ESPAÇO ABERTO
O debate sobre aborto
Silvana Mariano
A esfera pública de nossa cidade foi assaltada por manifestações de fé. Sábado último, a Câmara Municipal de Londrina realizou uma audiência pública sobre aborto em defesa da vida e contra a descriminalização. Os organizadores, enganosamente, divulgaram que se trataria de um debate. Na abertura do evento a platéia foi informada que aquela era uma audiência pública. Trata-se de uma violação direta e objetiva aos princípios democráticos.
Uma audiência pública, por definição, é um espaço democrático de discussão em que as posições contrárias têm participação garantida. Não estão sendo assim as audiências públicas sobre a revisão da legislação que trata do horário de funcionamento dos bares em Londrina? Não ocorreu desse modo a audiência pública sobre a construção de barragem no Rio Tibagi? Mas para discutir o ato de legislar a respeito do corpo das mulheres a democracia é suplantada pela moralidade e tomada de assalto por representantes que mais estão interessados em renovar mandatos ou galgar postos mais elevados por vias antidemorcáticas.
Os temas que são tabus em nosso país, como o aborto, devem ser debatidos politicamente e não moralmente. O que me torna membro deste país e desta cidade é a qualidade de cidadã e não de cristã ou qualquer outra orientação confessional. Ser cidadã e cidadão é pertencer a um Estado. O Estado moderno, por sua vez, é uma instituição política, fundada em uma sociedade política, jamais em uma comunidade moral ou religiosa. Nesse aspecto o pensamento liberal tem grande contribuição ao defender que o direito tem prioridade sobre noções de bem. E o direito é uma categoria política, inegavelmente, que deve ser universal.
Quaisquer que sejam os nossos posicionamentos sobre a criminalização ou descriminalização do aborto, não podemos sacrificar a democracia em nome dessas escolhas, afinal a democracia é um bem maior. Ou será que nossos representantes eleitos discordam disso? Uma democracia plural e radical, nosso projeto de sociedade, exige o regresso do político, como bem demonstra Chantal Mouffe, no sentido de recuperar a importância da política. Nessa perspectiva, a disputa política deve ter seu lugar em um espaço que possibilite o conflito.
Como Norberto Bobbio já nos orientava, um critério eficaz para analisarmos a qualidade de uma democracia são as possibilidades existentes para o dissenso. O consenso é o pior parâmetro possível para a democracia. Esperamos então, para breve, uma outra audiência, realmente pública, que respeite e garanta o contraditório, a divergência, o dissenso, porque é assim que se pratica e só constrói a democracia.
SILVANA MARIANO é socióloga e professora substituta na Universidade Estadual de Londrina
Benefícios do plantio direto na palha
Márcio Scaléa
A trajetória da humanidade, na sua evolução diária, tem levado o homem a situações paradoxais: todo o avanço científico estabeleceu um padrão de saúde nunca antes alcançado, fazendo com que o aumento populacional fosse drástico. Essa crescente população traz consigo uma demanda por alimentos sem precedentes na história, levando os setores produtivos a esforços e atitudes também sem precedentes para satisfazer essa demanda.
Ao atuarem dentro de sistemas de produção tradicionais, estes esforços e atitudes dos produtores têm causado uma perda de sustentabilidade, inicialmente agronômica, depois econômica, levando extensas áreas a se tornarem improdutivas ou inviáveis para a produção econômica de alimentos. Eis o paradoxo: a falta de alimentos é uma ameaça sobre a cabeça de grande parte da humanidade, apesar de todos os avanços da ciência.
Na abertura de novas áreas para plantio, a agricultura acaba por desalojar as matas nativas, preparando os solos para o cultivo de alimentos. Após alguns anos, a análise mostra que nos sistemas convencionais tradicionalmente usados, com base em operações de preparo de solo com arados e grades, estabelece-se um ecossistema totalmente aberto: há muitas e grandes trocas com ecossistemas vizinhos, o que leva a um forte desequilíbrio entre os seus componentes básicos (mineral e orgânico).
Esse desequilíbrio leva à perda de minerais, conseqüência também da baixa reciclagem. Mas o que talvez seja pior são as perdas de matéria orgânica: a cada preparo de solo toda a massa vegetal ali presente é picada e enterrada, vindo a ser prontamente atacada por microorganismos do solo, gerando, em última analise, gás carbônico e vapor de água, que se perdem para a atmosfera. Essa perda gera uma biomassa cada vez mais escassa, que não é eficiente em reter e infiltrar a água das chuvas, causando erosão. Após alguns anos de adoção, o plantio direto na palha se revela um ecossistema semi-aberto, pois nele ocorrem trocas com ecossistemas vizinhos (coloca-se adubo, semente, retira-se produção, produz-se palha). A rotação de culturas, o cultivo de espécies para cobertura e produção de palhadas, a integração entre agricultura e pecuária, tudo leva a uma boa reciclagem dos minerais e à manutenção e até melhoria da matéria orgânica.
Consegue-se, com isso, a reativação da biomassa, que passa a interceptar a chuva de forma eficiente, estocando água no solo, alimentando o lençol freático, regularizando o fluxo de nascentes e rios, eliminando a erosão. É a volta da sustentabilidade agronômica, representada pela diminuição das perdas minerais e principalmente de matéria orgânica e pelo melhor desfrute da água disponível, que traz consigo o retorno à sustentabilidade econômica. Se a sustentabilidade é um fator essencial na luta pela produção de alimentos para uma população em explosão, o plantio direto na palha é uma valiosa ferramenta na busca dessa sustentabilidade.
MÁRCIO SCALÉA é engenheiro agrônomo aposentado em São Paulo
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