Por uma Londrina atrativa

Humberto Yamaki
  Em 1964, Curitiba tinha cerca de 500 mil habitantes, a população atual de Londrina. O ‘‘Novo Guia Informativo Turístico de Curitiba’’ indicava os seguintes locais de visitação: Biblioteca Pública, Centro Cívico, Universidade Federal do Paraná, Passeio Público, Colégio Estadual, Praça Rui Barbosa, Fonte de Água Ahu, Graciosa Country Club, Alto das Mercês e as Ruínas de São Francisco, nesta seqüência. Completavam a pequena lista: a Catedral, a Igreja da Ordem, a Igreja do Rosário e alguns outros templos.
  Surpreendentemente, três páginas eram dedicadas a São Bento do Sul (SC), chamada de ‘‘A Petrópolis Catarinense’’ que ficava, segundo o Guia, a apenas 105 km de Curitiba. A capital do Estado tinha até então poucos atrativos. Hoje, Curitiba se transformou em um grande pólo turístico. Quase todas as atrações, com destaque para os parques e bosques temáticos, foram conquistadas ao longo das quatro últimas décadas.
  Podemos tentar traçar um paralelo com Londrina. Um ‘‘Roteiro Turístico de Londrina’’ foi publicado em 1972. Apontava como pontos de interesse: as fazendas de café e pecuária, clubes sociais, Horto Florestal, chácara Imagawa, ginásio de esportes, Lago Igapó, chácara Al Toscano, Águas Lon-Rita, Templo Budista, Cidade Universitária, Nova Catedral, cinemas, teatros, Shopping Center Com-Tour e o Parque de Exposições Ney Braga. Três fotos ilustravam o referido Roteiro: a vista do movimento noturno da Avenida Paraná, a vista aérea do IBC, e... a lareira da boite Nova Diana. Londrina tinha na época poucos atrativos, a exemplo de Curitiba.
  Trinta e cinco anos depois, não se têm muito a acrescentar naquela lista de 1972. É preciso refletir sobre a questão da atratividade urbana. Cidade de frente da colonização, a Londrina multicultural deveria aproveitar melhor a história heróica gravada no seu imaginário. Saber valorizar os horizontes, as paisagens naturais. Não aos holofotes desta ou daquela obra instantânea milagrosa, mas a regeneração através da preservação sensível das atmosferas dos bairros tradicionais, das construções vernaculares, das paisagens construídas lentamente. É preciso capitalizar e harmonizar os atributos naturais e culturais. Recriar uma cidade coerente, ambiental, social e economicamente.
HUMBERTO YAMAKI é professor do Mestrado em Geografia, Meio Ambiente e Desenvolvimento na Universidade Estadual de Londrina


Antes tarde do que nunca

Gaudêncio Torquato
  Há 30 anos o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., dando vazão ao sentimento da sociedade brasileira, escreveu e leu a ‘‘Carta aos Brasileiros’’. O País abria as portas da redemocratização. Hoje o Brasil vive sob o Estado de Direito, mas vegeta sob o Estado da ética e da moral. Em três décadas o País eliminou o chumbo que cobria os muros de suas instituições sociais e políticas, resgatou o ideário libertário que inspira as democracias, instalou as bases de um moderno sistema produtivo e, apesar de esforços de idealistas que lutam para pôr um pouco de ordem na casa, não alcançou o estágio de nação próspera, justa e solidária.
  Não por acaso, o professor Goffredo, hoje com 92 anos, confessa ter vontade de ler uma segunda carta, desta feita para conclamar pela reforma política e por uma democracia participativa, em que os cidadãos votem em idéias, e não em fulanos, beltranos e sicranos. O espetáculo é a nova forma de fazer política. O meio é a mensagem. O palco iluminado é o que conta. O resto é acessório. Se a feição dos atores políticos espelha a cara dos brasileiros, convenhamos, nunca foi tão cheia de protuberâncias. Veja-se a estampa deformada do Congresso Nacional neste momento em que o País vê com perplexidade o fogo que consome o resto de imagem do presidente do Senado. Ao permanecer na cadeira presidencial, sem se licenciar do cargo para se defender das acusações que lhe são feitas, Renan Calheiros elege o deboche como ação. O clima de delegacia de polícia rebaixa a Casa, também conhecida como Câmara Alta (parece ironia).
  Na eventual segunda ‘‘Carta aos Brasileiros’’, o mestre Goffredo escolheria como núcleo a reforma política, eixo da democracia participativa com que sonha. Mas falta disposição aos congressistas para fazê-la. Reformar a política requer a instalação de uma base moral, que começa com o princípio da fidelidade. Acontece que o instrumento não é consenso entre os pares por esvaziar a feira de miudezas em que se transformou o Congresso. Fidelidade é compromisso com programas e valores. Há, entre nós, não mais que cinco ou seis grandes tendências, tomando como referência os espaços da direita para a esquerda, passando pelo centro, e as proximidades entre as áreas. Os partidos precisam ocupar tais espaços e se banhar de ideário. Sem uma base eleitoral mínima os entes partidários tendem a cair na indigência, poluindo o ambiente de miasmas. Seria mais útil aos eleitores que as grandes questões nacionais recebessem de cada partido diagnóstico apropriado e proposta de solução. O voto será dado a quem melhor encarnar a expressão do eleitor.
  A utopia nacional, porém, resvala pelo terreno da desilusão. Quem não se lembra do entusiasmo do presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, ao assumir o cargo? Era um reformista por excelência. Tinha como lição primeira a reforma política. E o que temos? Um arremedo de mudança, um pouquinho de fidelidade aqui, um dinheirinho público acolá para financiar campanhas, enquanto uma pilha de estacas sustenta o status quo. Eis o escombro da reforma. Demonstração de incapacidade da Câmara Baixa (não há desapreço na expressão) é a bandeira que já se desfralda em torno de uma Constituinte exclusiva para reformar a política. Pois é o discurso defendido pela Ordem dos Advogados do Brasil, com os aplausos do PT. O que não se consegue fazer pela via ordinária se tentará fazer pelo desvio transversal.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político em São Paulo


- Os artigos devem ter, no máximo, 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup