ESPAÇO ABERTO
O sonho das inovações tecnológicas
Renan Boldori Santos
A nova aplicação tecnológica produzida nos últimos anos tem refletido profundas transformações na sociedade, nas relações de trabalho e no cotidiano das comunidades.
No entanto, estes conjuntos de novas técnicas atingem as camadas sociais de maneiras completamente heterogêneas. Há aqueles que, na condição de privilegiados, nascem em contato com os instrumentos eletrônicos que possibilitam um desenvolvimento intelectual muito maior do que a maioria das camadas sociais. Estas últimas, não tendo possibilidades financeiras para o acesso a tais instrumentos, se vêem excluídas deste processo de constantes inovações.
Lembrando do saudoso expoente da Geografia Humana, o dr. Milton Santos, pode-se seguramente dizer que é inegável que esta verdadeira revolução tecnológica acentuou ainda mais as desigualdades sociais, à medida que na prática esses meios ainda são elitizados, tendo como pólos concentradores os países do hemisfério Norte.
O sonho de que as inovações tecnológicas trariam para a humanidade a automação como forma de possiblitar ao homem maior tempo para si próprio, se concretizou apenas no sentido de desempregar as massas trabalhadoras, principalmente pelo fato de que, as relações de exploração do trabalho não foram inovadas na mesma proporção.
Obtém-se como conseqüência dessa mistura de contradições entre modernização tecnologia e exclusão social, um verdadeiro barril de pólvora evidenciado na América Latina, na África e no sudeste Asiático. Nestes locais, ocorrem
manifestações sociais de todos os níveis, desde simples e pacíficos protestos até guerras civis de proporções desastrosas.
Portanto, não são poucos os desafios que a amplitude da questão nos apresenta. Mas o desafio da inclusão social e tecnológica, precisa ser encarado pela sociedade organizada como um compromisso prioritário de ações efetivas, que produzam verdadeiros resultados a fim de recriar as comunidades do futuro.
RENAN BOLDORI SANTOS é geógrafo, especialista em Filosofia política e jurídica e educador do ensino fundamental e médio em Londrina
Lei Seca: medida paliativa
Norton Luiz Lenhart
Ao sentir-se incapaz de cumprir suas obrigações constitucionais de propiciar segurança, saúde e educação aos cidadãos, o poder público envereda pelo caminho fácil de buscar medidas pontuais capazes de dividir com particulares tais responsabilidades. É o que vem acontecendo com a violência que as autoridades responsáveis pela segurança buscam caracterizar como proveniente do uso de bebidas alcoólicas em horário noturno. Por isso, em diferentes unidades da Federação, proliferam leis, decretos e outros atos normativos de menor hierarquia impondo a denominada Lei Seca.
O fechamento de bares e restaurantes a partir das 23 horas, a denominada Lei Seca, além de ferir frontalmente as liberdades constitucionais do direito de locomoção e do exercício profissional, constitui um verdadeiro toque de recolher dos tempos de guerra. A rigor são medidas paliativas, sem maior profundidade ou consistência, que pretendem demonstrar a preocupação das autoridades com a segurança da coletividade, mas na realidade revelam o fracasso das políticas de segurança pública. Embora a sociedade esteja ansiosa por iniciativas que possam implicar a diminuição da violência em todo o território nacional, não serão medidas pontuais e paliativas que diminuirão a criminalidade.
Sua complexidade exige que se ataque o problema dando especial atenção às próprias desigualdades que afetam nossa sociedade. Requer ações conjuntas e planejadas no âmbito de políticas públicas de segurança, de educação e de desenvolvimento social, especialmente nesta última: a geração de emprego e renda, bem como oportunidades aos jovens e cidadãos em geral, carentes de lazer e ocupação construtiva.
Sem qualquer diagnóstico sério ou estudo mais aprofundado sobre suas conseqüências, iniciou-se em âmbito nacional desenfreada reprodução de cópias, na maioria das vezes malfeitas, do modelo aplicado de Diadema (SP) onde o fechamento dos bares a partir das 23 horas constitui apenas parte de uma solução local. Lá houve a prévia mobilização da sociedade organizada, estudo da maior seriedade e, principalmente, observância das peculiaridades locais, ressalvando-se apenas a posterior falta de acompanhamento das providências implementadas.
Ao contrário desta experiência pontual de Diadema, nenhum dos projetos legislativos posteriormente lançados em diferentes estados e municípios foi precedido de estudos que estabeleçam um real vínculo entre o horário de funcionamento de bares e a violência. Tornou-se comum apontar que onde uma Lei Seca foi adotada as ocorrências policiais diminuíram. Que pesquisas são essas e qual o grau de confiabilidade?
Nossos bares e restaurantes movimentam a economia, gerando empregos para os cidadãos e impostos para o governo. Criam referências simbólicas e marcas culturais, além de oferecer às cidades uma das mais efetivas bases de interação e convívio. A implementação indiscriminada de qualquer proposta de Lei Seca representa um forte golpe na economia familiar, lançando ao desemprego alguns milhares de cidadãos envolvidos direta ou indiretamente nessa atividade. Bares e restaurantes contribuem para a vitalidade das cidades e não é restringindo-se a vida noturna que se acabará com a violência. Os malfeitores e arruaceiros não precisam ingerir bebida em bares e restaurantes, com hora marcada, para sustentar atos criminosos.
NORTON LUIZ LENHART é empresário em Porto Alegre e presidente da Federação Nacional de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares
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