ESPAÇO ABERTO
Duas casas de madeira
Humberto Yamaki
Vende-se madeira usada. Peroba rosa. Um anúncio de jornal de única linha poderia ter sido o destino final de duas casas de madeira localizadas no centro histórico de Londrina. Implantadas lado a lado, constituem raros exemplares de construção de madeira que, graças ao zelo dos seus proprietários, mantiveram-se em boas condições durante mais de 50 anos. Sobreviveram à sistemática demolição que se intensificou na última década.
Agora, a generosidade das famílias Kitahara e Hirazawa permitirá que as casas sejam transplantadas para o campus da Universidade Estadual de Londrina. Servirão como sede da pós-graduação em Reabilitação e Regeneração do Patrimônio Cultural do curso de Arquitetura e Urbanismo.
As duas casas representam, isoladamente, momentos distintos do desenvolvimento da técnica construtiva em madeira na região. A primeira, um casarão da família Kitahara, possui como característica um telhado em estilo conhecido como kabuto (capacete de samurai), além de detalhada varanda e interior. Construído nos anos 30, pertenceu inicialmente ao sr. Agari, um pioneiro imigrante japonês que empreendeu uma série de loteamentos que ainda hoje levam seu nome. A segunda casa, onde mora a família do proprietário sr. Hirazawa desde 1951, traz fortes traços de construção de mestres carpinteiros japoneses, reconhecíveis no formato do telhado em estilo irimoya e nos inúmeros ornamentos na fachada. Constitui exemplar de tipologia dominante nos anos 50 a 60.
Digno de nota é o eclético e multicultural jardim que rodeia as casas e o pomar de jabuticabeiras que conferem unidade e atmosfera ao conjunto. No momento em que se comemora o Imin 100 - cem anos da imigração japonesa ao Brasil -, a possibilidade de preservação e reabilitação destas duas casas assume significado ainda maior. Apesar de terem deixado marcas fortes na paisagem urbana e rural da região, as construções de madeira dos mestres carpinteiros foram sendo consideradas coisas do passado, temporárias e irrelevantes.
Espera-se que através desta iniciativa, mais proprietários redescubram a importância do acervo do patrimônio cultural que tem à mão e sejam encorajados à sua preservação.
Nos últimos anos, a comunidade nikkei, entre outras, vem demonstrando capacidade de reassimilar com incrível rapidez algumas manifestações culturais tradicionais. A expectativa é de que o mesmo possa acontecer em relação à peculiar cultura milenar nipônica de preservação, reabilitação e revalorização de construções vernaculares em madeira.
HUMBERTO YAMAKI é coordenador da pós-graduação em Reabilitação e Regeneração do Patrimônio Cultural do departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina
Duas perguntas, uma resposta
Carlos Eduardo Bobroff da Rocha
Quanto você custa? Você tem valor? Duas perguntas polêmicas, visto que enfatizam, respectivamente, as facetas monetária e filosófica. Caso você souber as duas respostas, significa que é senhor de si próprio. Ao contrário, provavelmente algo externo seja seu proprietário.
Suponhamos que você seja seu próprio dono e, possivelmente, responda que não tenha preço de custo, embora tenha um valor que não possa ser calculado. Nesta forma de resposta, percebe-se que predominaria o vago: o custo é zero, o valor é incalculável (talvez infinito), e perante estes dois termos absolutos (o zero como o nada, e o infinito como o tudo) seria difícil a resposta ser satisfatória.
Pelo contrário, dúvidas surgiriam, e com elas viriam os questionamentos. E um deles poderia ser referente ao fato de a pessoa, na realidade, não souber de fato a resposta, visto que esta não foi categórica e objetiva. Então isto quer dizer que o indivíduo, acabaria sendo propriedade de algo? Possivelmente.
E quem é de fato seu dono? Outros indivíduos que também não sabem a resposta e, por isso, não são livres? Na verdade, o fator externo é mais complexo, pois ele foi criado pelos homens e, adquiriu vida própria, voltando-se contra eles de forma imperceptível. Basta observar que o começo deste texto foi marcado pelos dois termos: o custo e o valor. E quem os criou foi o homem. Basta observar suas duas características fundamentais: a busca pela sobrevivência, e a tentativa de compreender a si mesmo.
A sobrevivência é uma herança de seu passado, a qual foi sendo aprimorada (acumular propriedades, obter conquistas financeiras, ter poder político) a ponto de os fatos serem vistos a partir de uma óptica que visa às vantagens para si próprio (um aliado valioso para o momento, o preço exorbitante em decorrência de uma chantagem, o parente rico prestes a falecer, o namorado mau caráter e que tem prestígio na empresa).
Quanto à compreensão de si mesmo, talvez esteja ligada à busca das respostas às duas primeiras perguntas, isto é, o indivíduo descobrir, realmente, qual seu papel na vida, dotando-o de encontrar seu valor. Trata-se de uma forma de questionamento da visão de mundo reinante e, com isso, possibilitar libertar-se daquilo que ele próprio criara para sobreviver.
O homem, algum dia, responderá às duas perguntas, de modo sincero, racional, e, principalmente, de maneira inquestionável. E isso se dará a partir de uma resposta, isto é, a ruptura do dualismo que ele criara: o ser (preço de custo) e o ser de fato (valor).
CARLOS EDUARDO BOBROFF DA ROCHA é estudante de Medicina da Universidade Estadual de Londrina
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