ESPAÇO ABERTO
Agroinflação
Alexandre Lopes Kireeff
Estamos vivenciando um momento de alta em diversos preços agropecuários. Tal fenômeno, observado mais intensamente a partir de 2006 e que não é exclusivo ao Brasil, possui até nome próprio: agroinflação. Este processo, analisado isoladamente, pode resultar em conclusões precipitadas. Primeiro: que a regra do declínio histórico dos preços reais dos produtos agropecuários estaria sendo quebrada. Segundo: que isso se deva exclusivamente pelo aumento de demanda por alimentos e biocombustíveis.
Na verdade, em uma análise feita pelo diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais, André Nassar, fica demonstrado que os preços reais dos alimentos calculados pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento cresceram apenas 19% de 1990 até 2006. Durante esse período, o aumento dos demais preços, não apenas os da agropecuária, subiram espetaculares 42%!
Antagonicamente, analisando-se apenas o período de 2002 a 2006, os alimentos subiram 46% e a inflação apenas 13%, fenômeno parecido com o ocorrido no final dos anos 80.
Desta forma, conclui-se que afirmar estar sendo quebrada a clássica regra do declínio dos preços reais dos alimentos seria, no mínimo, precipitado. Ocorre que os preços agropecuários estão sujeitos a oscilações abruptas, muito mais do que as acelerações inflacionárias e, quando se analisa tais oscilações em períodos curtos de tempo, há comprometimento na qualidade das conclusões.
Quanto às causas das elevações dos preços atuais, ainda segundo a análise feita pelo referido instituto, observamos um importante aumento nos preços dos fertilizantes desde 2002, tanto no exterior quanto no Brasil, especialmente nos fertilizantes fosfatados e nitrogenados, estes, derivados do petróleo. Segundo a FGV, o índice de preços de fertilizantes elevou-se de 2002 para cá em 90%, o dobro do crescimento apresentado no índice de preços de alimentos. Evidencia-se, desta maneira, que os preços estão sendo pressionados intensamente pelo aumento dos custos de seus insumos básicos e não apenas por um aumento na demanda mundial por alimentos ou biocombustíveis.
Considerando o impacto dos custos dos insumos na elevação dos preços finais, fica evidente que uma ação governamental se faz necessária, criando mecanismos capazes de proteger a produção através da redução dos seus custos. Aos produtores, amparados por investimentos em tecnologia, cabe continuar buscando os ganhos de produtividade essenciais para enfrentar o declínio histórico dos preços agropecuários. Assim, estaremos criando as condições necessárias para produzirmos cada vez mais alimentos, a preços acessíveis e justos, tanto a produtores quanto a consumidores.
ALEXANDRE LOPES KIREEFF é presidente da Sociedade Rural do Paraná
Fé, política e partidarismo
Marco Antonio Cito
Ninguém é neutro na política. Até quem diz que não faz política já está fazendo na defesa do apolitismo. Portanto, a Igreja faz política e apóia que os candidatos católicos possam sim militar na política e, alçando cargos públicos, busquem fazer o bem para a população através de leis e obras pautadas na ética e na moral cristã.
O que a Igreja não faz é partidarismo. O trabalho político da Igreja concentra-se na educação da população, fornecendo elementos para que o voto deixe de ser moeda do clientelismo e se torne expressão de tomada de consciência social. Porém, além das tradicionais recomendações de analisar o programa do candidato ou de não vender o voto, quero à luz das eleições 2008 fazer algumas recomendações aos católicos de Londrina.
É necessário que se analise a biografia do candidato. Há quanto tempo ele participa de fato dos movimentos e pastorais? Sua candidatura expressa um amadurecimento do serviço cristão ou nasceu antes que se possa assegurar tal afirmação? A freqüência na participação em sua paróquia ou à frente de um grupo é profícua ou figurativa? Em um país predominantemente católico é difícil dizer quem não o é em teoria, é nem se deve fazê-lo. Mas, para os que querem colocar-se à disposição sob a égide de ser um candidato católico, isso tudo deve ser observado.
Outro ponto que se deve levar em consideração é que neste tempo de definições de siglas, pré-canditados e amarrações, os fiéis e/ou lideranças religiosas tornam-se, não raro, metas de cooptação e adesão para este ou aquele candidato. Portanto, deve-se ficar alerta a candidatos cristãos que praticam o nepotismo, que animam missas e/ou festividades de forma tendenciosa bem como aqueles que dizem ser eles os realizadores de obras de caridade, doam cestas básicas e medicamentos quando o próprio movimento ou pastoral já realizava e realiza aquele trabalho antes da presença do indivíduo em questão.
A presença crescente nas eleições de candidatos identificados com a Igreja e seus mais variados carismas deveriam ser benéficos, porém, se certos cuidados não forem tomados, corremos o risco de cair na vala comum, onde práticas como favorecimentos, tráfico de influência, uso indevido de benfeitorias realizadas em grupo e até mesmo, desgraçadamente, compra de votos poderão fazer parte de campanhas ligadas a candidatos que se dizem da Igreja.
Sendo assim, a Igreja continua sempre alertando os católicos a se manterem ativos como agentes sociais, políticos e neste caso, eleitores conscientes. Alertando, desde já como separar o joio do trigo.
MARCO ANTONIO CITO é ministro da Eucaristia e membro da Pastoral, Fé e Política da Arquidiocese de Londrina
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