ESPAÇO ABERTO
O fingimento na política
Gaudêncio Torquato
De onde vem esse ar de esculhambação geral que se observa na paisagem brasileira, especialmente na arena política? Parte se origina nos traços culturais do caráter nacional, que junta parcela de dispersão à afoiteza e fortes doses de intuição a um fingimento que, na política, é muito comum quando um político cumprimenta uma pessoa dando tapinhas nas costas, enquanto pisca matreiramente para outra. A postura é a de alguém que quer abraçar o mundo, tirar partido de tudo e de todos, ou, ainda, acender uma vela a Deus e a outra ao diabo. A esperteza não se restringe aos atores políticos. Faz parte do cotidiano dos brasileiros, principalmente daqueles de baixo poder aquisitivo que habitam os fundões do País. Trata-se de remanescentes da cultura do apadrinhamento, ainda bem acentuada nas regiões norte, nordeste e centro-oeste, além de redutos periféricos das metrópoles acostumados às práticas clientelistas. Quem tem padrinho, não morre pagão, é a voz corrente nas regiões dependentes da velha política. Para os amigos, pão, para os inimigos, pau, tende a pensar certa linhagem de caciques regionais.
Os comportamentos políticos, tanto de representantes quanto de representados, fazem parte da cultura de infração de normas, cuja origem está nos primeiros passos da colonização brasileira. A inversão de valores, a lei do patrão como norma absoluta, a dispersão das comunidades ao longo do litoral e a conquista de vastos espaços do interior acentuaram, ao longo de nossa história, a predominância da cultura personalista. A ordem pessoal tornou-se mais importante que a ordem coletiva. É fato que ainda hoje esse traço se mantém presente na ordem institucional. Hoje, o reflexo desses traços aparece na fulanização política. Os partidos têm menos importância que seus líderes. Tornaram-se emasculados, fundiram suas identidades, com a perda de substância doutrinária. A social democracia passou a ser um espaçoso buraco no centro da galáxia política para abrigar não apenas tradicionais participantes, mas liberais de designações e conotações variadas, ex-socialistas revolucionários e comunistas históricos que, ante a derrocada da utopia marxista, tiveram de se recolher em espaços mais aconchegantes e aceitáveis pela sociedade. Até o PT desce da cavalgadura ética em que esteve montado para assumir a condição de partido assemelhado a outras entidades partidárias. Nenhum partido pode assumir perfil de vestal.
Qual a postura do cidadão ante esse quadro? É a de distanciamento e observação. Ele não tem motivos para querer melhorar. Diariamente, a mídia coloca para sua análise o cardápio com os pratos repetidos da violência indiscriminada e o poder paralelo dos grupos organizados e armados; as negociações políticas envolvendo as alianças interpartidárias, temperadas com os caldos fisiológicos regionais; a corrupção em todas as esferas públicas; a inação do Poder Judiciário, ante o clamor da população por uma justiça cada vez mais lenta; a fulanização política ocupando espaços partidários, em frontal infração à legislação, aumentando a sensação do estado de anomia em que vive o País.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da USP e consultor político em São Paulo
Uma boa lição
Antonio Delfim Netto
A goleada espanhola (6 x 1) em cima das empresas brasileiras nos leilões de concessão rodoviária oferece algumas lições que precisam ser compreendidas pelos investidores privados e pelos governos. O clima lá fora para investimentos no Brasil está mudando para melhor e muito depressa desde a realização dos leilões. Para os brasileiros significa que terão que enfrentar uma competição ainda maior e com desafiantes mais agressivos nos próximos lances. O resultado trará novos benefícios para os usuários e para a economia brasileira como um todo, ajudando a reduzir o custo Brasil. A agressividade dos empresários espanhóis, de outro lado, deixa nossas concessionárias e o governo anterior numa tremenda saia justa para explicar os diferenciais gigantescos nos custos dos pedágios. O governo Lula demorou mas conseguiu encontrar os mecanismos para fazer o leilão mais aberto, transparente e cuidadoso que correspondeu aos interesses dos contribuintes usuários das estradas federais.
Desde 1996 até o final do segundo mandato de FHC foi uma total enrolação porque não se decidia se continuava o sistema de outorga, se recorria às PPS ou se ia realizar o leilão pela menor tarifa como se resolveu agora. Os cuidados observados pelo Executivo na montagem do sistema de leilões, levaram-no a buscar a cooperação decisiva do Tribunal de Contas da União, órgão auxiliar do Legislativo que detém a maior experiência na matéria. Foi uma iniciativa inteligente, que eliminará muitos problemas na execução dos contratos. Uma lição que nosso governo pode extrair da Espanha é a determinação com que o seu governo apóia as investidas de suas empresas no exterior. Conquistou essa condição de estimular as atividades multinacionais dessas empresas graças ao suporte da Comunidade Européia, de um lado, mas principalmente porque mantém o sistema econômico funcionando com muita eficiência na promoção do desenvolvimento. Nos últimos 20 anos a carga tributária permaneceu constante (que diferença!), a Dívida Líquida caiu de 51% para 21% com relação ao PIB e, como conseqüência, a taxa real de juros reduziu-se de 6% para 2% este ano (chegou a cair para 0.9% no ano passado). Ela mantém uma política fiscal rigorosamente sólida, enquanto a política monetária é controlada de fora pelo Banco Central Europeu.
O que é importante para explicar o desenvolvimento robusto espanhol é que seu governo não teve receio de implementar uma política industrial exportadora inteligente e extremamente agressiva, financiando e ajudando as suas multinacionais a ocuparem cada vez mais espaços no mundo.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e deputado federal por São Paulo
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