ESPAÇO ABERTO
A atividade política
Servio Borges da Silva
Vivemos um momento de caos, desordem social e beligerância nas ruas de quase todas as cidades grandes e médias do nosso País. Londrina também está tomada por indizível e enorme violência que está abalando os alicerces de toda a sociedade. Até parece que um verdadeiro furacão vem tomando conta de nossas cidades. Chegou-se ao ponto do governador mandar uma grande quantidade de soldados patrulhar - em duplas - diferentes pontos de Londrina.
Tudo isso não poderia estar acontecendo, pois há uma ordem estabelecida visando proteger os cidadãos, as propriedades, lojas, estabelecimentos e tudo o mais que compõe a vida em sociedade. É lamentável que esteja acontecendo em Londrina uma desordem tão grande patrocinada pelo crime organizado que vem se alastrando e deixando um rastro de ilegalidade, violência, mortes e desordem.
Por que isso acontece? Por causa da corrupção. Quando falamos pela primeira vez em corrupção, recebemos como resposta o desprezo de grande parte da população. Entretanto, essa mesma população está cansada do que está acontecendo, está exausta de tanta indiferença por parte de parcela das chamadas autoridades competentes. Diante desse enorme quadro de corrupção e incompetência por parte dos que têm o dever legal de agir, a população não sabe como atingir seus objetivos e metas prioritários: mais empregos, trabalho para todos, divisão melhor do chamado bolo. E, em especial, que o capital sirva efetivamente para financiar obras sociais e não vá para os bolsos sujos dos políticos inescrupulosos e mercenários, que infestam o cenário nacional.
Enquanto a população votar nesse tipo de gente, de caráter duvidoso e memória fraca, não teremos uma sociedade melhor. Enquanto o voto da pobreza for menor do que a pobreza do voto nada mudará. Portanto, já está na hora de aprender a votar, de não barganhar o voto e valorizá-lo para que ele (voto) mude a nossa sociedade. As eleições estão próximas, os candidatos já se movimentam - são sempre os mesmos. Será que não aparece um Hosken de Novaes, um José Richa para mudar a história de nossa cidade? Esses homens fizeram Londrina ser uma cidade grande. Cadê os políticos de visão, os homens que irão mudar a cidade, melhorar a sua história, acabar com os buracos do Calçadão, das pedrinhas soltas? Cadê os homens que vão transformar os bairros em belos lugares, onde caibam todos os londrinenses?
Londrina pode mudar, se transformar, dar empregos, trazer turismo, manter imóveis valorizados. Falta votar bem.
SERVIO BORGES DA SILVA é advogado em Londrina
Divisões perigosas
Edna Roland
O caso ocorrido recentemente na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que envolveu a empregada doméstica de cor parda Sirlei Dias de Carvalho Pinto repete a mesma cena brasileira de tantos outros episódios: não se trata da ausência de limites, mas da existência da geografia da raça, cor, classe e gênero, traduzida em tacanhos estereótipos que expressam as hierarquias sociais vigentes.
Uma mulher parda, em um ponto de ônibus às 4h30 da manhã, só pode ser uma prostituta e, portanto, pode tornar-se um saco de pancadas de jovens quase brancos da emergente classe média da Barra da Tijuca. Convém lembrar que quatro desses jovens foram reconhecidos na delegacia pela empregada como os agressores que a espancaram e a roubaram.
O pai do quinto agressor - um estudante de Direito - bem treinado na ética brasileira, que aplica a lei de acordo com a raça e a classe do acusado e da vítima, declarou que as crianças (sic) que espancaram Sirlei não deveriam ser presas, pois estudam na faculdade e trabalham. Portanto, não são bandidos.
Bandidos, no Brasil, como sabemos, são sempre pardos ou pretos, são desempregados, não chegam à universidade (especialmente às públicas), moram em favelas onde podem ser mortos ao resistirem à polícia, tenham ou não praticado crimes, sejam crianças, adolescentes ou adultos.
Como, provavelmente, não leram o livro organizado pelos líderes do Manifesto contra as Cotas Raciais, os pueris tijucanos não ficaram sabendo que no país não existem divisões raciais: ignoraram que brasileiros de todos os tons de pele se misturam, e que não podemos aceitar a introdução de uma divisão legal que separe e divida o povo. Deve ser, por isso, que quebraram o braço e o rosto da mulher.
Os agressores de Sirlei ignoraram, assim, que raça não existe. Não agiram por causa de raças oficiais, supostamente criadas agora pelas políticas de ação afirmativa que estão colocando negros nas universidades brasileiras. Agiram a partir do velho racismo nacional, que pode ser muito confortável para pesquisadores que, durante décadas, se beneficiaram de recursos para estudar um fenômeno tão peculiar e que, agora, começa a ser enfrentado por políticas propostas por aqueles que foram o seu objeto de estudo.
Diferentemente do que supõem alguns, o comportamento dos jovens, que moram em condomínio de luxo, não resulta de uma falha na sua formação familiar. Pelo contrário, expressa a eficácia da introjeção do racismo, do sexismo e da formação dada pela família, pela escola, por universidades em que não se convive com pessoas negras em pé de igualdade.
Ao contrário do que propalam os seus detratores, as políticas de ação afirmativa nas universidades promovem a integração racial. Além de garantirem o acesso ao ensino superior a negros e estudantes egressos de escolas públicas, ao colocar lado a lado negros e brancos no ambiente universitário, elas têm o potencial de humanizar os jovens brancos das classes média e alta, habituados a pensar que negros e negras são cidadãos de segunda classe, destinados a serem objeto do seu prazer e do seu ódio.
EDNA ROLAND é psicóloga e responsável pela Coordenadoria da Mulher e da Igualdade Racial da Prefeitura de Guarulhos (SP)
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