ESPAÇO ABERTO
Pessoas especiais e envelhecimento
Glaucia Maria Machado Sorgi
A humanidade está vivendo mais. Como enfrentar esse passar dos anos nas pessoas com deficiência mental? As entidades, as escolas, as ONGs, sempre acolheram estas pessoas especiais proporcionando-lhes tanto atendimento educacional quanto clínico, conferindo-lhes uma vida mais digna.
Entretanto, hoje, justamente em virtude dessa qualidade de vida proporcionada, o envelhecimento alcançou também as pessoas com deficiência mental. Independente da idade cronológica, elas apresentam-se mais envelhecidas do que a família poderia prever, mais dependentes, mais metódicas, mais intransigentes, com alguma intercorrência psiquiátrica e, principalmente, desenvolvendo as patologias típicas da geriatria.
Com os pais já falecidos ou em idade avançada, muitas vezes sem outro familiar para dar respaldo, problemas financeiros, sociais e pessoais fazem com que o envelhecimento da pessoa com deficiência mental fique muito mais complexo e gritante.
Este quadro é mundial. Muitos países já conseguiram ou buscam alternativas, outros mais desenvolvidos já as têm implantadas. E a nossa realidade no Brasil? E as possibilidades e necessidades para Londrina? Questionar é preciso, refletir sobre as necessidades do próximo também, e incomodar-se pode fazer com que juntemos forças e busquemos uma ação onde União, Estado e município sintam a necessidade de ir além dos atendimentos hoje disponíveis.
Temos que sempre priorizar excelência no atendimento, qualidade de serviço, respeito às individualidades pessoais e familiares, cuidando e amparando as pessoas com deficiência mental pré-idosas. É preciso apoiar e acalantar o coração aflito de pais que sentem suas forças se esvaindo com a própria idade e a luta diária. Eles se angustiam a cada nova intercorrência com seu filho ou filha que, apesar de adulto, é ainda inteiramente dependente de cuidados em atividades de vida diária.
Como lidar com essa realidade? Várias seriam as alternativas: casas-lar, abrigos e centros-dia respaldados por profissionais habilitados e universidades dispostas e preparadas a dar o ponta pé inicial.
As famílias de uma pessoa com deficiência mental adulta precisam de um alento que as ajudem a envelhecer menos angustiadas com a eterna dúvida: quem cuidará de meu filho agora que sinto minhas forças diminuírem?
GLÁUCIA MARIA MACHADO SORGI é assistente social em Londrina
Brincar ou não? Eis a questão
Fábio Luís Martins
No dia 17 de agosto a FOLHA trouxe mais uma reportagem sobre o brincar no universo infantil. Elogio a iniciativa e o intuito da valorização do brincar na vida das crianças. Há muito tempo sabemos que o brincar é indispensável para o desenvolvimento global das crianças e da sociedade. Desde que estudos mais aprofundados começaram a ser realizados por pesquisadores de diversas áreas - psicologia, sociologia, antropologia, educação, etc. - esta afirmação se fortaleceu ainda mais. Mas atualmente nos encontramos numa sinuca de bico.
Vivemos em uma sociedade capitalista que preza e valoriza o trabalho produtivo. O brincar, atividade pautada no lúdico com o fim em si mesma e não produtiva, fica renegado ao segundo plano nesta perspectiva mercadológica da vida em que a sociedade está imersa. Não só o brincar, mas todas as nossas experiências de vida pautadas no lúdico são desvalorizadas e menosprezadas perante o trabalho produtivo.
Este pensamento está tão arraigado que quando muitos de nós temos um tempo livre, liberados do tempo de trabalho e ficamos simplesmente sem fazer nada, logo nossa consciência parece que nos acusa, sentimos um mal-estar e vamos procurar algo para fazer. Isto ocorre porque sofremos cada vez mais a influência dos valores que regem a sociedade capitalista, que está pautada na produção e também no consumo de bens e serviços. O descansar, o divertir e a busca do prazer são benquistos quando vão ao encontro dos princípios da produção e do consumo. Assim descanso para recuperar minhas forças de trabalho e atendo aos pedidos comerciais que me dizem vem ser feliz e vou às compras na busca da tal felicidade - Amo muito tudo isso!. As empresas de bens e serviços voltadas ao entretenimento das pessoas são valorizadas também, pois são negócios que movimentam bastante dinheiro.
Nossas crianças são influenciadas de igual ou maior forma que os adultos. Mas há uma solução, a educação. Como dizem por aí, a educação é a solução de todos os problemas (será que da forma como a sociedade está organizada, valorizando a hegemonia de alguns, o consumo desenfreado, a exploração de algumas classes sociais e o individualismo é um problema a ser superado? Para alguns não. E a educação, é realmente a solução de todos os problemas? Para mim não).
Quando analisamos a educação escolar, o brincar e o trabalho, fica evidente que o ensino escolar se preocupa com o trabalho. As ações e os objetivos escolares entendem as crianças como futuras cidadãs e futuros trabalhadores. Parece que a criança não tem uma vida aqui no presente e a escola a prepara para o futuro. Devemos ter em mente que a criança já é um cidadão e a educação deve preparar a criança também para entender e atuar de forma crítica na sociedade. Assim o brincar, tão característico e intrínseco nas crianças, deveria se fazer mais presente em nossas escolas. Será que conseguiremos, e principalmente, queremos que isso ocorra de fato? Espero que sim.
FÁBIO LUÍS MARTINS é especialista em lazer e professor da rede municipal Educação de Londrina
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