ESPAÇO ABERTO
Viva as crianças!
Dom Orlando Brandes
Doze de outubro é Dia da Criança. Nosso primeiro ''viva'' é para a criança no seio materno que existe desde a fecundação. O útero é o primeiro colo, primeiro abraço, primeiro beijo, primeira escola e primeira bênção. Que possam nascer os que foram fecundados. Quem embala uma criança está embalando o futuro da humanidade.
O segundo ''viva'' é para a criança recém-nascida. Que ela possa contar com a presença da mãe e do pai, o acolhimento da família. A amamentação, o colo, enfim, todas as necessidades básicas, são direitos dela.
O terceiro ''viva'' é para as crianças que são protegidas pela Pastoral da Criança, Pastoral do Menor, Infância Missionária, Coroinhas, Creches, Primeira Eucaristia e escolas. Felizes são estas crianças porque há outras que sofrem trabalho forçado, ruptura da família, tráfico de órgãos, abuso sexual, prostituição coagida, contaminação do vírus HIV, as drogas e o recrutamento obrigatório onde aprendem a usar fuzis. São os meninos soldados.
''Viva'' os direitos da criança! Direito de nascer numa família, de ter ambiente familiar, de receber proteção, afeto, educação e religião. Há países que viraram ''sociedade sem criança''. Criam gatos e cachorros, mas não permitem o nascimento de uma criança. ''Viva'' a criança que tem pais participativos e presentes em sua vida. Pais permissivos e autoritários estragam seus filhos. A criança quer que seus pais se queiram bem, coloquem em prática o que dizem, não briguem nem discutam diante dela.
''Viva'' a criança adotada, a que foi tirada da rua, a que é portadora de deficiência porque recebem atenção, cuidados, educação, amor. ''Viva'' a criança que recebe elogios, valores, limites e religião. Crescerá com segurança e chegará à maturidade. Por outro lado, uma criança onipotente, se tornará prepotente e depois delinquente. Nossas crianças não podem ser viciadas no videogame, na TV, na internet, no shopping. São os males da ''família filiarcal'' e dos ''erros de amor'' dos pais.
''Viva'' a criança que está na escola. Daí a necessidade da colaboração dos pais com a escola. Os professores são pais e mães de seus alunos. Melhoremos as escolas, diminuirão as prisões. A escola é a segunda família da criança. ''Viva'' a criança religiosa. Está comprovado que a criança nasce com potencial religioso. Ela terá respostas aos questionamentos da vida se o lado religioso for desenvolvido. Se uma criança mostrar interesse religioso e os pais não se interessarem, e pior, extinguirem esta chama, irão se arrepender e chorar mais tarde.
''Viva'' a criança que está dentro de cada um de nós. Não esqueçamos do lazer, do bom humor, da brincadeira, da inocência, enfim do lado lúdico, desinteressado, irradiante, luminoso que está em nós.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
O roubo do direito de ser criança
José Antonio Miguel
Preparar bem as crianças de agora implica, de maneira lógica, em ter uma sociedade melhor no futuro. É pensar o porquê atualmente, diante de grandes índices de violência, tantos menores de idade estão nessas estatísticas. É pensar que essa criança, esperança do futuro, vê-se numa encruzilhada vital tão cedo: trabalha, pratica crimes ou morre.
Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho, o Brasil tinha 4,6 milhões de trabalhadores com idade entre 10 e 17 anos, e 3 milhões com idade inferior a 14. Segundo esses dados, 56,63% nada recebem por seu trabalho. Eis o roubo ao direito de ser criança. Retiram-lhe, de maneira violenta, esse direito tão essencial comprometendo os fatores biológicos, psicológicos, intelectuais e morais, numa fase de extrema importância da vida.
Ao invés de carrinhos, bonecas, brinquedos, uma enxada. Pais, que talvez quisessem educar, precisam ensinar o trabalho. Note bem a diferença entre educar e ensinar. Falta dinheiro para comprar comida, roupa, bonecas, carrinhos. Alguns, talvez munidos de sua educação mais privilegiada, hão de pensar que não configura motivo para a delinquência o fato de trabalhar desde cedo, afinal o trabalho é dignificante.
O trabalho é digno quando é exercido de forma digna. Não existe dignidade sem educação de qualidade e, não há dignidade em crianças de 10 anos trabalhando em meios insalubres, perigosos, em jornadas diárias superiores a 12 horas. Não há filhos de médicos, advogados, empresários trabalhando assim. Portanto, se fosse digno, todos desde a infância assim trabalhariam.
Crianças devem ser crianças. Esse tipo de trabalho não pode nem ser alternativa aos menores de idade porque marginaliza, tira deles um direito essencial de maneira tão violenta quanto àqueles que com uma arma roubam dez reais. Por isso, a importância da máxima de Rui Barbosa: 'Aos iguais, tratamento igual, aos desiguais, tratamento desigual''.
JOSÉ ANTONIO MIGUEL é estudante de Direito na Universidade Estadual de Londrina





