O falso ouro de Cuba

Nélio Roberto dos Reis
  Esquecendo conjecturas filosóficas e considerando fatos, as 59 medalhas de ouro de Cuba são falsas. De qual outro país 13 atletas desertariam? De qual outro país os agentes de segurança fariam vigilância cerrada e obrigariam os atletas a embarcar de volta sem mesmo poderem receber as medalhas que ganharam, alguns até sem tomar banho e outros somente com a roupa do corpo?
  Vamos aos motivos. Quando houve a desintegração da União Soviética, idos de 1991, os cubanos, sob os cuidados exclusivos de Fidel, passaram fome. Segundo dados das Nações Unidas, os cubanos emagreceram 10 quilos em média em três anos, passando fome. Começou um drástico racionamento de leite para crianças e de luz para todo mundo. Foi notória a caça de intelectuais pelo regime, alguns por simples demonstração de opinião. Em 2005, cinco mil cubanos tentaram desembarcar na Flórida, 50% conseguiram, o resto foi interceptado. Os que foram apanhados pela guarda costeira de Cuba foram fuzilados para servir de exemplo. Pelo mesmo motivo, seis mil conseguiram fugir para o México.
  Os Estados Unidos têm uma base militar em Guantánamo, território cubano; presos ali não têm o direito de processo na justiça do qual o justiceiro Fidel nunca reclamou (desde o ano 2000, mil americanos subsidiam arroz, milho, frango e frutas em troca do silêncio). Então o governo investe nos atletas para mostrar uma imagem de Cuba que não existe e os atletas treinam ao máximo, não para a glória olímpica, mas simplesmente para fugir. Bem diferente de pobres brasileiros que conseguem títulos à custa de penúrias. Dá para imaginar por que não se treina muito em Cuba esportes náuticos, os remadores treinam em água doce ou vigiados e se esforçam ao máximo porque, se algum dia tiverem uma canoa no mar, o mundo inteiro sabe bem o que vão fazer.
  Se Cuba fosse livre não seria maravilhosa só pelas suas belezas naturais, mas receberia como turistas 250 milhões de americanos loucos pelo clima do Caribe e poderia ser um país rico e glorioso de forma verdadeira nas suas competições. Como um único homem pode incapacitar um país inteiro?
  Diz-se por aí, que Fidel, já velho, preocupado perguntou ao irmão, que agora cuida do poder:
- Mano, e se nossos compatriotas não te seguirem quando eu me for?
  Ao que o irmão prontamente respondeu:
- Não se preocupe, porque aqueles que não me seguirem certamente te seguirão.
NÉLIO ROBERTO DOS REIS é professor na Universidade Estadual de Londrina


Ranhuras sociais

Gaudêncio Torquato
  As polêmicas ranhuras que as autoridades governamentais não conseguiram fazer na curta pista principal do aeroporto de Congonhas começam a aparecer nos espaços sociais, formando sulcos profundos em áreas centrais e entalhes mais suaves nas margens. A síndrome da emoção, o que a era Lula mais temia, chega trazendo na bagagem o medo, a raiva, enfim, a sensação de que o governo é o principal responsável pela dor de famílias enlutadas e de clientes da aviação, que se sentem jogados num vácuo civilizatório. A frustração coletiva se expande nas ondas de dúvidas, acusações recíprocas, deboches, condecorações esdrúxulas, ditos e desmentidos sobre as causas do acidente com o Airbus 320 da TAM que vitimou cerca de 200 pessoas em São Paulo.
  Cenas flagradas pelas emissoras de TV nos principais aeroportos nacionais mostram que, entre passageiros esgotados pelo cansaço, crianças chorando, estrangeiros estupefatos, há pessoas humildes que pagam a passagem em longas prestações. Multidões, que lotam estações do metrô nos horários de pico e são vistas em estádios de futebol, mostram a cara em outros cenários. Não se pretende aqui afirmar que se descortina o apocalipse do Governo Lula. A rede social que montou é e será suficiente para resguardar por um bom tempo seus índices de aceitação. Mas não é resistente a apupos e vaias que podem agredir seus tímpanos.
  Este é, aliás, o desafio com que se defronta o governo. Sairá chamuscado do incêndio que consome os domínios sobre o sistema aéreo? Ao contrário do que se pode imaginar, as massas brasileiras não agem, todo o tempo, como cordeirinhos obedientes ao chefe do bando. Quando se sente ameaçado, o povo reage. É isso que se vê, quando pessoas amotinadas invadem aviões, como em Fortaleza, ou acorrem ao balcão de denúncias para verberar contra as autoridades da Anac, da Infraero, da Aeronáutica e companhias de aviação. Sob este prisma, outros aspectos devem ser observados, começando pela eficácia da gestão Lula. As massas costumam distinguir os casos que atingem indistintamente governantes e classe política e os que afetam diretamente sua vida. No primeiro, está a corrupção; no segundo, a insegurança, o auto-constrangimento, os receios. A corrupção entra no gabinete da racionalidade, enquanto a fobia social percorre as artérias da emoção; aquela não chega a provocar sismos na imagem do governo (‘‘já que todos roubam’’), esta, sim, desmonta conceitos. Um Estado em pane deixa em pânico pessoas de todas as classes. E reforça a visão pessimista sob a qual se espraiam a anomia, o desrespeito, os vandalismos, enfim, a degradação social.
  Mesmo pondo fim à barbárie gerencial, responsável pela baixa capacidade de administrar a crise, o governo sairá arranhado. Ficará marcado pela dificuldade de tomar decisões. Toda vez que a mídia abre espaço para cenas de desespero e desculpas esfarrapadas de autoridades - cada uma querendo eximir-se da responsabilidade -, comentários agudos acendem a fogueira de pequenos núcleos. Nela estão três, quatro ou cinco fogueteiros que se encontrarão, mais tarde, com outros que, por sua vez, se dispersarão pelas multidões alimentando as tochas. Ao final de um longo processo, o fogo se alastrará pelos recônditos mais longínquos. Quando o governo se der conta, a água do carro do bombeiro poderá ser pouca para atenuar o estrago.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da USP e consultor político em São Paulo

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