ESPAÇO ABERTO
Amar a Bíblia
Dom Orlando Brandes
Nossa geração atual sabe abrir o computador, o celular, o vídeo, mas não sabe abrir a Bíblia. O povo católico tem pouco acesso ao livro da Bíblia. Temos catecismos e outros livros que são muito necessários, mas chegou a ''hora da Bíblia'' para os católicos: ''Bíblia na mão, no coração e pés na missão''.
Amor à Bíblia não é biblismo. Fazemos procissões, danças, coreografias bíblicas, mas isso não basta, vira biblismo. Todos os católicos devem ter acesso à Bíblia: saber abrir, saber interpretar, saber viver, saber anunciar a Palavra de Deus.
Diz o Papa Bento XVI: ''Estou convencido que a leitura orante da Bíblia será a primavera da renovação da Igreja''. Nosso Papa afirmou em Aparecida: ''A condição para um novo impulso da evangelização é a meditação e vivência da Palavra de Deus''. Na Catedral de São Paulo, disse ainda: ''Os bispos evangelizem com o Evangelho nas mãos''. Quem nos manda ter a Bíblia na mão, no coração e na missão é o Concílio Vaticano II e agora os nossos últimos Papas.
É comovente ler a passagem (Lc 4,17): ''Abrindo o livro, Jesus escolhe a passagem onde está escrito...'' Vamos imitar Jesus abrindo o livro. Eis a nossa espada, nosso pão, nosso tesouro, nosso martelo, nosso leite, nosso livro: a Bíblia, as Sagradas Escrituras. Vamos fazer uma ''mobilização bíblica'' nacional e latino-americana. A Bíblia é a alma da Igreja, da liturgia e da pastoral. Sem a Palavra, os sacramentos viram sacramentalização, a Igreja não passa de uma empresa e a missão enfraquece e fenece.
A Palavra salvará o catolicismo neste novo milênio, porque ela é criadora, eficaz, ''espírito e vida'' (Jo 6, 63). Os discípulos de Jesus são forjados na escola da Bíblia onde haverão de recuperar o entusiasmo e o ímpeto missionário. Temos assim uma ''nova responsabilidade'' para com a Palavra: bons microfones, bons leitores, círculos bíblicos, escolas bíblicas, leitura orante da Bíblia, enfim, é hora de ''criatividade, fantasia e imaginação bíblica''. Ou mudamos ou perecemos.
A condição para a mudança da Igreja, para um novo impulso missionário é a rocha da Palavra. No passado, foi tirada a Bíblia das mãos do povo e fizemos a ''História Sagrada'', agora vamos devolvê-la ao povo, começando pelas crianças. Sem a Palavra meditada diariamente, somos flechas sem direção, fontes paradas e poluídas, corpo sem alma, coração sem paixão, apenas folhas secas, nuvens sem água, árvores sem raiz e sem frutos.
A V Conferência impulsionou a ''pastoral bíblica'' e o Papa Bento XVI determinou que o Sínodo de 2008 seja sobre a Palavra de Deus. Certamente com mais Bíblia na mente e no coração, nossas missas serão mais envolventes, nossos sacramentos bem vividos, a Igreja mais discípula e o mundo mais humano e fraterno.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
Cautela com a crise
Antonio Delfim Netto
Quem disser que conhece a extensão ou sabe como vai terminar essa crise dos ''subprimes'' do mercado imobiliário americano, está arriscando um chute, ou simplesmente mentindo. É curioso que não há muita novidade quanto às origens e o próprio formato dessa crise, pois além de fartamente anunciada, ela é a repetição de outras ''bolhas'' que sabemos que existiram desde o século 17! A primeira que se tem registro é a famosa febre das tulipas holandesas que se espalhou por várias regiões européias e a penúltima a do Fundo comandado pelos dois prêmios Nobel americanos, cuja quebra ''alavancou'' a crise do mercado financeiro em 1998.
A crise atual do mercado de hipotecas americano é mais uma vez fruto da falta de transparência e da própria irracionalidade imanente aos mercados. Acredito que o seu desenrolar ainda vai revelar coisas insuspeitadas em relação à atuação dos bancos que financiaram os mecanismos de colocação dos ''subprimes'' pelos fundos que agem sem nenhum controle. Da mesma forma que aquelas empresas americanas, Eron e outras que se valeram de fantasias contábeis, está se revelando que vários bancos utilizaram intermediários financeiros em operações que não estão em seus balanços e que agora vão ter que trazer para dentro. Suspeito que o desvendamento dessas patifarias está prestes a acontecer no sistema financeiro internacional.
O curioso é que há muito tempo todo mundo no mercado sabia que as hipotecas que alicerçavam o processo eram feitas sem maior cuidado, sem verificação da renda das pessoas, sem avaliação da capacidade de pagamento dos titulares e eram realizadas cada vez mais rapidamente. A própria facilidade das hipotecas fazia o preço dos imóveis subir, criando uma sensação de riqueza e atraindo cada vez mais as pessoas. Estima-se que 30% do crédito imobiliário americano está contaminado por hipotecas malfeitas, o que é uma coisa gigantesca. Serviram para alimentar a enorme bolha que agora estourou.
Quem vai pagar o prejuízo são as pessoas desavisadas que compraram os títulos do mercado ''subprime'' ou entraram em fundos sem ter sido corretamente informadas que eles movimentavam esses títulos sujos. Os operadores do mercado que já receberam polpudos bônus na venda dos títulos não vão devolver o que ganharam e muitos bancos que os financiavam também não vão devolver os lucros que pegaram nessas operações.
Não se tem ainda idéia da extensão dos prejuízos e dos efeitos que poderão causar na economia real dos países. Quanto ao Brasil, apesar de estarmos na melhor situação de muitos anos para enfrentar turbulências externas, é preciso se prevenir: de uma forma ou de outra a crise vai afetar o crescimento da economia americana e, em decorrência, o crescimento mundial. A redução do crescimento vai atingir os preços das matérias-primas que exportamos e a própria quantidade de nossas exportações, que poderão continuar crescendo mas não na velocidade atual pois o mundo estará reduzindo a sua demanda. Temos hoje boas reservas para enfrentar turbulências nos mercados financeiros, mas devemos estar preparados para mudanças que diminuam nossas possibilidades de expansão das exportações.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e ex-deputado federal por São Paulo





