ESPAÇO ABERTO
Amar os idosos
Dom Orlando Brandes
O mundo está envelhecendo e os anciãos são o porvir, os velhos são o futuro. Não só as pessoas devem preparar-se para o envelhecimento, mas igualmente as culturas, os governos, a sociedade. Todos nós queremos viver muito tempo, mas ninguém quer envelhecer. Sabemos que um móvel velho, um vinho velho é que tem valor. Minhas rugas são título de nobreza, disse uma artista famosa. A grandeza de uma civilização se mede pela atitude perante os anciãos. O pior envelhecimento começa com o medo de envelhecer. A solução está em preparar-se.
Como viver bem a terceira idade? A mais bela idade é a que temos e cada idade tem sua beleza e sua missão. A idade não está só nas artérias, nas rugas, mas no fervor. Não sei qual é a minha idade: muda de minuto em minuto, disse um sábio. Importa viver o momento presente, viver de instante em instante, pois tudo começa a cada momento e hoje é o primeiro dia do restante de nossa vida. O problema não está em acrescentar anos à vida, mas acrescentar vida aos anos. O final da vida ainda é vida. Dar a cada instante, a cada manhã o consentimento à vida, comungar com a vida. Neste sentido poucos sabem ser velhos.
Cabe-nos ser reconhecidos e justos para com os idosos. Eles são mestres, são guardiões da fé, da tradição, dos valores. Eles ajudaram o mundo ser melhor. Que a família nunca abandone seus idosos. É preciso honrar pai e mãe.
Nossos anciãos precisam de um aperto de mão, de um olhar, de um sorriso, de um abraço. A bengala mais segura é o braço de um filho, de um amigo, de um vizinho. Aos idosos, demos o melhor lugar de nossa casa, a melhor aposentadoria. A eles e elas demos o assento no ônibus, nas igrejas, mas principalmente seja-lhes concedido respeito, honra e lugar na sociedade. A frase mais terrível na boca de um idoso é esta: Eles me esqueceram.
Por outro lado, os idosos têm dons, experiências e sabedoria para enriquecerem a sociedade de hoje. Velhice não é peso, é dom; não é decadência, é oportunidade; não é doença, é uma etapa normal da vida; não é desgraça, é graça; não é diminuir, é crescer. Idoso é alguém que ajuda os outros a viver. O que enche nossas mãos não é o que retemos, mas o que temos dado. Então, velhice é tempo de ação de graças, tempo de novos aprendizados, tempo de mais proximidade de Deus. Possam os idosos viver sentimentos de gratidão para com o passado, alegria em relação ao presente e muita esperança quanto ao futuro. Benditos sejam todos os que cuidam dos idosos. O melhor jeito de envelhecer é viver fazendo o bem, plantando sementes boas no jardim do coração.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
O último romeiro
André Galvão de França
Fui a Ventania, município paranaense que fica na entrada dos Campos Gerais, via Estrada do Cerne. Passei por lugarejos como Barro Preto, Alecrim e Matão de Dentro para chegar à Cavalgada de São Gonçalo na Fazenda Curucaca. São Gonçalo de Amarante é o santo dos violeiros, e conforme manifestações que ocorrem em várias regiões do Brasil, é homenageado com romarias, danças e cantorias, ritual organizado anualmente por um pagador de promessas. Lá conheci um pedaço do Paraná que está acabando, o sertão dos Campos Gerais.
Mestiços de índios, paulistas, gaúchos, mineiros e curitibanos, os caboclos vivem a cultura do tropeirismo, modo de vida em extinção devido ao transporte de gado e mercadorias ser feito por caminhões e, principalmente, agora pela monocultura do eucalipto, que acaba com os pastos, diversidade de fauna e flora e esmaga uma cultura cabocla formada há mais de dois séculos.
Entre causos de onça, cachorros e tropeadas, conheci Nhô Silvano, figura mítica octogenária que lembra o monge da Guerra do Contestado: José Maria. Barba e cabelo comprido, boina, abraçado na velha viola caipira, leva a imagem de São Gonçalo embrulhada no bolso. Voz mansa que relata a história oral passada por gerações com profecias do monge: Vai chegar um dia em que ser honesto será motivo de vergonha.
Na pose para a foto, Nhô Silvano levanta a imagem do santo, gesto acompanhado por peões trajados que tiram a imagem de Nossa Senhora Aparecida do bolso. Lembrei de Guimarães Rosa, dos Sertões de Euclides da Cunha, do culto ao Sebastianismo e da prosa de Nhô Jesuíno que conta, entre um cigarro de palha e um trago de cachaça, as tropeadas de sua mocidade na Fazenda Fortaleza.
Os jovens de Ventania já não sabem mais os versos e cantigas do santo, estão vulneráveis à beira da estrada que corta a cidade. Nhô Silvano cambaleia com a recente perda da mulher, mas calmamente diz: Não há espaço para tristeza na vida. Mas há toda uma cultura abandonada pela ausência de políticas estaduais em defesa de um imenso patrimônio imaterial.
A festa vai terminando, pois de madrugada os cavaleiros seguem em marcha carregando estandartes e bandeiras rumo a Ibaiti, para mais uma Dança de São Gonçalo, ato de resistência cultural de um Brasil que é esmagado pelos insumos da globalização. Nhô Jesuíno, apesar da idade, diz que vai a cavalo.
No amanhecer, três curucacas voam no horizonte abrindo o caminho para a cavalgada, aquela que pode ser a jornada derradeira de um grande mestre de saberes da cultura do Paraná, Nhô Silvano, o último romeiro.
ANDRÉ GALVÃO DE FRANÇA é advogado em Londrina e coordenador do Fórum Permanente de Cultura do Paraná
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