ESPAÇO ABERTO
Quem quer o Brasil moderno?
Gaudêncio Torquato
Lula se queixa de uma torcida contra seu governo. Pode até haver críticas injustas a ações governamentais, principalmente de adversários políticos, mas não há como negar que certos projetos exibem traços eleitoreiros. O mandatário-mor passa boa parte do dia usando o verbo e prometendo verbas. A liturgia eleitoreira impregna a alma lulista. E ela é responsável por exageros e generalizações. Possivelmente o perfil de Lula como eterno candidato passe despercebido das platéias que o ouvem, principalmente quando se trata de multidões em praças públicas. A massa deixa escapar o senso crítico. O ex-metalúrgico tem obsessiva necessidade de lembrar que é o maior, o melhor, o único capaz de conduzir o povo à Terra Prometida.
Críticas aos programas sociais do governo apontam o caráter mercadológico e assistencialista que favorece a cultura da acomodação. Quem não se lembra do espalhafatoso Fome Zero, que se perdeu no baú do esquecimento? O Bolsa-Família beneficia 46 milhões de pessoas com uma injeção de R$ 72 mensais para as famílias. Alguns técnicos o consideram um bom programa de transferência de renda. Mas é distributivismo em forma pura, descolado do compromisso com avanços. Joga as pessoas na sacola da mesada mensal. Outra recorrência no dicionário de S. Exa. é a afirmação de que governa mais para os pobres. O arremate, porém, merece reparos. É quando confunde elite com rico perdulário e grupos da velha política. Nesse caso, mistura joio com trigo.
O viés maniqueísta de atribuir à elite o sinônimo de maldade, compartilhado por segmentos que se proclamam de esquerda e presente no aparelho vocal do nosso presidente, acaba de ser desmontado por pesquisa efetuada pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida e que resultou no livro A Cabeça do Brasileiro. A fotografia de um País mais violento, mais corrupto, mais patrimonialista, menos ético, mais preconceituoso, mais estatizante - um Brasil com jeito de mais do mesmo - enche mais os olhos de estratos da base da pirâmide social do que os do meio ou do topo, que detêm maior escolaridade. Para 80% dos que não sabem ler e escrever, um contrato arrumado no governo para um favorecido político não é corrupção, mas um favor, um jeitinho. Já para 72% dos formados em curso superior, trata-se de um ilícito. A violência policial, a incúria, o uso do cargo público em benefício próprio, a ajuda do governo às empresas, o assistencialismo, ou seja, o Brasil ortodoxo encaixa-se melhor na cachola de dois terços da população que formam a base menos escolarizada.
Os beneficiados com o Bolsa-Família - um em cada quatro brasileiros - fecharam contrato de apoio irremovível à figura de Lula. Já as elites aplaudem e vaiam quando há motivos. Veja-se o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (o que seria segurança sem cidadania, algo como matança indiscriminada?) que acaba de ser lançado. O combate à criminalidade é uma demanda prioritária. O que é necessário para dar certo? A combinação de inteligência, estrutura, armamento, quadros policiais preparados. Uma polpuda verba - R$ 6,707 bilhões até o fim de 2012 - foi prometida. Neste ponto, floresce a desconfiança. Como garantir uma coisa que dependerá de outro governante? A descontinuidade administrativa é uma característica dos nossos governos e esse fato é percebido (e denunciado) e não digerido pelo paladar das elites.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político em São Paulo
Um breve balanço de Cuba
Luiz Carlos Ferraz Manini
Tivemos há cerca de um mês mais um novo boato sobre a morte do ditador cubano Fidel Castro. Governando com mão de ferro a ilha de Cuba desde 1959, o guerrilheiro desapareceu da mídia há mais de um ano, desde a notícia de sua enfermidade no intestino. Conquanto a fonte sobre o falecimento do herói-bandido cubano tenha sido qualificada como falsa, ainda assim, vale o balanço sobre o que se seguiu durante os seus quase 50 anos de governo.
Ao tomar o poder no final da década de 1950, Castro e seus asseclas lutavam contra o imperialismo estadunidense, a favor de sua autodeterminação, contra os abusos garantidos por lei na ilha desde a inclusão, em sua Constituição, da Emenda Platt. Faziam guerrilha em nome dos direitos humanos, da liberdade, da equidade social. Entretanto, alguns números nos dão a dimensão da humanidade do seu regime.
Totalizadas pelo economista Armando Lago, o número de vítimas fatais produzidas pelo governo castrista chega a mais de 115 mil pessoas, tanto em nível nacional, quanto internacional, somando-se nisto perseguidos políticos, tentativas de fugas da ilha e soldados mortos.
Aos defensores do regime ditatorial cubano pergunto: ao se fazer os elogios ao líder, vocês se colocam na posição do chefe ou dos subordinados? Vocês conseguem imaginar por que, em meio a tantas maravilhas e benesses do socialismo, Miami se vê inundada de fugitivos da Ilha da Fantasia? Ou que dizer dos atletas cubanos que quiseram, por suas próprias forças, permanecer no Rio de Janeiro quando da realização dos Jogos Pan-Americanos? Será que é tudo culpa do embargo norte-americano, datado da década de 1960?
O socialismo real ruiu com a desintegração da União Soviética e a abertura da China ao capitalismo. Somente Cuba permanece isolada, sobrevivendo dos frutos plantados por um governante cuja ditadura pessoal tornou alguns mais iguais que os outros, nivelando os demais por baixo, nas linhas da pobreza e miséria.
Que povo pode sobreviver sem a liberdade? Se o socialismo castrista, que pariu um filho bastardo chamado Hugo Chávez (presidente da Venezuela), fosse de uma excelência tamanha, por que não se colocar à prova ao invés de instituir uma política de partido único?
Logo estaremos defronte de um fato histórico de importância imensa: o fim da utopia socialista que somente poderá se alojar onde haja um povo suficientemente desprovido de liberdade para querer aceitá-la.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina
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