ESPAÇO ABERTO
Quanto vale o conhecimento?
Paulo Varela Sendin
Está em curso a implantação de um grande empreendimento em Londrina: a Londrina Information Technologies (Lint) com perspectivas de geração de cerca de dois mil empregos. Embora esse número, por si só, já impressione, nunca é demais ressaltar o efeito multiplicador que esse fato promoverá na economia local e regional.
Sendo empregos de alta qualidade em termos da capacitação exigida e da remuneração a ser praticada, temos, de pronto, um importante efeito: como não existem profissionais no mercado com o tipo de competência requerida, abre-se espaço para novas iniciativas na área de treinamento. Parte dessa demanda será suprida por uma operação complementar da própria empresa, em parceria com a Associação do Desenvolvimento Tecnológico de Londrina (Adetec). Mas nada impede (e isso já está acontecendo) que outras empresas também ofereçam cursos sobre a tecnologia demandada pela Lint. Assim, temos um resultado colateral positivo do empreendimento, que gera mais emprego e renda, além de ampliar o conhecimento disponível na região em uma área relevante no campo das TI.
Outro aspecto importante é que se trata de uma indústria exportadora. Quando pensamos em exportação, geralmente nos vêm à mente caminhões carregados de mercadorias se dirigindo ao Porto de Paranaguá. Neste caso, porém, temos uma indústria exportadora que só usa infovias e não acarreta filas na BR-277. E, ao exportar, o empreendimento gera um fluxo líquido de recursos para a região, pois a venda do produto exportado promove um retorno na forma de remuneração ao capital dos empreendedores e à mão-de-obra por eles contratada, além do recolhimento de impostos.
Tal modelo exportador é similar ao das origens de Londrina: valendo-se de uma vantagem comparativa abundante (solos de alta fertilidade), os pioneiros do Norte do Paraná produziam algo para o mercado internacional (o café), cuja remuneração resultou na alavancagem de todo o desenvolvimento regional (e o do restante do Estado). Hoje o recurso natural a ser utilizado é um fator produtivo existente na região (o conhecimento), mobilizado pelo capital social construído ao longo dos últimos 15 anos.
Esse fator (o capital social) é algo pouco comentado, mas de reconhecida importância. Ele surge quando há um esforço organizado para a promoção de interações positivas entre as entidades e lideranças regionais, através de iniciativas como as que a Adetec vem desenvolvendo, em conjunto com seus parceiros públicos e privados.
Diferentemente do primeiro processo de desenvolvimento regional ocorrido no Norte do Paraná, em que o empreendedorismo dos pioneiros atuou sobre uma dotação natural de recursos, o atual ciclo de desenvolvimento, baseado no conhecimento, depende da construção e ampliação do capital intelectual e social da região, resultante da ação de pessoas e entidades realmente comprometidas com o futuro e dispostas a trabalhar por uma melhor qualidade de vida para toda a comunidade.
PAULO VARELA SENDIN é engenheiro agrônomo em Londrina e membro da Associação do Desenvolvimento Tecnológico de Londrina (Adetec)
O dilema da alfabetização tecnológica
Sabrina Graciele Moreira e Renan Boldori Santos
O termo alfabetização tecnológica não é facilmente encontrado na literatura acadêmica nacional e estrangeira. O conceito dessa alfabetização do professor não pode ser, como qualquer outro, fechado e acabado, pois envolve além de uma realidade em permanente mutação, as tecnologias que estão também em constante aperfeiçoamento e diversificação.
A alfabetização, assim como qualquer representação da realidade, está constantemente relacionada de maneira entisica com o momento histórico em que é produzida, refletindo as ideologias e deficiências que o Estado impõe sobre suas respectivas comunidades. Exemplificando de uma maneira mais simples, assim como é perfeitamente possível, conhecer um prefeito pela limpeza das ruas de uma cidade, é possível conhecer uma nação pela qualidade da alfabetização e nível de acesso tecnológico que a mesma proporciona a seus filhos.
Para Paulo Freire, ler a palavra é ler o mundo. Através do contato com o mundo escrito o sujeito aprende mais sua cultura e nela se insere com poder maior de atuação. Hoje ler o escrito não basta. Para ler o mundo é também necessário ler as mensagens tecnológicas e sua interferência nas formas de organização de nossa sociedade e cultura.
O uso do termo alfabetização no conceito de tecnologia do professor, deve atuar como uma habilidade relacionada à compreensão e à interpretação da linguagem tecnológica universal. Atualmente a globalização e as propostas político-econômicas e sociais são intermediadas pelos meios de comunicação de massa em geral, utilizando a tecnologia para se concretizar.
Na condição de educadores, tivemos a infelicidade de presenciar um cotidiano em que, ora por falta de oportunidades ou simples comodismo, nem mesmo o próprio educador inseriu-se no processo tecnológico, fato que abre um abismo gigantesco para concretizar o processo ensino-aprendizagem de maneira eficaz. Portanto, considera-se que o professor precisa superar a função de apenas armazenar e transmitir conteúdos e passar a ser um profissional que mediante investigação, tenha o interesse e a humildade de estar aberto aos novos conceitos tecnológicos, para orientar e auxiliar seus alunos a potencializar suas habilidades criativas. Este professor cria situações e experiências que permitem ao aluno descobrir o conhecimento e avançar na constituição de suas estruturas interiores.
SABRINA GRACIELE MOREIRA é pedagoga e educadora em Ibiporã e RENAN BOLDORI SANTOS é geógrafo e educador em Londrina
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