Sem consideração, sem respeito

Ivan Prado Junior
  A condição de ‘‘Londrina – cidade universitária’’ ganhou força e mais espaço na mídia nos últimos oito anos, período dos mandatos do prefeito Nedson Micheleti (PT). Realmente, assistimos a várias instituições de ensino superior chegar por aqui para abrir novos cursos e ampliar a formação de mão-de-obra especializada - algumas sérias, outras nem tanto. Essa condição tem colaborado, até mesmo, para atrair empresas de fora e gerar mais empregos. Várias dessas universidades e faculdades têm sido recebidas de braços abertos pelo poder público, sendo agraciadas com diversas benesses, como a doação de terrenos.
  Com a Unifil, porém, a história é diferente. Apesar de ter comemorado 35 anos em agosto, a instituição está em Londrina há muito mais tempo, já que nasceu a partir do Colégio Londrinense, fundado em 1945. A contribuição – tanto de um quanto o outro – é inegável. Gerações já passaram pelas salas de aulas do colégio e profissionais de destaque nacional já se formaram pela Unifil. Mesmo assim, a instituição não tem recebido o mesmo tratamento que as outras universidades têm.
  Pelo contrário. No dia 27 de agosto, assistimos a um show de falta de informação, desrespeito e arrogância, quando equipes da Prefeitura de Londrina demoliram dois imóveis na Rua Goiás que eram usados pela Unifil. Em um deles ficava um dos nossos Laboratórios de Arquitetura e, em outro, nossa maquetaria. Alunos, professores e funcionários tiveram que correr para salvar os equipamentos das marretas e da pá-carregadeira que já quebrava os muros. A Prefeitura alega que precisa desocupar os imóveis para concluir a duplicação da Rua Goiás. Mas, o que mais nos impressiona saber é que tal duplicação talvez nem comece este ano ainda. O motivo é que ainda há outros imóveis em negociação e até mesmo em litígio, o que impossibilita a retomada das obras.
  A Unifil nunca quis atrapalhar uma obra de interesse público. Só pedimos para sair quando a negociação com os outros proprietários de imóveis estivesse concluída. Não pedimos terreno, não pedimos isenção de impostos, só o bom-senso - e até isso nos negaram.
  Agora, corremos e improvisamos para não interromper as aulas dos alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo que, pasmados como nós, professores e funcionários, tentam entender o que aconteceu. Afinal, o mínimo que poderíamos receber, como uma instituição genuinamente londrinense, que está na cidade há 62 anos, não nos foi concedido: respeito.
IVAN PRADO JUNIOR é professor e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifil


A Bebel de cada um de nós

Filomena Regina Storti Minetto
  Difícil não se indignar com o que vemos e ouvimos atualmente em nosso país. Uma personagem de novela – a Bebel, de ‘‘Paraíso Tropical’’ –, visita nossos lares diariamente e revela, em rede nacional, um mau-caratismo abaixo de qualquer crítica. Em outro programa da mesma emissora – ‘‘Fantástico’’, da Rede Globo –, também veiculado para todo Brasil em horário nobre, o público, consultado a respeito do destino reservado à personagem, acredita que ela ‘‘deve se dar bem’’, ‘‘merece um final feliz’’.
  O que foi que não entendemos nesse ‘‘episódio’’ da vida nacional, já que novelas não só galvanizam as atenções gerais, como simbolizam o que é e o que não é importante para os brasileiros de maneira geral? Somos então favoráveis a quem trapaceia, engana, ‘‘puxa o tapete’’ do outro para subir mais rápido, características marcantes da personagem? Somos partidários de quem corrompe e se deixa corromper, acredita na impunidade e na expectativa de que o mal prevaleça sobre o bem, o arcabouço conceitual de quem age como Bebel?
  Se somos assim, por que reclamamos da suspeição que vira e mexe paira sobre a classe política deste país, a revelar um extenso e frutífero – ao que tudo indica – campo de desmandos, bravatas e falta de princípios, no qual muitos deles colhem um sem fim de benefícios em proveito próprio, ‘‘esquecendo-se’’ do bem comum?
  Seria essa contradição – a valorização do mau-caratismo de uma personagem e a reprovação indignada de alguns políticos pelo mesmo mau-caratismo – uma revelação das características presentes no próprio brasileiro? Só isso dá o que pensar, mas há ainda a questão da manipulação, quando só uma perspectiva é apresentada, configurando-se como a única possível.
  No programa em que o público foi ouvido, fica a impressão de uma mesma opinião – a de que Bebel está certa em agir como age – repetida em vários tons de tempo: mais velhos, mais novos, meia-idade. Por que não opiniões divergentes? Será que, nesta amostra, que representaria o pensamento de todos nós, não houve espaço para dissonâncias?
  Até do próprio autor, Gilberto Braga, que, consultado depois do resultado da pesquisa, revelou que pensa diferente, que Bebel deveria ter um fim mais de acordo com seu mau-caratismo, o que incluiria uma exemplar punição. Contudo, diante da ‘‘pressão’’ da audiência, mostrava-se propenso a ‘‘reconsiderar’’, a ‘‘conciliar’’. Quem sabe, talvez... Como isso lembra conversa de político, não?
  Portanto, restam-nos – aos que ainda acreditam em princípios – poucas alternativas. Aceitar que a sociedade brasileira é assim – frágil em seu caráter como coletividade – e que assim vai continuar, valorizando o vale-tudo para alcançar seus objetivos de vida. Ou mobilizar o máximo de energia interior para educar nossos filhos, inspirando-os, independentemente do que se passa à nossa volta, em valores como honestidade, verdade, respeito ao próximo, generosidade.
  Tarefa difícil, sem dúvida, parecendo-se a nadar contra a corrente, mas necessária a quem ainda tem capacidade de se indignar e acredita em um país melhor, não no futuro, mas hoje.
FILOMENA REGINA STORTI MINETTO é psicóloga e gestora de Recursos Humanos


- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup