ESPAÇO ABERTO
Vitória da mediocracia
Gaudêncio Torquato
A história das nações é um continuum de grandezas e vilezas, civismo e apatia, vigílias e sonhos, energias e fumaças, primaveras e outonos. Quando a pátria, que simboliza o sincronismo de espíritos e a comunhão de esperanças, adormece dentro do país - neste caso, uma simples expressão geográfica - fenecem os ideais, a crença nas instituições, as utopias, a força de vontade para mudar o rumo das coisas. A democracia deixa de ser o sopro para alimento das grandes virtudes para se transformar em fermento da decadência moral dos governantes. É quando dá lugar ao conceito de mediocracia, cuja definição transparece no pensamento de Platão quando diz que a democracia é o pior dos governos, mas o melhor entre os maus. Em todos os tempos da História se registram ciclos em que os malefícios da democracia suplantaram os benefícios. E isso ocorre nas ocasiões em que os entes políticos declinam de sua identidade, submetendo-se ao império da servidão.
Sob esse prisma, ao dizer que sua absolvição pelo Senado é uma vitória da democracia, o senador Renan Calheiros não está errado. Esquece, apenas, que a vitória se deve ao demérito, e não ao mérito dos praticantes da democracia e ocorre em pleno outono da política. A batalha ganha pelo presidente do Senado é o atestado da derrota do conceito de pátria enquanto aspiração à grandeza. Venceram os medíocres, os bárbaros, os confabuladores da velha política, a lei do mais forte e, claro, o PT, que o presidente Lula considera o partido mais ético do País. Confia-se na hipótese de que a memória do brasileiro é curta e a crônica da criminalidade política, de tão densa, acabará substituindo o affaire anterior pelo mais recente.
Há um fenômeno, porém, que tende a ser importante eixo de mobilização social, a partir de setores organizados. Trata-se de uma opinião pública virtual, em processo de intensa expansão, e que deriva do boom crítico-informativo da internet. A massa discursiva que se veicula, diariamente, na malha eletrônica ganha força e poder de influência, arregimentando setores, relembrando fatos e circunstâncias, nomeando agentes políticos, enquadrando figurantes nas histórias. Há, portanto, ao lado de uma opinião pública global - cujos limites e impacto encontram dificuldades para um mapeamento eficaz, em função do campo de abstração aberto por alguns de seus componentes -, uma esfera de formação de pensamento mais palpável, até porque se expressa, diariamente, por meio de redes sociais e blogs, que funcionam como porta-vozes de uma coletividade menos dispersa e mais homogênea. Trata-se de uma formidável bateria de esquentamento do material jornalístico veiculado na mídia massiva.
Se os políticos se afundam no poço da decadência moral, resta, ainda, um lugar que abriga virtudes: os núcleos de referências de grupos, como clubes, movimentos, sindicatos, associações profissionais, igrejas e credos. O vácuo entre a política tradicional e a sociedade é, portanto, preenchido por cadeias organizadas. Tal fato indica a tendência para se buscar nova modelagem política, comprometida com valores do que podemos chamar de democracia da vizinhança. Há, ainda, um ator que tira proveito das coisas ruins que ocorrem ao seu redor: Luiz Inácio. Quanto pior a política, melhor para o presidente. O homem nasceu, mesmo, com a estrela petista virada para a lua. Enquanto sobra sopapo para deputados nos corredores do senado, estupidez que desmoraliza a classe política, Lula desfila em carruagem pela Dinamarca. E burila a imagem: distante das coisas ruins, milagreiro, bolso aberto para os pobres, recebido com pompa e circunstância por reis e rainhas.
GAUDÊNCIO TORQUATO jornalista, professor da USP e consultor político em São Paulo
Algo de podre no reino da Dinamarca
Nelio Roberto dos Reis
Gaius Caesar Germanicus, terceiro imperador romano, mais conhecido como Calígula reinou de 37 a 41 e foi assassinado aos 29 anos. Nomeou Incitatus, seu cavalo preferido, Senador da República. Cavalo não é burro e nem rouba, o que já é uma grande vantagem sobre os 40 senadores brasileiros que decidiram pela permanência do presidente do Senado Federal, Renan Calheiros. Quarenta é um número cabalístico já usado por Ali Babá. Logo Renan que brigava a tapas com a então ministra Zélia Cardoso pela preferência, pelo amor e afeto edipiano de Color de Mello.
Alucinações cometidas por senadores são freqüentes. No mês passado, o senador norte-americano Ernie Chamberes, do Estado de Nebraska, abriu um processo contra Deus no condado de Douglas. Conhecido por criticar os cristãos, o democrata disse, no processo, que Deus gera medo e que é responsável por milhões de mortes e destruições pelo mundo. Segundo ele, Deus gerou inundações, furacões horríveis e terríveis tornados. Conforme o senador, ele abriu o processo em Douglas porque Deus está em todas as partes. Ainda não se sabe quem será o advogado de Deus.
Voltando ao Brasil, o que poderá acontecer com esses 40 algozes? Possivelmente, se tornarão vítimas e serão reeleitos, pois brasileiro não tem memória. Enquanto os judeus ainda sentem e se entristecem com o holocausto de tantos anos já corridos, nós reelegemos malufs, jaders. Com certeza, nos lembramos mais das máfias dos filmes italianos do que da máfia das ambulâncias.
Dólares em cueca é tema de piada. Fome é coisa da Ásia e aids é doença da África. Pobres asiáticos e africanos. E salve o Senado brasileiro. Em cinco décadas de vida, como bom brasileiro que sou, não me lembro de nada útil feito por esta casa, só das despesas que causa. Por que não se extingue esta instituição? Qual é a sua função definida? O que ela já fez? Acho que a preocupação maior é com o que ela poderá fazer. Por que Roraima precisa de três senadores? Por que Sarney sendo do Maranhão é senador pelo Amapá? Tem algo de podre no reino da Dinamarca. Pobre Horácio!
NELIO ROBERTO DOS REIS é professor na Universidade Estadual de Londrina
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