Dez eixos da Conferência de Aparecida

Dom Orlando Brandes
  O Documento de Aparecida indica rumos para nossa ação evangelizadora. Vamos aqui refletir sobre dez eixos, dez propostas, dez linhas mestras para impulsionar a vida cristã e o dinamismo pastoral em nossos dias.
  1. Viver a alegria de ser discípulo. O eixo da alegria perpassa o Documento. Não se trata de um sentimento qualquer, mas de um testemunho de vida. A alegria é um sacramento, um sinal, uma confissão de fé. Chega de Igreja carrancuda e de murmuração. Precisamos ser Igreja de atração.
  2. A conversão pastoral. É um apelo veemente. Passou o tempo da acomodação pastoral. Nada de retrocesso, nem conservadorismo. Conversão pastoral é imbuir-se de espírito missionário e abandonar as estruturas caducas (nº 379). Perceber os sinais dos tempos, criar comunidades vivas, ter projetos pastorais são elementos da conversão pastoral.
  3. A missão permanente. A Igreja deve estar em estado de missão, fazendo de cada batizado um missionário e da família um santuário. Missão corpo a corpo, de casa em casa até os confins do mundo. Assim acontecerá a missão continental.
  4. O primado da Palavra. Na escola da Palavra surgirá a primavera da Igreja, aumentará o ardor missionário, acontecerá a conversão à santidade. A porta de entrada no santuário da Palavra é a leitura orante da Bíblia.
  5. A experiência do encontro com Cristo. No início da vida cristã não está um doutrina, nem uma ética, mas o encontro pessoal, a experiência transformadora e fascinante da amizade com Jesus amigo, salvador, profeta, Filho de Deus.
  6. A centralidade do Reino de Deus. Faz parte da missão e promoção humana, a libertação, o respeito pela dignidade da pessoa. A Igreja está a serviço do reino de Deus que é o Evangelho, o próprio Jesus, promovendo a vida, ensinando o amor, revelando o Pai.
  7. Ser Igreja da atração. A Igreja cresce pela atração. Quanto mais santa, mais atraente, mais servidora, sendo casa e escola de comunhão, onde os pobres se sentem como em sua casa.
  8. A prioridade da vida. A Conferência de Aparecida foi uma ‘‘opção pela vida’’ (nº 430). Desde a vida no ventre materno, passando pelo meio ambiente, assumindo a vida nova em Cristo e com olhos fixos na vida eterna, o Documento de Aparecida colocou a vida como prioridade.
  9. A formação dos discípulos missionários. Esta formação não é só doutrinal, mas existencial, envolvente a partir da iniciação cristã, com um forte toque bíblico. Começa a partir do encontro marcante com Cristo. A oração é escola de formação como também os grupos de reflexão.
  10. O continente do amor. A América Latina e o Caribe, pela fé do povo, pela religiosidade e solidariedade devem viver a espiritualidade de comunhão, realizar a integração continental e ser, no mundo, o Continente do amor, da vida, da paz. Por ser o maior continente católico, deve ser o Continente do amor que é o maior mandamento.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


Flashes em museus

Christian Steagall-Condé
  Assim como o leitor Mario Gonçalves Dias Junior relatou em carta à FOLHA (13/08), passei pela desagradável experiência de ser advertido - quando não impedido - de fotografar no interior de museus pelo uso do flash da câmera. De fato, o lampejo dos flashes eletrônicos são potentes a ponto de preencher com seus clarões todo um ambiente, por vezes inundando de luz branca alguns bons metros adiante do ‘‘estouro’’ do flash.
  Esse proibição museológica de quase 50 anos teve início na Europa, em especial nas cavernas pré-históricas de Altamira na Espanha e Lascaux na França. Lá, antropólogos constataram que as camadas mais externas das pinturas rupestres (reproduzindo o cotidiando de nossos antepassados, ao retratarem bisões e mamutes) ficaram ali preservadas à sombra, ao abrigo do ar e longe da curiosidade humana por mais de 250 mil anos, mas não estavam resistindo à ‘‘fritura’’ dos pigmentos naturais graças aos lampejos dos flashes. Apenas para ilustrar de forma dramática um mesmíssimo efeito, a bomba atômica norte-americana lançada de avião pelos militares sobre a população civil de Nagasaki produziu um flash tão potente que essa luz súbita chegou a imprimir sombras de objetos estáticos sobre as superfícies. Em alguns casos, incendiando-os muito antes de a onda de impacto da explosão atingir a cidade, cegando aqueles que estavam com o olhar voltado para o epicentro do alvo devido à queima da retina - como acontece com um filme fotográfico comum exposto sem proteção à luz do dia. Antes obtido por magnésio moído - e em alguns casos pólvora -, um flash de câmera é um prodígio da natrureza tecnológica humana. Ele reproduz em miniatura o Sol, elevando a chamada ‘‘temperatura’’ da luz, medida em graus Kevin. Essas medidas são superiores aos 5.000 Kevins por volta do meio-dia e vai declinando até perto de zero quando cai o anoitecer. Essa mesma nanotecnologia, que equipa a maioria das câmeras, também traz reguladores automáticos da entrada da luz. Eles permitem registros perfeitos sem termos o menor conhecimento do que venha a ser de fato uma fotografia, tornando-nos, quando muito, meros apertadores de botões. Assim, o flash retorna ao que de fato é: um acessório que deve ser invocado somente em condições críticas de absoluta falta de luz, pois a possibilidade de uma rápida pré-checagem da imagem capturada, permite sua substituição imediata e um novo registro pode, então, ser feito.
  No mais, museus modernos possuem farta iluminação, adequada e especialmente indireta no tocante às obras expostas, apropriada não somente ao estímulo fotográfico, como para se criar atmosfera. Com o passar do tempo, essas providências deverão ser tomadas em nosso belíssimo acervo do Museu da Universidade Estadual de Londrina, adaptado para funcionar sob os inspiradores telhados da imponente ex-Estação Ferroviária.
CHRISTIAN STEAGALL-CONDÉ é arquiteto e urbanista em Londrina


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