Os fios do novelo

Gaudêncio Torquato
  Se Deus escreve certo por linhas tortas, deve se perguntar por que os políticos, longe de sua imagem e semelhança, cultivam tanto o gosto para expressar de maneira obtusa o pensamento, mesmo que seja para dizer coisas simples? Talvez seja porque o político incorpora com absoluta precisão a paixão humana pela glória, qualidade que, na expressão de Hobbes, explica o ciúme permanente entre poderosos, mantendo-os ‘‘em estado e postura de gladiadores, com as armas apontadas e os olhos fixos uns nos outros’’. Respira ele o ar da ambição. As falas do presidente Lula são um exemplo. Do verbo incontido, sobressai o desabafo: quero mais, quero mais.
  E por que, na peça laudatória, Lula praticamente confessa que, em 2014, deseja voltar ao trono? Luiz Inácio, como ele confessa, é exímio leitor da alma brasileira. Nas Caravanas da Cidadania, tirou a carta de pilotagem psicológica, que lhe permite selecionar o discurso para platéias distintas, abusar da emoção, deslizar em cascatas, repetir versões que, depois, tomam o lugar da verdade. O calejado Lula aprendeu que a consolidação de um projeto de poder carece de ampla teia de acordos. Eis a razão pela qual é crível a intenção de passar o bastão para o candidato eleito sob sua guarida. Seria ingenuidade postular o terceiro mandato na esteira de um projeto de mudança constitucional. O desgaste borraria a imagem que tenta firmar, a do democrata com diferencial de qualidade comparado ao bombástico Hugo Chávez.
  Lula teme a desmontagem da aliança que, a duras custas, conseguiu montar, caso o PT pretenda emplacar o candidato. O PT não resistirá ao desejo de Lula de compor a chapa com o perfil de um aliado ou, até, de uma ave de bico grande, como Aécio Neves, governador de Minas, estado que espera a vez de eleger o presidente. É difícil, não impossível. Neves, amigo de Lula, garante que ele e Serra estarão do mesmo lado em 2010. É pura matreirice, herdada do avô. Lembremos a historinha. A um eleitor aflito que o procurou para lhe contar um segredo, Tancredo, retrucou: ‘‘Não conte, meu filho; se você, que é dono do segredo, não é capaz de guardá-lo, imagine eu’’. Se Aécio tem um segredo, nem a família Neves descobrirá.
  O mineiro é mestre na arte de fazer amigos e puxar influências. Mais cosmopolita que José Serra, circula fora de Minas, não exibe o azedume de Ciro Gomes e se enquadra bem na moldura de modernidade. Pode entrar no menu de Lula, desde já o maior cabo eleitoral do pleito, cujos primeiros fios começou a puxar do novelo na extensa fala ao estado. Uma coisa fica clara: Luiz Inácio tem fome de poder. A promessa de formar a maior carteira de obras no Brasil, assentada na montanha de R$ 504 bilhões até 2010, ultrapassa o simples desejo de dar adeus ao Planalto para ‘‘fazer um coelhinho assado a los fubangos’’ no sítio de São Bernardo. Lula diz não ter vocação para ser um ‘‘ditardozinho’’. Não esconde, porém, a vontade de ser um ‘‘presidentão’’. Getúlio Vargas, em quem se inspira, passou 15 anos no poder.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político em São Paulo


Drogas e mentalidades proibicionistas (2)

Cezar Bueno
  Numa sociedade em que se preconiza a existência do indivíduo livre e senhor de seu destino como proibi-lo de fazer o livre uso das drogas? A Legislação atual sobre as drogas parte do pressuposto que os prejuízos físicos, sociais e morais superam as vantagens do uso de drogas. A natureza das drogas, afirmam os arquitetos proibicionistas, é motivo suficiente para suspendê-la da regra de mercado. Pressupostos morais são elaborados para enfatizar que ninguém no uso de suas faculdades mentais deseja, de maneira espontânea, consumir drogas para o seu prazer. Acredita-se que as drogas, primeiro, destróem a livre vontade, e, na seqüência, a própria existência física e psíquica dos seus usuários. Por tais motivos, as sociedades atuais afirmam que é preciso retirar, no caso das drogas, o direito da pessoa de fazer uma livre opção de escolha.
  Convicções morais extraídas do senso comum afirmam que o caráter destruidor dos tóxicos decorre do efeito da dependência que eles produzem. Políticas governamentais, discursos acadêmicos e midiáticos reproduzem uma espécie de certeza universal, segundo a qual, o consumo de maconha, de cocaína, de heroína, etc, leva à perda do caráter, à superficialidade das convicções, a deformações patológicas e à morte prematura. Essa imagem diabolizadora formulada, em torno das drogas, gera a necessidade imperiosa de mantê-la distante das pessoas de bem. Os argumentos proibicionistas supõem que as pessoas sensatas estão dispostas a abrirem mão de seus direitos individuais em razão dos efeitos destruidores causados pelas drogas.
  No mundo capitalista, globalizado e midiático, onde reina a cultura do medo, as drogas são concebidas como agentes ativos e demônios do mal. Mesmo sabendo da existência dos graves efeitos colaterais, decorrentes de uma legislação penal ultra-repressiva para combater o tráfico de drogas (que gera a expansão do mercado paralelo, o aumento da violência e da corrupção estatal), costuma-se alegar que o afrouxamento da proibição legal do comércio e consumo de drogas produziria efeitos ainda mais desastrosos à população.
  Na prática, o aumento da repressão internacional e interna ao tráfico e ao consumo de drogas tem sido insuficiente para frear o aumento pela procura dessas substâncias nas sociedades atuais. As teses sociológicas tradicionais proibicionistas continuam afirmando que o fracasso ou a fuga da realidade levam às drogas. De acordo com esse raciocínio, as pessoas que usam drogas não fazem o que querem e nem querem aquilo que fazem. Supõe-se que os consumidores sejam vítimas de suas próprias deficiências ou do poder dos traficantes que as manipulam.
  A compreensão dos motivos que levam as pessoas a consumirem drogas nas sociedades atuais exige ampliar a crença tradicional dos pressupostos morais, políticos e científicos proibicionistas. Sabe-se que, para além da dependência e da fuga da realidade, há outros motivos que levam pessoas normais a optaram pelo consumo de drogas.
CEZAR BUENO é doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP e professor de Sociologia da Unifil da PUC-PR em Londrina


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