Gordura trans: a vilã do momento

Jorge Mancini Filho
  Do mais inocente pãozinho até um delicioso hamburguer todos podem estar à mercê de um perigoso vilão das refeições crocantes: a gordura trans. Temida por muitos e condenada por médicos, nutricionistas e cientistas, esta gordura apresenta na sua composição ácidos graxos trans esterificados com o glicerol.
  Os ácidos graxos trans são formados, principalmente no processo de hidrogenação industrial, e é o resultado na mudança da posição dos hidrogênios das duplas ligações dos ácidos graxos insaturados cis. Esta mudança, posicionando os hidrogênios em lados opostos nas duplas ligações dos ácidos graxos trans, é a responsável pela diminuição da fluidez e no aumento no ponto de fusão, em comparação aos ácidos graxos cis correspondentes.
  Mas o que essa gordura tem de tão prejudicial? A partir de diferentes estudos, epidemiológicos ou laboratoriais, é visível que a presença deste tipo de gordura na dieta é a responsável por alterações metabólicas. Avaliações epidemiológicas demonstram que a presença de elevados teores de ácidos graxos trans na dieta está relacionada com o aumento de problemas circulatórios. Nos Estados Unidos, os números preocupam. Estimativas apontam de que os ácidos graxos trans, provenientes de óleos industrialmente hidrogenados, podem ser os responsáveis entre 30 mil e 100 mil mortes por ano, resultantes de problemas coronarianos.
  O que se sabe também é que os ácidos graxos trans no tecido adiposo estão associados com o aumento da freqüência das cardiopatias e com a alteração da razão entre as lipoproteínas LDL (mau): HDL (bom) colesterol, podendo provocar infartos, derrames e outras doenças. O nível de consumo dos ácidos graxos trans está intimamente associado com a presença nos eritrócitos e relacionado com o aumento da razão entre as lipoproteínas LDL: HDL colesterol. Os nomes podem parecer complicados, mas os efeitos são degradantes. Os resultados das pesquisas laboratoriais e epidemiológicas, realizadas com os ácidos graxos trans, levaram as entidades governamentais de diversos países a estabelecer limites no consumo de ácidos graxos trans nas recomendações nutricionais.
  No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda que o consumo diário de ácidos graxos trans deve ser menor do que 1% das calorias ingeridas. Isto significa que uma pessoa que necessita de 2.000 kcal/dia deve consumir menos de 20 kcal representadas por ácidos graxos trans, as quais correspondem a aproximadamente 2,2 gramas. Ainda, através da Resolução RDC nº 360, obrigou a partir de 31 de julho de 2006 o registro da quantificação dos ácidos graxos trans nos rótulos dos alimentos. Estas medidas têm como objetivo alertar a população dos riscos à saúde induzidos pelo consumo elevado de ácidos graxos trans. Enquanto estes assuntos são pautas diárias em congressos, salas de aula e nas páginas de jornais e revistas, o melhor a fazer é procurar os produtos que possuem a menor taxa de gordura trans. Sua saúde agradece.
JORGE MANCINI FILHO é professor do departamento de Alimentos e Nutrição Experimental da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo


O exemplo de dona Zenaide

Claudemir Scalone
  Quem freqüenta a pista de caminhada do Lago Igapó 1 já deve ter se defrontado com uma senhora de chapéu na cabeça e um balde d‘água a tira colo. Ela caminha a passos lentos, porém determinados. Partindo da barragem do lago, atravessa quase toda a extensão dos dois quilômetros da pista. Na metade do trajeto, ela pára à beira do lago. Cuidadosamente, desce o balde amarrado a uma corda e recolhe água. Depois, vai regando várias mudas de árvores que despontam no amplo gramado do Igapó. A cena se repete até completar a rega de todas as 40 árvores plantadas por ela.
  Já tinha observado a cena algumas vezes e fiquei curioso em saber quem era aquela mulher que dedicava tamanha atenção à natureza. Ontem, tomei coragem e a abordei. Perguntei-lhe o nome. ‘‘Zenaide’’, respondeu ela. Indaguei também se gostaria de dar uma entrevista à FOLHA e contar o exemplar trabalho de amor à natureza. Com a timidez típica dos orientais, ela disse que não gosta de dar entrevista e aparecer.
  Apesar da recusa, ela prosseguiu a conversa. Dona Zenaide contou que plantou 40 mudas de árvores - ela não se lembra do nome - e as rega duas vezes por semana. Mesmo com um problema cardíaco, a simpática descendente dos japoneses ainda toma o cuidado para tirar o mato e a grama ao redor de cada planta. Isto é para evitar que trabalhadores da empresa terceirizada que fazem a roçagem do gramado cortem as mudas que já atingem cerca de 40 centímetros. Ela já plantou até flamboyants, mas as sementes não vingaram.
  Segundo ela, outros voluntários da natureza se encarregam de embelezar as margens do lago. Uma figueira que desponta próxima à escola de canoagem é obra de um japonês, disse ela. Dona Zenaide gostaria de plantar ipês, porém ainda não sabe como propagá-los. Ela ficou encantada com os exemplares que viu próximos à Câmara Municipal e sonha em plantá-los no gramado do Igapó.
  Dona Zenaide recusa os flashes das câmeras. Prefere manter o anonimato e o trabalho de formiguinha de tornar mais verde as margens do Lago Igapó. Talvez, ela nunca receba qualquer título de cidadã honorária. Nem mesmo seja cumprimentada pessoalmente por qualquer autoridade. Isso, porém, não lhe fará qualquer diferença. Quem agradece silenciosamente o trabalho de dona Zenaide é a própria natureza.
CLAUDEMIR SCALONE é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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