalidade à pobreza, à falta de trabalho, ao acesso escolar ou à falta de ensino profissionalizante, foi deixado de lado.
O diagnóstico da pobreza e dos violadores da lei, que se instalam nas periferias, tornou-se mais simples visando produzir outros efeitos. Os larápios, os arrombadores e os pequenos traficantes converteram-se simplesmente em instabilizadores da ordem econômica, política e cultural em curso. São identificados como inimigos do povo e membros de uma subespécie que deve ser excluída, segregada e eliminada. Quando a população pobre, que conta com a ajuda do Bolsa-família, da Bolsa-escola, do Vale-gás, do Leite das crianças, etc., deixa as favelas e a periferia em direção ao centro, torna-se objeto de vigilância policial e eletrônica implacável.
A pobreza tornou-se sinônimo de perigo social iminente e, por isso, a sociedade de controle em meio aberto não pára de crescer. As câmeras eletrônicas prometem vigilância total no Calçadão, nos cruzamentos de ruas e avenidas, nos bancos, nos supermercados, nos escritórios, nas drogarias, nos shopping centers e em outros lugares. Em nome da segurança seqüestram-se o direito à liberdade, à privacidade, à intimidade, etc.
Os locais de moradia dos pobres, tidos outrora como virtuosos, obedientes e esperançosos de inclusão no mercado de trabalho, são vistos hoje como lugares proibidos, circuitos selvagens e espaços onde proliferam vícios, violências, desintegração social e crimes em abundância. De modo contraditório, esses mesmos pobres, sem emprego e sem destino, convertem-se em fonte de rentabilidade política, de oportunidade para a construção de prisões e de expansão do emprego público para cuidar dos encarcerados. Como se vê, a indústria de controle do crime e a praga do assistencialismo oficial não tardaram em converter parte da massa de indivíduos que vivem abaixo da linha de pobreza em objeto precioso para auferir lucros privados e rentabilidade política. A pobreza pós-moderna, herdeira do desemprego estrutural, improdutiva, inútil, disfuncional, sintetizadora do medo e do ódio público viu-se, de repente, como fonte segura para a expansão da construção de presídios e de emprego no setor de segurança pública, de aumento do lucro das seguradoras e de recrudescimento das políticas assistencialistas de Estado.
CEZAR BUENO é doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP e professor de Sociologia da Unifil e da PUC-Londrina
A coisificação do homem
André Eduardo Pullin Lazzarini
A coisificação do homem é um sinal do trágico destino da humanidade: a banalização da vida, a perda de valores éticos e morais, invertendo a prioridade da coisa sobre a vida. O crescente hedonismo coisifica o homem, pois este passa a ser um instrumento com uma finalidade única e suprema do prazer. Vende-se a vida fácil, o prazer instantâneo, o valor do ter sobre o ser das pessoas. O jovem é o alvo preferencial desta inversão de valores. Mas os adultos também são vítimas.
O relativismo moral e religioso é o responsável por essa inversão de valores, que coloca em risco a própria existência do homem. Tudo é verdadeiro e tudo é permitido desde que seja agradável e prazeroso; melhor ainda se for rápido, instantâneo! As pessoas precisam ser críticas a tudo que é colocado à sua disposição, principalmente quando algo é oferecido de forma muito fácil e graciosa: há que se investigar o que está por trás dessa generosidade suspeita.
Por exemplo: a pressão para a legalização do aborto. Ora, alega-se que se há abortos clandestinos, precisamos legalizá-los. Baseando-se nesse raciocínio: se ninguém respeita o limite de velocidade na cidade e estradas, por que não liberá-los? Não! Limita-se a velocidade porque o seu excesso é um risco para vidas humanas. E o aborto? Não é um atentado à vida humana? Ainda: se há assaltos a bancos, por que não estudamos uma forma de legalizá-los? Porque o dinheiro é poderoso e é necessário guardá-lo a sete chaves. E por que não preservar a sete chaves a vida humana, ainda que tenha apenas dias ou semanas, dentro de um útero materno?
Mais uma vez, a solução mágica é apresentada. Como no caso das cotas, aonde é muito mais fácil e eleitoreiro criá-las do que o demorado investimento na melhora da qualidade da educação pública. Se há abortos clandestinos, é muito mais fácil legalizá-lo do que investir em educação e saúde para impedir gestações inconseqüentes. Há a necessidade de parar com os abortos - clandestinos ou não! O caminho correto é a educação. Também urge fiscalizar e condenar aqueles que promovem essa prática abominável clandestinamente.
O ser humano é dotado de inteligência. Deve empregá-la a serviço da vida e da permanência da humanidade sobre a terra. Campanhas de proteção de árvores e matas são lançadas a todo o momento: sim, necessitamos preservar a natureza para sobrevivermos. Mas de que adiantará preservá-las, se o homem aniquila-se a si próprio?
ANDRÉ EDUARDO PULLIN LAZZARINI é médico veterinário em Londrina
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