ESPAÇO ABERTO
Reflexões sobre a Bíblia
Dom Orlando Brandes
A Bíblia não é manual de religião, nem livro de ciência, nem de história. Não é um tratado de teologia. É a escritura da experiência de Deus feita por pessoas e comunidades. É uma mensagem de salvação. É a vida de fé que foi registrada. Ou seja, a fé vivida foi escrita. A palavra escrita vem da experiência vivida. A Bíblia comunica a palavra do próprio Deus, em linguagem humana. Por detrás das palavras que lemos nos livros sagrados, está Deus se comunicando. A Deus escutamos quando lemos suas palavras.
A Bíblia é um livro que nasceu aos poucos. Nasceu da revelação de Deus na história do povo. Deus presente no cotidiano. As pessoas e comunidades fazem a experiência de Deus, relatam estas experiências às gerações que se sucedem. Depois, tudo isto se faz livro. A Bíblia não apresenta fotografias nem filmagem de fatos, mas comunica a intenção que o autor quer transmitir, revela o sentido que está dentro dos fatos. O que interessa é pulsação da presença de Deus nos acontecimentos, isto é, a presença amorosa de Deus na vida, na história. É preciso ver a mensagem que é comunicada no relato dos fatos.
A Bíblia é forma humana da Palavra de Deus, ou seja, a Palavra Divina em linguagem humana. É livro divino-humano, que não cai prontinho do céu, nem é ditado aos ouvidos de alguém. Brota da experiência da fé no cotidiano. Assim, o Livro Sagrado é uma obra elaborada por um grande mutirão. Muita gente participou dele. Nele há o registro da fala de muitas pessoas, sob a guia e a luz do Espírito Santo. A Palavra de Deus é luz que ilumina e aquece. Faz arder o coração, porque é uma fala entre amigos.
Assim, a Bíblia é como uma colcha de retalhos, de diferentes livros, cuja unidade é o plano de Deus. Podemos compará-la a um grande espelho, onde se reflete o rosto do povo de Deus, sua experiência de fé. É comparável a um álbum de família que guarda a memória do passado. O processo da confecção da Bíblia é: o fato acontecido é transmitido de boca em boca, por tradição oral; é vivido e celebrado na comunidade; só depois, fixado por escrito. Deus está na Palavra porque antes está na vida, na história, nos acontecimentos. É o Espírito Santo que ilumina o escritor e o leitor da Palavra para que possam perceber a presença de Deus na história e interpretar a mensagem que Ele revela.
A meditação da Palavra de Deus confere luz e sentido ao nosso cotidiano, enche o coração de esperança, impulsiona a vida espiritual, impele para a missão. A celebração dos sacramentos será mais profunda e eficaz, para quem se alimenta das Escrituras. Daí o nosso lema: Bíblia na mão, no coração e pé no chão, até formarmos um novo catolicismo, ou seja, o catolicismo bíblico. As escrituras fortalecem e remoçam a Igreja.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
O que é o progresso?
Neusa Maria Paschoal Lopes
Tive um professor de Filosofia que freqüentemente interrompia as aulas, olhava-nos demoradamente e com seu carregado sotaque holandês, indagava: Progresso... o que é o progresso?.
Ríamos daquela atitude repentina que se repetiu ao longo dos anos, sem jamais esperar por uma resposta. Fazia isso como a nos provocar, a nos alertar, a nos induzir ao exercício mental. Éramos muito jovens e nos faltavam a maturidade e a vivência necessárias para refletirmos sobre o profundo significado de sua pergunta.
O verbete progresso é definido, entre outras palavras, como avanço, evolução, melhoria, marcha para diante. Fazendo juz a essa definição, é indiscutível o acúmulo de conhecimento e conquistas materiais que reconhecidamente transformaram as sociedades. O conforto e a comodidade que desfrutamos são tão amplamente difundidos que se tornaram banais. A inteligência criativa aliada à exigência dos mercados nos abastecem incessantemente com itens que já nascem obsoletos, tal a rapidez com que são substituídos. É preciso produzir, competir e consumir para garantir movimento às engrenagens que alimentam este vertiginoso processo de acúmulo e produção de bens.
Não se demanda muito esforço, no entanto, para se constatar que esta impressionante conquista material se contrapõe, na maioria das vezes, ao enorme retrocesso nos processos interpessoais e nas condições de vida de todos os seres vivos.
Temos, de fato, avançado: os limites, os sinais, o bom senso. Por obra do homem e em nome do imediatismo, da ambição desmedida, da ganância e da ignorância, o planeta se vê ameaçado. Os subprodutos desta viagem desenfreada, amontoados ou enterrados, envenenados, contaminados, disseminados ou inexoravelmente arrasados, nos afrontam de forma alarmante com uma lenta e ameaçadora vingança. Já pisamos sobre a soleira da porta que se abrirá aos grandes transtornos climáticos e suas danosas conseqüências à vida na Terra.
O processo civilizatório, no entanto, ao qual também chamamos progresso, pressupõe conquistas de fato, que resultem numa real evolução da humanidade e engrandecimento de todo o arcabouço de conhecimento que dela faz parte. Somente quando formos capazes de um desenvolvimento responsável, que considere e respeite toda a diversidade de vida do planeta, poderemos nominar a isso, orgulhosamente, progresso. Então, poderei finalmente responder à indagação de meu saudoso professor Hubert.
NEUSA MARIA PASCHOAL LOPES é psicóloga e professora em Londrina
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